Beatriz Bulla

Análises sobre política e economia

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Análise

Oscar: diante do estado das coisas, a ausência do tom político nos discursos decepcionou

Enquanto as escolhas dos vencedores mostram alguma preocupação da comunidade artística, os premiados não usaram sua voz nem seu espaço para ressaltar a deterioração da democracia no governo Trump

17/03/2026 às 15:46 · Atualizado há 7 meses
Diretor de “Uma batalha após a outra”, grande vencedor do Oscar, Paul Thomas Anderson não fez qualquer menção política em seus discursos de agradecimento (Foto de Patrick T. Fallon / AFP)

Claramente, quando se está em um momento como o atual, com guerras acontecendo ao redor do mundo e com o presidente dos Estados Unidos — país que sedia o Oscar — iniciando alguns desses conflitos, como é o caso dos ataques feitos em conjunto com Israel ao Irã, é uma opção omitir-se de um debate político no palco de uma premiação como esta. Nesse ponto, a cerimônia deixou a desejar, especialmente porque vimos outras premiações recentes e eventos como o Super Bowl com um tom político muito mais presente.

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Isso não quer dizer que o tema tenha passado completamente batido ou ao largo, pois algumas escolhas refletem o caráter político da própria Academia. A vitória de “Uma batalha após a outra”, um filme que aborda os extremismos da direita radical, é uma decisão política. Da mesma forma, premiar Michael B. Jordan é uma decisão política, assim como o reconhecimento de “Pecadores” nas categorias de Melhor Direção de Elenco e Melhor Trilha Sonora. Trata-se de uma trilha que exalta o blues e a música de resistência americana, inserida em um filme que utiliza uma alegoria de terror para falar sobre como a liberdade dos negros é sugada nos Estados Unidos.

Muitos desses filmes são políticos, alguns mais claramente do que outros — por isso, a ausência de um tom político nos discursos decepciona. Quando um diretor como Paul Thomas Anderson sobe ao palco e não faz qualquer menção ao que está acontecendo hoje nos Estados Unidos, há uma frustração. Enquanto as escolhas dos vencedores mostram uma preocupação da comunidade artística, os premiados não usaram sua voz nem seu espaço para ressaltar a deterioração da democracia no governo Trump.

Quem fugiu a essa regra foi Javier Bardem, que utilizou um broche escrito “Não à guerra” e declarou “Palestina livre” no palco. Em entrevistas posteriores, ele mencionou que, embora tenha sido elogiado nos bastidores, os colegas evitam usar a voz para falar dos problemas contemporâneos. Esse silêncio reflete o tom “bege” e pasteurizado da noite, exemplificado pela entrega do prêmio de Melhor Filme Internacional para “Valor sentimental”. Todos os outros quatro concorrentes da categoria possuíam um componente político muito forte, mas a premiação acabou passando ao largo disso.

A fala mais política deste Oscar acabou ocorrendo na véspera, quando o diretor de “Foi apenas um acidente”, o iraniano Jafar Panahi, interrompeu sua campanha em protesto contra os ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã. Na cerimônia, o clima foi linear e sem grandes sobressaltos, falhando em repercutir como um recado ao governo vigente. Foi um contraste evidente com o Globo de Ouro, o Grammy e o Super Bowl; eventos em que a política e discursos de resistência estiveram fortemente presentes. Realmente, esperava-se que o Oscar seguisse essa sequência, mas isso não teve.

Assista à íntegra do comentário de Beatriz Bulla no Matinal desta segunda (16):

Os artigos publicados pelo Amado Mundo não refletem necessariamente a opinião do site. O objetivo ao publicá-los é estimular o necessário debate em qualquer democracia.
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