Guerra no Irã: duas semanas após início de ataques, como ficou a relação EUA-Israel?
Ainda que Washington e Tel Aviv permaneçam alinhados em derrotar Teerã, custos da guerra começam a distanciar objetivos em comum

Duas semanas desde o início da guerra contra o Irã, Estados Unidos e Israel permanecem alinhados contra um inimigo comum, mas o prolongamento do conflito mostra que os interesses divergem em alguns pontos.
Quanto à mudança de regime no país persa — ou mesmo o seu enfraquecimento —, o maior beneficiado é Israel, visto que o Irã é a potência regional que desafia a hegemonia israelense e abastece organizações como Hezbollah e Hamas.
Já para os Estados Unidos, esse ganho seria primordialmente para o ego de Trump. Personalista e vaidoso, ele busca incluir em sua biografia o fato de ter sido o único presidente com “coragem” para realizar ataques diretos contra o Irã, superando ações de seus antecessores, George W. Bush e Barack Obama. Economicamente, no entanto, o país teria mais a perder do que a ganhar, sobretudo porque a alta do petróleo deve elevar a inflação no país, e isso desagrada a população em ano de eleição de meio de mandato, quando há renovação de parte do Congresso.
Além disso, politicamente, o prolongamento do conflito vai contra a promessa de Trump, de que ele colocaria os Estados Unidos como prioridade e centro de sua política, em resposta ao esgotamento da população americana com as intermináveis guerras dos mandatários anteriores. Um possível ganho econômico para os Estados Unidos poderia vir do fato de que a pressão ao Irã dificultaria o acesso da China a uma importante fonte de petróleo. Mas, além de o principal rival econômico de Trump estar relativamente pronto para lidar com esse desabastecimento por um tempo, isso não se daria sem custos aos EUA.
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Trump tem dado sinais de que deseja que o conflito chegue ao fim. Em mais de uma entrevista, o presidente americano disse que a guerra estava prestes a terminar e até chegou a declarar vitória dos EUA. As declarações do republicano têm sido contraditórias e, no momento, a decisão de acabar com a guerra parece estar nas mãos do Irã. O país persa intensificou os ataques em direção aos EUA e Israel, seja diretamente, seja por meio de seu aliado no Líbano, o Hezbollah.
Esse cenário indica que, ainda que compartilhem dos meus interesses, Israel e Estados Unidos podem ter objetivos cada vez mais distantes entre si: a Israel interessa estender o conflito, enquanto que aos Estados Unidos, menos, devido aos riscos econômicos e ao desgaste político de Trump. Se os Estados Unidos decidirem desembarcar da operação, seria difícil para Israel prosseguir sozinho.
Reação na Ásia e no Oriente Médio
No cenário internacional, analistas destacam que a guerra não afeta apenas o Irã e Israel.
Embora existam percepções variadas na Ásia e no Oriente Médio, Trump é percebido como um presidente belicista por todos os cantos.
No Oriente Médio, onde os Estados Unidos mantêm aliados — tanto por conveniência como por convicção —, muitos países do Golfo têm sido diretamente afetados, recebendo mísseis disparados no contexto da guerra.
Há uma discussão sobre a exaustão do potencial deles em interceptar tais projéteis e uma expectativa sobre se os Estados Unidos oferecerão ajuda, dado que iniciaram a guerra ao lado de Israel. Ainda que sejam alvos de ataques, os países do Golfo mantêm a leitura de que é melhor não partir para o confronto, seja com Trump, seja com o Irã.
O Irã claramente compreende essa dinâmica e exerce pressão através do disparo desses mísseis contra esses aliados americanos na região, numa estratégia de causar muitos problemas, inclusive econômicos. Sem força para derrotar definitivamente os Estados Unidos ou Israel, o Irã vem utilizando esse movimento para forçar Washington a negociar em condições distintas daquelas com as quais eles se sentaram à mesa antes da guerra.
Esse cenário se reflete também na Ásia. Os países asiáticos demonstram cautela evitando elevar o tom contra Trump, especialmente em um momento marcado por ameaças econômicas e imposição de tarifas.
Em relação à China, embora haja a previsão de um encontro entre Trump e Xi Jinping em abril, sob uma aparente “normalidade”, a segunda maior economia do mundo é afetada pelo conflito. Apesar de Pequim ter recursos para suportar temporariamente o fechamento do Estreito de Ormuz, o país depende do petróleo que escoa por aquela região. Essa mesma prudência em comprar uma briga com Trump é compartilhada por Japão e Coreia do Sul.
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