Volta do feriado: transporte clandestino ainda é o maior risco à segurança nas estradas
Letícia Pineschi, conselheira da Associação das Empresas de Transporte Terrestre, analisa o recorde de deslocamentos no fim de 2025, os investimentos das empresas e os riscos do transporte irregular

Dezembro e janeiro tradicionalmente concentram um grande fluxo de veículos nas estradas brasileiras, impulsionado pelas viagens de Natal, Ano Novo e férias escolares. No fim de 2025, esse movimento atingiu um novo recorde: as viagens interestaduais de ônibus cresceram 43% em relação a 2023, de acordo com dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).
Ao Matinal, Letícia Pineschi, conselheira da Associação Brasileira das Empresas de Transporte Terrestre de Passageiros (Abrati), explicou que o transporte rodoviário continua ser o principal meio de deslocamento da população, sobretudo por combinar custo acessível, capacidade de distribuição e alcance territorial.
Com estradas mais cheias, a segurança dos deslocamentos se torna uma preocupação central. Pineschi destacou que, nos últimos anos, as empresas do setor ampliaram investimentos em tecnologia e protocolos de prevenção, com foco tanto nos veículos quanto nos motoristas.
Apesar dos avanços, a especialista avaliou que o principal desafio para a segurança viária continua sendo o transporte clandestino, que expõe passageiros e terceiros a riscos elevados. Segundo ela, a prática deixou de se concentrar apenas no entorno das rodoviárias e passou a operar de forma estruturada no ambiente digital.
“A oferta do transporte clandestino na internet é do mesmo tamanho do transporte regular”, alertou.
Leia a seguir os principais trechos da entrevista. A íntegra pode ser assistida, em vídeo, ao final do texto.
O que tem sido notado de tendência do brasileiro nas estradas neste final de ano?
O transporte rodoviário de passageiros continua sendo o modal de transporte mais procurado e o mais democrático, por uma questão de custo-benefício. Pelo escalonamento de preços é possível ser acessado por várias camadas da população, e ainda é o modal que abraça 95% das regiões brasileiras. A capacidade de distribuição dos passageiros pelo Brasil inteiro é incomparável com o transporte aéreo, por exemplo, e mais ainda quando se fala de ferroviário. A gente tem um movimento de passageiros imenso nesse final de ano, e as estradas ficam cheias não apenas de ônibus, mas também de carros de passeio particulares.
A segurança é uma preocupação de todo mundo que vai pegar estrada nessa época. No que as empresas têm investido para aumentar a segurança e conforto dos passageiros?
A segurança das estradas é responsabilidade de todos que trafegam, seja a pessoa no seu carro individual, seja a empresa de ônibus e até mesmo autoridades. As empresas têm um programa de medicina do sono para que, quando a pessoa esteja dirigindo, ela esteja no seu melhor alerta. Algumas tecnologias que vêm sendo desenvolvidas e aplicadas ao transporte rodoviário, principalmente nos ônibus, melhoraram muito as condições das estradas. Hoje, o motorista tem muitos alertas, há equipamentos e dispositivos com câmera que filmam a rodovia, a cabine e estão conectados ao centro de controle operacional em tempo real. Tudo isso facilita e colabora para a segurança.
Mas o grande desafio ainda é o transporte clandestino, que coloca em risco não apenas aquela pessoa que decidiu viajar, ou desavisada ou por opção, pois ainda há muita gente que viaja sem saber que é irregular, mas também todas as outras pessoas que estão trafegando nas rodovias. A falta de comprometimento e responsabilidade de alguns condutores com o consumo de álcool e drogas também é um desafio, mas, no geral, a gente já melhorou muito as condições de segurança nos últimos anos.

Como uma pessoa pode identificar se é um transporte clandestino?
Assim como tudo, o transporte clandestino também se modernizou e foi digitalizado. Hoje, por exemplo, você chega para embarcar em uma rodoviária já com a passagem na mão, adquirida online. Aqueles condutores que ficavam aliciando as pessoas no entorno das rodoviárias para o transporte clandestino perderam a eficácia. O transporte clandestino teve que se digitalizar. A oferta do transporte clandestino na internet é do mesmo tamanho do transporte regular. O maior desafio é verificar se o site da empresa que vai operar o transporte é confiável. Evite comprar em sites que não são da operadora. Outro ponto: quando você se dirige ao terminal rodoviário, se a empresa com a qual você vai viajar não tem um guichê físico para atender e realizar o embarque, desconfie. No terminal rodoviário, você só tem empresas regulares. Se o embarque é na rua, na chuva, na frente de uma loja, num shopping, em um local inadequado, provavelmente não é uma empresa regular.
O bilhete de passagem é uma nota fiscal do serviço. Você tem que ter aquele QR Code que te remete para a Receita Federal. Se você recebe um recibo ou um voucher, algum documento que não seja uma nota fiscal de transporte, desconfie, porque essa empresa, no mínimo, está sonegando impostos, e muito provavelmente não é uma empresa regular. Os preços variam, sim. O transporte clandestino hoje ainda é mais barato que o regular, porque ele não tem nenhum tipo de arrecadação, mas esse não é o único ponto.
Quais os riscos de se viajar em um ônibus clandestino?
Quando a pessoa viaja no transporte clandestino, ela fica sujeita a estar em um ônibus sem manutenção corretiva nem preventiva, com um condutor que não é habilitado ao transporte de pessoas. Não há uma equipe de contingência para resolver um problema na estrada, uma interdição, alguma ocorrência. Até mesmo em um simples extravio de bagagem ou dano a qualquer volume, ela não tem atendimento e fica à mercê. Em caso de acidente, a empresa provavelmente não terá saúde financeira ou estrutura para oferecer o devido suporte às vítimas.
Quais as dicas para quem vai pegar estrada neste início de ano?
Estando em transporte regular, as empresas vão fazer de tudo para que seja uma boa viagem e um excelente início de ano. Fique atento, como em qualquer aquisição não presencial, à reputação da empresa. Verifique se está comprando de uma empresa de transporte regular.