Plano dos EUA para Venezuela quer ‘evitar caos’, mas quem define o que é ordem?
Contradição se aprofunda quando o próprio governo americano reconhece vice de Maduro como líder do governo interino sem ter legitimado eleições venezuelanas

O plano anunciado pelo governo dos Estados Unidos para a Venezuela, descrito como um processo em três etapa –estabilização, recuperação e transição–, é recebido com cautela e desconfiança. Detalhado pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, e pelo próprio presidente Donald Trump, o plano indica uma supervisão prolongada dos EUA sobre o país sul-americano.
Segundo Rubio, a primeira fase teria como objetivo evitar que a Venezuela “caia no caos”, expressão que já carrega uma contradição central: quem define o que é caos e o que é ordem? Na prática, Washington se coloca como árbitro não apenas do processo político venezuelano, mas também da legitimidade institucional do país.
A contradição se aprofunda quando o próprio governo americano reconhece Delcy Rodríguez, vice de Nicolás Maduro, como líder de um governo interino. Se Maduro é considerado ilegítimo por fraudes eleitorais e violações democráticas, como justificar o aval a uma figura central do chavismo como parte de uma suposta transição democrática?
Um dos eixos centrais é o petróleo
Rubio confirmou que acordos petrolíferos fazem parte da etapa de “estabilização”, com a expectativa de que milhões de barris sejam vendidos para gerar receitas que, segundo Washington, seriam controladas pelos Estados Unidos e redistribuídas em benefício da população venezuelana. Além de confuso, o desenho deixa claro que o controle dos recursos estratégicos do país estaria fora das mãos dos próprios venezuelanos.
Na segunda fase, chamada de “recuperação”, o discurso americano prevê a abertura do mercado venezuelano a empresas dos Estados Unidos e de outros países ocidentais, revertendo o processo de nacionalização do setor petrolífero. Já a terceira etapa, a da “transição”, incluiria anistia a opositores, libertação de presos políticos, retorno de exilados e reconstrução da sociedade civil, elementos que, embora positivos no discurso, permanecem cercados de incertezas.
O silêncio e a ambiguidade em torno do papel da oposição venezuelana também chamam a atenção. María Corina Machado, principal nome opositor, está fora do país e não há clareza se –ou como– ela participaria desse processo. O mesmo vale para Edmundo González, apontado como vencedor legítimo das eleições por setores da comunidade internacional.
Supervisão dos EUA pode durar ‘muito tempo’
As dúvidas aumentaram após entrevista de Trump ao jornal “New York Times”, na qual o presidente afirmou, sem estabelecer prazos, que a supervisão dos EUA sobre a Venezuela pode durar “muito tempo”. Trump também disse que os Estados Unidos vão extrair petróleo do país e admitiu comunicação constante com o governo interino venezuelano, sem explicar por que optou por reconhecer Delcy Rodríguez em vez de apoiar diretamente a oposição.
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A experiência recente dos Estados Unidos em países como Afeganistão e Iraque mostra que promessas de estabilização podem se arrastar por décadas sem produzir resultados concretos. Além disso, há o chamado “fator Trump”: um presidente que frequentemente verbaliza desejos e intenções pessoais, mas que nem sempre consegue transformá-los em políticas sustentáveis.
A opacidade do regime venezuelano, a ausência de imprensa livre e as dificuldades de acesso à informação contribuem para um ambiente de incerteza, no qual narrativas se sobrepõem aos fatos. Nesse cenário, é necessário acompanhar os sinais reais que virão da Venezuela e não apenas as promessas feitas em Washington.
No fim, a pergunta central permanece em aberto: o plano americano levará, de fato, a mais democracia, estabilidade e autonomia para os venezuelanos ou representará apenas uma nova forma de tutela externa, moldada mais pelos interesses estratégicos dos Estados Unidos do que pelas necessidades da população local?
Assista ao comentário completo de Talita Fernandes no Matinal desta quinta-feira (8):