Entrevista

Bolsonarismo mostra que, mesmo cansada da política, população se engaja ao se sentir parte

Professora e antropóloga, Isabela Kalil diz que movimento de extrema-direita ofereceu às pessoas uma sensação de participação, ainda que com respostas simples para problemas complexos

08/01/2026 às 15:38 · Atualizado há 9 meses
8 de Janeiro
Na foto, vidro do prédio que STF quebrado nos atos do 8 de Janeiro mostra a estátua A Justiça. Foto: Fellipe Sampaio/STF

Como reforçar o valor da democracia para aqueles que defenderam ou minimizaram os atos golpistas de 8 de Janeiro, episódio que completa três anos nesta quinta-feira?

Para Isabela Kalil, professora de Ciência Política e Antropologia da Fesp (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), reforçar os valores democráticos necessariamente passa por aumentar a participação da população nos processos políticos, ampliando a transparência, o debate, a educação política e as formas reais de engajamento social.

Segundo Kallil, que é pesquisadora das direitas radicais, grande parte do apelo do bolsonarismo esteve justamente na sensação de participação oferecida aos eleitores, ainda que baseada em respostas simplificadas para problemas complexos.

“Democracia não é um valor fixo, mas, sim, um processo que se transforma ao longo do tempo. Ela precisa ser feita e refeita todos os dias. As pessoas se engajam quando sentem que fazem parte”, explicou a antropóloga em entrevista ao Matinal.

Em sua avaliação, apesar de ter passado pelo que classificou como um episódio “ímpar” na história recente do país, o Brasil conseguiu lidar de forma mais consistente com a responsabilização do 8 de Janeiro do que os Estados Unidos. Ao contrário do que ocorreu após a invasão do Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, onde houve indulto presidencial e mobilização em defesa dos envolvidos, o Brasil adotou um caminho distinto, com responsabilização jurídica dos participantes.

Isso porque as investigações ocorreram em um contexto de normalidade democrática, com imprensa livre e atuação independente de instituições.

“Conseguimos lidar da melhor maneira possível com algo tão traumático”, disse.

Na conversa, Kalil também destacou a resiliência do bolsonarismo. Mesmo após a tentativa de golpe e as condenações judiciais, o movimento segue como uma força política relevante por se tratar de um projeto familiar e coletivo, e não exclusivamente dependente da figura do ex-presidente. Assim, ele pode ser representado por outros nomes no campo político, inclusive com potencial eleitoral.

Na foto, a professora Isabela Kalil

Leia abaixo trechos da entrevista com Isabela Kalil ao Matinal desta quinta-feira (8):

Não tem como começar essa conversa sem falar sobre a importância do 8 de Janeiro. Como essa data deve ser pensada e lembrada daqui pra frente, três anos depois?

É uma questão complexa, porque não temos muitos precedentes recentes no Brasil em um contexto de normalidade democrática, com imprensa e pesquisadores livres. O 8 de Janeiro é algo ímpar. Dá para fazer um comparativo com o 6 de Janeiro, nos Estados Unidos, já que o Brasil acabou espelhando aquele processo. Mas a trajetória é diferente. Nos EUA, houve indultos e até marchas a favor do 6 de Janeiro. No Brasil, apesar de ser um processo difícil do ponto de vista político, social e jurídico, conseguimos lidar da melhor maneira possível com algo tão traumático.

Hoje há um ato do Planalto e, ao mesmo tempo, a ausência de algumas lideranças políticas. Como você vê o equilíbrio entre preservar a memória do 8 de Janeiro e o uso político do episódio?

Como foi uma tentativa de golpe de Estado, é inevitável que haja uso político. Tivemos duas grandes narrativas: uma que reconhece a gravidade do que aconteceu e defende a punição dos envolvidos, e outra que tenta minimizar os fatos, negar a violência ou dizer que não houve crime. Essa tensão sempre vai existir. Mas existe um dado factual: houve uma tentativa de golpe e houve punições. O resto são interpretações errôneas da realidade, e cabe às instituições preservar os fatos.

Como o debate sobre dosimetria das penas e uma possível anistia pode impactar a sociedade e o cenário eleitoral?

Independentemente do nome, seja dosimetria ou anistia light, trata-se de uma tentativa de oferecer algum tipo de perdão ou minimização das penas, especialmente em relação ao ex-presidente Jair Bolsonaro. O veto presidencial é esperado. Uma resolução política desse tipo, ainda que possível juridicamente, acaba invalidando um processo judicial que seguiu seus ritos. E isso não elimina a tensão: esse tema continuará sendo um foco permanente de conflito na sociedade.

Como você vê a reorganização do bolsonarismo após o 8 de Janeiro?

É contraintuitivo, mas o bolsonarismo segue como uma força política relevante, mesmo após a tentativa de golpe e as condenações. Houve uma resolução jurídica, mas socialmente uma parcela da população ainda confia esse projeto político a esses atores. O bolsonarismo é um projeto familiar, coletivo, que não depende de um único personagem. Pesquisas mostram que nomes associados a esse campo seguem competitivos eleitoralmente.

Do ponto de vista antropológico, como reforçar valores democráticos sem recorrer apenas ao discurso abstrato da democracia?

Democracia não é um valor fixo, é um processo que se transforma ao longo do tempo. Ela precisa ser feita e refeita todos os dias. As pessoas se engajam quando sentem que fazem parte. O bolsonarismo ofereceu uma sensação de participação, ainda que com respostas simples para problemas complexos. Reforçar a democracia passa por mais transparência, participação, educação política e debate. Apesar do cansaço com a política, as pessoas querem participar e entender. Isso é legítimo.

Assista à entrevista de Isabela Kalil ao Matinal desta quinta-feira (8):

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