Reabertura da passagem de Rafah frustra Gaza, e corrupção abala inteligência de Israel
Operação insuficiente na fronteira e o esquema de propina na Shin Bet desnudam o fracasso do acordo de cessar-fogo

A reabertura da passagem de Rafah, na fronteira entre a Faixa de Gaza e o Egito, tornou-se o fato central para compreendermos a atual fase do conflito e a precariedade das negociações diplomáticas. Como é o único ponto de acesso que não depende diretamente das fronteiras terrestres com Israel, Rafah carrega uma carga simbólica sobre a soberania e a sobrevivência palestina.
É fundamental contextualizar a abertura de Rafah dentro do que ocorre atualmente em Gaza e no conflito em geral. O modo como esse processo se deu, e os desdobramentos desde então, são muito simbólicos. Trata-se de um resumo nítido do cessar-fogo assinado sob a mediação de Trump, expondo sua fragilidade e seus problemas, visto que esta é a única via aberta para o fluxo de pessoas em Gaza.
Havia uma expectativa elevada, pois a reabertura, ocorrida há poucos dias após mais de dois anos fechada, era um dos pontos previstos no acordo de cessar-fogo. Mas só ocorreu apenas quase cinco meses após a assinatura do acordo, de maneira desastrada e limitada, ficando muito aquém do esperado e do necessário, conforme as demandas da comunidade palestina e das carências apontadas por especialistas.
Críticas ao governo e a crise humanitária
A reabertura da passagem tem sido utilizada tanto pela oposição quanto por aliados do governo para criticar Benjamin Netanyahu. De um lado, opositores que exigem uma postura mais incisiva em Gaza afirmam que a abertura permite a manutenção do controle pelo Hamas. De outro, aqueles que temem o recrudescimento da guerra criticam a forma como os ataques continuam a ocorrer.
Embora a passagem tenha sido reaberta, o fluxo é insuficiente. Houve apenas três levas de entrada, com cerca de 25 pessoas em cada uma, para um universo de pelo menos 70 mil aplicantes que desejam retornar a Gaza. Além disso, apenas 13 pessoas conseguiram sair ontem para tratamento médico. Além disso, esses trânsitos ocorrem sob bombardeios.
A população de Gaza não vive uma situação de normalidade; não há reconstrução. Muitos permanecem acampados e sob ataques constantes. Sob a ótica de Israel, a narrativa de destruição do Hamas não se concretizou: o grupo permanece no controle.
Escândalos éticos e impacto regional
Observa-se nesta abertura uma pressão crescente contra o governo Netanyahu, alimentada por escândalos éticos. Houve a condenação do irmão do chefe do Shin Bet — uma das agências de inteligência do país — por envolvimento no contrabando de cigarros para a Faixa de Gaza durante os dois anos de conflito. Há escândalos em diversas frentes, e a situação é crítica.
No cenário regional, é importante notar que os países árabes vizinhos não apoiam a causa palestina de forma automática. Algumas nações, sobretudo as do Golfo, buscam normalizar a situação, pois não interessa a persistência do conflito em Gaza; mas isso não significa necessariamente que estejam alinhadas à causa palestina.
No cotidiano, percebe-se que as pessoas estão constantemente apreensivas, mesmo para decisões básicas, temendo a eclosão de um novo conflito. Como brasileira vivendo aqui, noto como isso afeta a vida: não se trata apenas do risco de um míssil, mas do impacto no planejamento diário, na tomada de decisões na hora de votar e, por exemplo, como pressionar a classe política.
Assista à íntegra da análise de Talita Fernandes no Matinal desta quinta (5/2):