Entrevista

Lira Neto: ’Quanto mais contraditório o personagem, mais ele me fascina’

Autor de biografias de Getúlio Vargas, Maysa e Padre Cícero, Lira Neto comenta, em entrevista ao Papo Amado, os desafios de escrever sobre figuras controversas e revela por que não biografaria Jair Bolsonaro

Publicado em 13/06/2026 às 06:00
Lira Neto: homem branco de terno falando

Padre Cícero deixou de ser, para o escritor e jornalista Lira Neto, o símbolo da alienação religiosa. Castello Branco exigiu do escritor o esforço de compreender um personagem por quem sentia aversão. E a extensa pesquisa sobre o sambao levou a desconfiar das explicações simples sobre a formação da cultura brasileira.

“Quanto mais contraditório o personagem, mais ele me fascina.” A frase, dita em entrevista ao Papo Amado, do canal Amado Mundo, ajuda a explicar a trajetória de Lira Neto como especialista em biografar personalidades brasileiras. Ao longo da carreira, mergulhou na vida de figuras tão distintas quanto Getúlio Vargas, Maysa, Padre Cícero, Castello Branco, José de Alencar e, mais recentemente, Oswald de Andrade. Agora, prepara aquele que define como o seu “melhor livro”: a biografia de Luiz Gonzaga.

Se a curiosidade costuma guiá-lo em direção aos personagens mais complexos, há uma exceção. Questionado sobre por que não escreveria uma biografia de Jair Bolsonaro, já que biografou Castello Branco, ele afirmou que não teria “estômago suficiente” para a tarefa. Ao explicar a resposta, comparou os militares que participaram do golpe de 1964 aos envolvidos nos ataques de 8 de janeiro e afirmou enxergar uma diferença de formação intelectual entre as duas gerações.

A conversa passou ainda pela cantora Maysa, pelas origens do samba e também pelos bastidores do trabalho biográfico. Lira falou sobre memória e método de pesquisa, explicou por que aprendeu a desconfiar tanto de documentos quanto de depoimentos e defendeu a escrita como um exercício permanente de sedução do leitor.

A seguir, leia os principais trechos da entrevista. Ou assista à íntegra em vídeo no final do texto.

Qual biografado você mais gostou de escrever o livro?
Lira Neto: O meu predileto é o livro que talvez mais tenha me transformado como pessoa: “Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão”.

Quem foi o Padre Cícero?
Uma pessoa controversa. A minha decisão de biografar o Padre Cícero foi movida por muito dos meus preconceitos em relação a ele. Sou absolutamente agnóstico e desprovido de fé. Mas tem uma coisa que ela me ensinou: respeitar a fé sertaneja. Na minha época de faculdade de Filosofia, ele era o símbolo máximo da alienação, da exploração da fé do povo sertanejo.

Ainda vejo essa exploração, mas tem algo que foi revolucionário: o mergulho etnográfico no universo dos romeiros, que é até hoje um movimento muito vivo e reúne anualmente em Juazeiro do Norte 2,5 milhões de pessoas.  Padre Cícero não é mais, para mim, o símbolo da alienação, ele é o símbolo da comunhão de um pastor com o seu povo.

Já mudou de ideia sobre outras personalidades ao pesquisar e escrever sobre elas?
No começo da minha carreira, quis contar a história do golpe de 1964 a partir de um vilão, de alguém que articulou. Foi quando fiz a biografia de Castello Branco. Não para justificar os gestos ou a articulação bem-sucedida dele nos bastidores, mas para compreendê-la. Foi um desafio tentar manter uma linha jornalisticamente equilibrada em um personagem pelo qual eu tinha grande aversão. Quanto mais contraditório o personagem, mais ele me fascina.

Perguntado uma vez sobre que pessoa não conseguiria biografar, você respondeu Jair Bolsonaro porque lhe embrulharia o estômago. O Castello Branco ditador não te embrulhou?
Em determinados momentos, sim. Mas tem uma diferença abissal entre os golpistas de 1964 e os de 2022. Por mais que não gostemos deles, eles eram muito inteligentes e sofisticados intelectualmente. Ainda que discordemos dos métodos e da atuação deles naquele instante histórico, não eram pessoas toscas.

Livros de Lira Neto
Alguns livros de Lira Neto (Foto: Reprodução)

Da política, vamos para a música. De Castello Branco e Getúlio Vargas, para Maysa e para o samba. Onde que esse gênero nasceu?
O livro se chama “Uma história do samba”, não “A história do samba”. Porque não é “a” origem, são “as” origens. É bonito perceber: o samba é plural.

Qual o lugar da Maysa na música brasileira?
Maysa é uma cantora de transição, talvez tenha sido a última cantora do rádio e a primeira grande cantora da TV. A Maysa também passa a ser uma das primeiras vítimas da “imprensa de escândalos”, porque, como ela dizia, só fazia o que queria e só dizia o que pensava.

Por quê?
Porque ela estava sempre em evidência. No ano de 1958, não há um único dia entre 1º de janeiro e 31 de dezembro em que o nome de Maysa não estivesse ao menos em uma publicação. Todos os dias tinha uma matéria, entrevista ou um grande escândalo protagonizado pela Maysa.

Como um biógrafo lida com a memória?
A memória é uma aliada, mas também uma adversária de quem escreve sobre o passado, porque é seletiva, plástica, se transforma, é reelaborada a cada instante. Como jornalista, aprendi desde muito cedo a duvidar das minhas fontes quaisquer que sejam elas. Desde um documento escrito a uma história que alguém me conta. As nossas memórias também são fabricadas. Você vai criando seus métodos de trabalho.

Quais são os seus métodos?
Conto um pouco dessa minha trajetória e métodos no livro “A arte da biografia”. A escrita é um processo de sedução. Você tem que seduzir o seu leitor. Para isso, há uma série de recursos narrativos.

Em quem ficar de olho nessa próxima geração de biógrafos?
Tem um livro que gosto muito. É a biografia do Tiradentes, do Lucas Figueiredo. Também gostei muito da biografia do Ney Matogrosso, feita pelo Julio Maria.

E a biografia do Gonzaga que vem por aí?
Tenho absoluta segurança de que a biografia de Gonzaga será o meu melhor livro. É um personagem fascinante, muito pouco compreendido. Muitas vezes rotulado como um autor regional, folclórico. Gonzaga não tem nada de folclórico. Gonzaga é um autor, compositor e intérprete moderníssimo.

Como se tornar um escritor profissional?

Tem que estar disposto a enfrentar muitos perrengues. Além da insistência, obsessão e da vocação, tem que saber que é uma técnica e você vai aprimorando a cada trabalho. É treino.

Quem foram seus pais?
Minha mãe, dona Darcy, era uma funcionária pública que trabalhou no antigo IAPC, que virou INSS. Ela tinha sido professora e foi a melhor escritora que já li em toda minha vida. Inédita, nunca publicou nada. Vou fazer uma confidência: no colégio, era a minha mãe que escrevia minhas redações. O meu grande sonho era escrever como ela. Meu pai, Benedito, era um caixeiro viajante. Ele passava três dias por mês em casa e os outros 27, 28 na estrada.

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