‘A TV que fiz na Globo já não existe mais’, afirma Ernesto Paglia
Em entrevista ao Papo Amado, o jornalista fala sobre a saída da Globo, as mudanças na televisão brasileira e os planos para o comando do 'Roda Viva'

Repórter de rua, contador de grandes histórias e agora apresentador de uma das bancadas mais tradicionais da televisão brasileira. Depois de mais de quatro décadas na TV Globo, Ernesto Paglia assumiu o comando do “Roda Viva”, da TV Cultura, tentando imprimir ao programa um “clima de entrevista coletiva” e um pouco da irreverência que marcou sua trajetória no jornalismo.
Em entrevista ao Papo Amado, Paglia falou sobre as transformações da televisão aberta, a saída da Globo após 44 anos e a percepção de que “o que fiz nesse período já não existe mais”. Sem esconder o incômodo com a busca “pela popularização a todo custo”, afirmou que os recursos diminuíram e que a TV vive hoje outra lógica de funcionamento. Ao falar sobre a saída da emissora, afirmou compreender a “equação” entre tempo de casa, salário e renovação das emissoras.
Na conversa, o jornalista também revisitou momentos marcantes da carreira, comentou os limites éticos do quadro “Vai fazer o quê?” — que definiu como algo “no limiar da profissão e da ética” – e defendeu uma televisão mais diversa, em que “o outro tenha direito à fala”.

Entre as mudanças implementadas no “Roda Viva”, como a ampliação da bancada para seis jornalistas e a inclusão de quatro estudantes de jornalismo, Paglia também falou do papel da TV Cultura como televisão pública e defendeu que o compromisso da emissora deve ser “ter qualidade, educar e oferecer uma alternativa” ao conteúdo comercial.
A seguir, leia os principais trechos da entrevista. Ou assista à íntegra ao final do texto.
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Como foi receber o convite para comandar o “Roda Viva”?
Depois de mais de 40 anos na Globo, dificilmente voltaria à TV aberta, inclusive para a Globo, porque o que fiz nesse período já não existe mais. Os recursos são menores, a vontade de investir é menor e existe uma busca pela popularização a todo custo que não me agrada. Estava sossegado fazendo documentários. Aí aparece o convite para apresentar o “Roda Viva”. Jamais me passou pela cabeça. Achei ótimo, e estou tentando dar ao programa a minha cara. Não sou um apresentador convencional, sou um repórter. De matas e trilhas por aí, estou tentando levar um pouco de descontração para o ambiente da bancada — um clima de entrevista coletiva, que é o meu ambiente.
Como é ir para a bancada?
Divertido. No “Roda Viva”, modestamente, estou descobrindo que marca será [a minha].
Na Globo, como repórter especial, você chegou a ter programas e quadros seus.
É bacana que a televisão também mudou e já não exige o visual tradicional. Esses dias, estava ouvindo a previsão de tempo no rádio, e o apresentador era gago. Maravilhoso. Nós somos gagos, temos voz fina, voz grossa, somos diferentes, pretos, brancos, LGBTQIAPN+, todo o dicionário ali. A televisão hoje tem um espelho que reflete melhor a realidade.
No Fantástico, você tinha o quadro “Vai fazer o quê?”. Como surgiu a ideia e o que você aprendeu como jornalista?
O formato pertencia à Disney. A ideia era gerar uma situação desconfortável, potencialmente polêmica, e ver a reação das pessoas. Honestamente, me incomodava. A coisa de forjar uma situação não é jornalística nem aceitável. Foi no limiar da profissão e da ética.
A TV no Brasil tem um lado educacional importante.
A TV educativa, como a Cultura, mais ainda. Uma das coisas que sugeri — e foi adotada — é que chamássemos universitários de jornalismo para compor a bancada. A TV pública tem um compromisso absolutamente diferente da comercial. A finalidade primeira não é brigar por audiência, não é fazer dinheiro para ninguém. É ter qualidade, educar e oferecer uma alternativa para quem não tem acesso ao conteúdo pago.
Quem foram os seus pais?
Meu pai, Gerardo Paglia, era italiano imigrante. Foi jornalista, tocava mil e um instrumentos, dava aula de latim em cursos de direito. Aqui no Brasil, ele se estabeleceu abrindo um café na Rua Augusta. A minha mãe, Aida, era argentina e estava no Brasil trabalhando na área de vendas. Em Buenos Aires, ela estava acostumada a frequentar cafés. Ela achou esse bar do italiano e começou a frequentar. Deu no que deu.
A transição geracional que está acontecendo na Globo é também um pouco de perfil. Vimos isso primeiro do lado artístico. No jornalismo, era mais raro. Você foi um dos poucos que trabalhava com projetos de fôlego.
Sim, passei um bom período nos últimos anos fazendo coisas especiais que não eram para o mesmo dia. Entrei para essa turma, e foi muito bom. Porque chega uma certa altura da vida em que você não está mais no pique de sair correndo atrás de toda bola.
A demissão te pegou de surpresa?
Você olha em volta e percebe o que está acontecendo. Não fui o primeiro. Fui um dos últimos da minha geração e posição na planilha de pagamentos. Fui percebendo que colegas antigos estavam sendo demitidos e um movimento de preenchimento de espaços. Cinco anos depois… Senti que houve um esforço da direção por me manter, mas chega uma hora que não dá. 44 anos de bola de neve. Vivi momentos de vacas gordas dentro da TV Globo, o que inflou o salário. Quando chegou a hora de mudar o jogo, quase me pediram desculpas, mas eu falei: “Tá tudo certo”. Se a empresa acha que não deve mais manter pessoas antigas pelo nome e pela imagem, é uma equação que só quem está em cargo executivo consegue fazer a conta.
Quem são ou foram suas referências no telejornalismo?
Carlos Monforte e Afonso Mônaco, que me ajudaram a entrar na Globo. Ambos eram repórteres em 1979, quando jornalistas de São Paulo promoveram uma greve por melhoria salarial. Conheci esses dois em piquetes na porta do “Estadão” e da “Folha de S.Paulo”. Quando tudo acabou, fui bater na porta da Globo e lá passei 40 e tantos anos. Outro grande ídolo é o inglês David Attenborough, da BBC, o cara que inventou o documentário de natureza, inovou em linguagem e logística de como fazer uma série em uma viagem só, sempre com um estilo próprio.
Qual a grande reportagem da sua vida?
Gosto muito de três reportagens que acabei transformando num documentário sobre o Ártico, no vilarejo de Karnak, no extremo noroeste da Groenlândia. É um núcleo humano espontâneo; as pessoas moram porque querem, ninguém é obrigado a viver ali. É incrível, um visual que, para nós que estamos acostumados ao verde… o máximo que se pode encontrar é um musgo na pedra. É muito impressionante.
Assista à íntegra do Papo Amado com Ernesto Paglia: