Entrevista

A sensação é de que o braço armado do Estado ainda está sobre nós, diz Itamar Vieira Jr.

O geógrafo e autor relata ao Notas de Rodapé como a violência em Salvador e a desigualdade sistêmica do Estado inspiraram 'Coração sem medo', livro que encerrou sua Trilogia da Terra

03/08/2026 às 06:00 · Atualizado há 2 semanas
Estado
Geógrafo e escritor, Itamar Vieira Jr. descreve a vida periférica da Bahia no Notas de Rodapé

O escritor e geógrafo Itamar Vieira Jr. descreveu, no programa literário Notas de Rodapé, do Amado Mundo, a intensidade de retratar a violência do Estado e a segregação nas periferias brasileiras. Durante a entrevista, ele falou sobre o processo de criação de seu romance urbano “Coração sem medo” e como a dor das mães em busca de seus filhos pautou a construção da obra. 

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“A sensação é de que o braço autoritário armado do Estado ainda está sobre a cabeça de uma parte expressiva da população, como era no tempo da ditadura”, disse ele, comentando sobre a violência em Salvador.

Violência sistêmica do Estado e o peso da história colonial

Diferente do campo retratado em seus grandes sucessos anteriores, a nova obra de Itamar foca a periferia de Salvador e encerra a sua trilogia com foco na ausência de direitos básicos. 

O autor explicou que a violência que assola esses territórios não é algo recente, mas um problema estrutural que “vem de muito antes, que é a violência colonial” e reflete a “sobrevida da escravidão” como forma de punição e controle. Ao revisitar sua própria trajetória habitando diversos bairros periféricos, ele testemunhou de perto as marcas dessa desigualdade. 

“A minha experiência nesses lugares é uma experiência de vida, onde falta saneamento básico, onde falta segurança pública, onde falta projetos de educação”, relatou. 

A dor universal das mães e a força da literatura

A trama do romance acompanha Rita Preta, uma mãe solo que busca incessantemente por seu primogênito, desaparecido após uma abordagem policial. 

O escritor comparou esse sofrimento cotidiano nas favelas brasileiras às tragédias universais, como as vividas por personagens clássicas que lutam em tempos de guerra, e a figuras reais como as mães de Acari no Rio de Janeiro. Ele pontuou que o papel da ficção é ir além dos fatos jornalísticos, muitas vezes colocados com sensacionalismo. 

“A literatura vai por um outro caminho porque mexe com nossos sentimentos, nossas subjetividades”, refletiu. Ele também reforçou que, apesar de todo o horror, a narrativa ainda preserva uma “esperança na justiça” e na capacidade de renovação dessas mulheres. 

Assista ao Notas de Rodapé na íntegra:

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