Reportagem

Antonia Pellegrino conta pela primeira vez como ajudou a tornar pública denúncia contra José Mayer

Presidente da EBC relembra como ajudou a tornar pública a denúncia de assédio contra José Mayer, explica a origem do #AgoraÉQueSãoElas e faz autocrítica sobre a cultura do cancelamento

por Brenda Gusmão
04/07/2026 às 17:35 · Atualizado há 2 meses
José Mayer
José Mayer (Foto: Divulgação/TV Globo)

A escritora, roteirista e presidente da EBC, Antonia Pellegrino, relembrou pela primeira vez em detalhes os bastidores da publicação do relato em que a figurinista Su Tonani denunciou o ator José Mayer por assédio sexual, em 2017. Em entrevista ao Papo Amado, Pellegrino contou como recebeu o relato, explicou o contexto do movimento feminista naquele momento e avaliou o impacto que o episódio teve no debate público sobre violência contra a mulher.

“Soube da história dessa figurinista, amiga de amigos, a Su Tonani, que estava sendo assediada pelo Zé Mayer já havia algum tempo ao longo de uma novela. Procurei-a e perguntei: ‘Você quer falar?’. Ela disse: ‘Quero’. E começou a relatar que ele pegava nas partes íntimas dela na frente das pessoas, fazia brincadeiras constrangedoras na frente de todo mundo. Estamos falando de um homem numa posição de muito poder e de uma assistente de figurino. Sou filha de figurinista e sei o que a minha mãe passou. Me conectei muito com o relato dela”, contou.

Uma das idealizadoras do movimento #AgoraÉQueSãoElas, a roteirista afirmou que a publicação foi planejada para coincidir com o último capítulo da novela “A lei do amor”, exibida pela TV Globo e estrelada por José Mayer. Segundo ela, a intenção era aproveitar um momento em que o ator estaria no centro das atenções para ampliar o alcance da discussão sobre assédio sexual.

“Ela trabalhou o texto e mandou. Já tínhamos experiência em fazer campanhas de mobilização e a novela estava acabando. Resolvemos esperar o último capítulo para publicar o relato naquele dia de manhã. Articulamos previamente com as redes feministas que assim que o texto fosse publicado, iriamos disparar para todas e aí foi o que fizemos. Acordamos, publicamos e disparamos o texto para todo mundo. E aquilo bombou”, disse.

O relato de Su Tonani foi publicado em 31 de março de 2017 no blog #AgoraÉQueSãoElas, que era editado por Antonia Pellegrino e Manoela Miklos, na “Folha de S.Paulo”. No texto, a figurinista afirmou ter sido vítima de assédio moral e sexual durante meses enquanto trabalhava na novela. Após a publicação, a Globo anunciou o afastamento do ator e, dias depois, ele divulgou uma carta reconhecendo que havia cometido “um erro”.

Antonia Pellegrino em entrevista ao Papo Amado (Foto: Amado Mundo)

Pellegrino classificou a mobilização como bem-sucedida por ter levado a discussão sobre assédio sexual para além dos círculos feministas. “A gente pegou um tema que é do feminismo, que é a luta contra o assédio sexual, e pautou isso na cultura. Existe uma certa tendência de que os assuntos das mulheres fiquem entre as mulheres. Eles ganham relevância quando você pauta em um tema que está todo mundo falando, como era o caso do último capítulo de novela”, afirmou.

‘Mexeu com uma, mexeu com todas’

1. Cris Vianna; 2. Bruna Linzmeyer; 3. Cissa Guimarães e funcionárias da Globo; 4. Astrid Fontenelle; 5. Sophie Charlotte; 6. Tainá Müller; 7. Alice Wegmann; 8. Camila Queiroz e Mariana Santos; 9. Drica Moraes; 10. Fernanda Rodrigues; 11. Luisa Arraes e Gabriela Bispo (Fotos: Reprodução)

Um dos desdobramentos mais marcantes da denúncia, para Pellegrino, foi a reação de atrizes, que passaram a compartilhar relatos de assédio e lançaram a campanha #MexeuComUmaMexeuComTodas em apoio a Su Tonani. Para ela, a mobilização ampliou o alcance do debate sobre violência contra a mulher e criou uma rede de solidariedade entre profissionais do audiovisual.

“As atrizes se mobilizaram e resolveram dizer: ‘Mexeu com uma, mexeu com todas’. Até hoje, segue sendo a maior campanha de enfrentamento ao assédio sexual do Brasil. Algumas tinham suas histórias, seja com ele, seja com outros, e quiseram falar sobre isso”, destacou.

A primavera das mulheres e o #AgoraÉQueSãoElas

O #AgoraÉQueSãoElas nasceu na esteira da chamada Primavera das Mulheres, em 2015, quando manifestações feministas ocuparam as ruas e campanhas nas redes sociais passaram a incentivar mulheres a compartilhar relatos de violência e assédio. Ao lado da pesquisadora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública Manoela Miklos, Antonia Pellegrino passou a articular ações para ampliar a presença feminina nos espaços de opinião da imprensa. A iniciativa levou colunistas homens cederam temporariamente seus espaços para que mulheres publicassem textos. Mais tarde, se transformou no blog homônimo na “Folha de S.Paulo”, onde foi publicada a denúncia de Su Tonani.

Antonia Pellegrino e Manoela Miklos foram editoras do blog #AgoraÉQueSãoElas
A última publicação do blog foi em abril de 2020 (Foto: Reprodução)

“[A Manoela e eu nos aproximamos naquele momento], a gente se questionou ‘como fazer essa onda seguir?’ . Falamos: ‘Vamos fazer uma ocupação dos meios de comunicação para levar o debate que começou na rede e foi para a rua para os meios de comunicação’. Não é que não havia mulheres trabalhando na imprensa. Havia mulheres, inclusive em cargos de poder. O que não havia eram mulheres com opinião. Chamamos de #AgoraÉQueSãoElas, que foi a ocupação desses espaços de homens que deixavam de escrever sua coluna naquela semana para que uma mulher escrevesse”, lembrou.

Autocrítica sobre o cancelamento

Ao relembrar o episódio, Pellegrino também fez uma autocrítica sobre a cultura do cancelamento, que ganhou força nos anos seguintes. Embora considere que a mobilização tenha sido importante para romper o silêncio sobre o assédio sexual, ela afirmou que hoje vê limites na lógica dos julgamentos promovidos pelas redes sociais.

“Faço essa autocrítica em relação à tática do cancelamento, porque isso tem consequências muito profundas na vida das pessoas e acaba que você tira a possibilidade da pessoa ter um julgamento na Justiça. Vira um julgamento de redes sociais. Mas, às vezes, alguns movimentos precisam radicalizar para serem ouvidos, e foi o que aconteceu ali”, observou.

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