Entrevista

Déa Lúcia: ‘Meu filho se foi, mas se sentiu amado e protegido’

Ao Papo Amado, mãe de Paulo Gustavo fala sobre a trajetória do filho, a aceitação de sua sexualidade, a relação com os netos e a saudade após a "dor maior"

Publicado em 24/08/2026 às 05:59
Déa Lúcia
Déa Lúcia em entrevista ao Papo Amado (Amado Mundo)

Déa Lúcia aprendeu a conviver com a saudade sem deixar que ela lhe tire a alegria. Cinco anos depois da morte de Paulo Gustavo, sua rotina continua marcada pelo filho: no palco, com o espetáculo “Meu filho é um musical”, que estreou em maio; na televisão, como integrante do elenco fixo do Domingão com Huck; e nas histórias que ainda conta sobre o menino que sonhava em ser artista.

“Sempre fui alegre e vou morrer alegre. Não vou dizer feliz, porque a perda de um filho é a maior dor que a gente pode ter na vida”, afirma Dona Déa em entrevista ao Papo Amado. Aos 78 anos, ela revisita a trajetória do filho desde a infância, quando Paulo não gostava de estudar e já tinha no teatro o grande sonho. Fala também sobre os primeiros trabalhos, a criação de Dona Hermínia, personagem inspirada nela, e a relação dos dois dentro e fora do palco.

Receba no WhatsApp as melhores reportagens, programas e documentários do canal Amado Mundo. Inscreva-se!

A conversa passou ainda pela própria história de Déa, sua carreira como cantora e a influência dos pais, que, segundo ela, já misturavam humor e música em casa. Mas é ao lembrar de quando Paulo contou que era gay que ela identifica um dos momentos mais marcantes da relação entre os dois. “ Só tenho medo do mundo, mas tô fechada com você”, respondeu na época. Anos depois, ela resume o que aquela escolha significou para os dois: “Ele só foi esse homem feliz porque teve uma mãe que o apoiou”.

A seguir, leia os principais trechos da entrevista. Ou assista à íntegra em vídeo ao final do texto.

Como a senhora consegue, passados esses anos todos, manter esse humor, essa leveza e felicidade mesmo tendo perdido o Paulo?
Sempre fui alegre e vou morrer alegre. Não vou dizer feliz, porque a perda de um filho é a maior dor que a gente pode ter na vida. 

Quando o Paulo era criança, a senhora já achava que ia dar um humorista?
O [Colégio] Salesiano botou ele para fora. Não gostava de estudar, o negócio dele era o teatro. A Penha, a “boadrasta” dele, pagou a CAL [escola de teatro no Rio de Janeiro].  Ele se juntou com Marquinho [Magela] e o Fábio Porchat, que eu chamava de Fábio “Porchato”, porque os três me perturbavam. 

Quando viu que tudo daria certo?
Quando ele falava no trabalho de ator, falava com muita seriedade. 

Esse jeito engraçado dele, e que a senhora tem também, vem da sua mãe?
Minha mãe era pior. Ela era terrível. 

Quem foram os seus pais?
Meu pai era muito engraçado, você morria de rir com ele. E mamãe era brava que nem eu, mas mais engraçada. Ela tinha uma voz maravilhosa. Meu pai não falava palavrão. Minha mãe falava um pouquinho. Eu que era terrível, tinha que desabafar de alguma maneira, né?

Quando começou a sua carreira de cantora?
Paulo e Juliana eram pequenos, eu separada, e não tinha como sair para arranjar um emprego.  Morávamos em Niterói e eu amava música. Uma amiga minha falou: “Déa, começou uma seresta aqui na rua”. Era na Moreira César, que hoje em dia leva o nome de Paulo Gustavo. O Arídio Lacerda, que comandava a seresta, me observava, e eu estava  cantarolando baixinho. Um dia, ele falou: “Você aí, ó, levanta, vem cá cantar”. Fui e nunca mais parei.

