Lula faz sábia decisão com ‘morde e assopra’ na aproximação com Trump
Defender o diálogo e ter um canal aberto com americano é importante para defender o multilateralismo, mas visita a Washington é um outro nível de exposição

A conversa telefônica de cerca de 50 minutos entre Lula e Trump, na última segunda-feira (26), sinalizou uma reaproximação entre os dois governos, mas está longe de indicar que a relação bilateral atravessa um momento de conforto.
Embora o diálogo tenha incluído temas como a situação na Venezuela, e tenha resultado na promessa de uma visita de Lula a Washington nos próximos meses, o contexto que antecede e o que sucede a ligação revelam uma dinâmica mais complexa, marcada por cautela diplomática, disputas de protagonismo e interesses ainda em negociação.
Para compreender o real significado desse telefonema, é preciso abrir algumas abas. Olhando fria e cruamente, quase uma hora de conversa entre chefes de Estado costuma indicar disposição política e canal aberto. Mas, quando se observa o ambiente que cercou a ligação — incluindo as pressões internacionais, os movimentos prévios do Planalto e os sinais emitidos por Washington —, fica claro que o diálogo ocorreu menos por afinidade e mais por necessidade estratégica.
Um dos assuntos da pauta foi o Conselho de Paz para Gaza, iniciativa que Trump quer transformar em uma “nova ONU”, ou a “ONU de Trump” — e onde ele é o rei de tudo. Antes de tratar do assunto diretamente com o americano, Lula teve o cuidado de conversar com Mahmoud Abbas, líder da Autoridade Palestina, para consultá-lo. Como Lula é apoiador da causa palestina, foi ouvir o que seu aliado pensa sobre o convite para compor esse Conselho, que reúne líderes de diversas vertentes, aliados e não aliados.
Além de Gaza, o tema “Venezuela” também entrou na pauta. Lula mantém a cautela de, ao mesmo tempo em que fala durante 50 minutos com Trump, mantêm suas falas públicas cheias de críticas abertas à atuação do americano em casos como este. Existe uma dúvida sobre o quanto a assessoria do presidente americano o mantém “brifado” sobre as críticas que recebe do brasileiro, ou se o que importa para ele é apenas a “química” e o assunto do momento.
O que Lula demonstra é que, no que tiver que bater de frente, ele o fará — como fez na questão do tarifaço —, mas de forma respeitosa. Diferentemente de outros líderes da América Latina que optaram por “rasgar a corda”, Lula sabe que está em um ano eleitoral e que os Estados Unidos são um parceiro comercial importante. Portanto, adota uma política de “morde e assopra”: não rompe a corda, mas também não atua como um “cordeirinho”.
Após falar com Trump, Lula também conversou com Emmanuel Macron, presidente francês, sobre o acordo do Mercosul com a União Europeia.
É uma sábia decisão de quem defende o multilateralismo e a diplomacia partir para a conversa, ainda que Lula e Trump não concordem em assuntos fundamentais de seus governos ou em pontos cruciais para ambos.
Trump não vai dispensar uma contrapartida, e talvez uma humilhação
Trump não costuma dar ponto sem nó: ele vai querer uma contrapartida, uma “cenoura”. E, ao observarmos o que ele fez recentemente com uma série de líderes, notamos inclusive alguns episódios de humilhação, a exemplo de quando recebeu o ucraniano Zelensky, o que não foi bonito de ver.
Assim, por mais que Lula defenda o diálogo e no momento tenha um canal aberto com Trump, é preciso ponderar o risco de uma visita à Casa Branca, visto que é um outro nível de exposição que deve ser muito bem pensada daqui pra frente.
Assista a íntegra do comentário de Talita Fernandes no Matinal desta quarta (28):