Qual o conselho que você dá para um pai ou mãe que tem dificuldade de aceitar a orientação sexual do filho?
Você tem que abraçar seu filho, aceitar o seu filho.  Quando percebi, falei: “Tenho que proteger meu filho desse mundo mau”. Sentei e perguntei: “Você é homossexual?” Ele falou: “Sou”. Levantei, fui para a cozinha. Ele foi atrás: “Mãe, tem algum problema?” Eu falei: “Para mim, não. Só tenho medo do mundo, mas tô fechada com você”. 

O que a Dona Hermínia tem que conquistou o Brasil?
Ela é a louca, que fala mesmo e pronto. 

Quando Paulo falou: “Mãe, estou fazendo uma peça sobre você”, deu um friozinho na barriga?
Eu falei: “Isso vai ser um desastre. Vai falar o que de mim, Paulo Gustavo? Está maluco?”. Foi o maior sucesso.

Como era a relação com ele no palco?
Era muito engraçado, e tenho muita saudade dele. Fico me perguntando o que ele estaria imaginando hoje, ao me ver com todas as crianças que fazem o musical. Ele ia dizer: “É a praia da mamãe, cheia de filho”. E eu adoro. Não pude ter mais. Queria uns seis. 

Na pandemia, você pegou Covid-19 antes dele. Como foi?
Ia fazer uma cirurgia de catarata, e o meu médico falou para fazer um exame de Covid. Deu positivo. Liguei para o Paulo e disse que não poderia passar o Natal com ele. Passados uns 15 dias, fiz  novo exame e nada. Fiz a cirurgia e passei o Natal no sítio. 

Quanto tempo depois ele foi contaminado?
Um ano depois. 

Quando o Paulo adoeceu, já tinha vacina?
No Brasil, não tinha. Tinha vacina lá fora,

Talvez a gente já pudesse ter tido vacina no Brasil, não fosse o governo trabalhar contra a vacina e a favor da Covid.
Não vamos falar nesse governo, não, pelo amor de Deus.

Ensina pra gente um pouquinho do timing do humor.
É o meu jeito. Não tem domínio de técnica, não tem nada disso.

E o Romeu e o Gael, filhos de Paulo com o dermatologista Thales Breta?
São a continuação. Nosso convívio é maravilhoso.

Eles viram a peça?
Viram a primeira parte, teve intervalo e eles foram no camarim. Me viram e disseram: “Vovó, você cantou bonito”. Foram assistir ao segundo ato. Na hora que fala sobre a morte, depois que eu canto, escurece, vem a pandemia. O Thales tirou e levou pro camarim. Eles ficaram pau da vida: “Vovó, a gente sabe que papai Paulo morreu. Ele [Thales] não quer deixar a gente ver”. Em casa, os dois estavam vendo filme comigo. Na última prateleira da estante da sala, tinha uma foto de Paulo Gustavo e de Dona Hermínia. O Gael olhou e perguntou: “Vovó, papai Paulo usava roupa de mulher?”. Aí o Romeu virou e falou assim: “Usava, ele imitava a vovó”.

A fama te irrita?
Com uma pessoa inconveniente. Mas, a fama em si, não. Gosto que as pessoas me reconheçam. 

Como é fazer 80 anos?
Vou fazer uma festa. Apesar do sofrimento, agradeço a Deus que estou aqui. Por poder contar a minha história, para ajudar outra mãe que perdeu o seu filho ou um filho que quer que os pais o aceitem. 

Dos momentos que você e seu filho viveram, qual o mais especial?
É quando pergunto para ele se ele era homossexual. Eu já sabia a resposta, mas tinha medo de uma negação dele e [de não saber] como iria ajudar. Foi o momento mais tenso. Lógico que sem comparar com os 54 dias de Covid, ele no hospital. Ele só foi esse homem feliz porque teve uma mãe que o apoiou. O momento mais feliz foi quando eu falei: “Meu filho, estou fechada com você”. Meu filho se foi, mas se sentiu amado e protegido por mim e por todo mundo que conviveu com ele. 

Assista ao Papo Amado com Déa Lúcia:

PLAYLISTS
PUBLICIDADE
Publicidade