Entrevista

Crise no Irã: sem diplomacia, haverá escalada de violência e tensão, com impactos globais

'Irã tem uma capacidade militar que não pode ser desprezada', alerta cientista político Hussein Kalout, da USP, segundo quem os demais países do Oriente Médio tentam dissuadir uma eventual intervenção regional

Publicado em 15/01/2026 às 06:00
Manifestantes ocupam uma praça de Teerã em protesto contra o regime iraniano, em meio a onda de mobilizações que se espalhou pelo país. Foto: Fars News Agency

A instabilidade política no Irã é um processo em curso, volátil, e ainda longe de um desfecho claro, avalia o cientista político Hussein Kalout. Em entrevista ao Matinal desta quarta-feira (14), Kalout, que é professor da USP, afirmou que não vê, no curto prazo, um cenário de queda do regime iraniano e alertou que qualquer tentativa de intervenção externa tende a produzir efeitos que extrapolam as fronteiras do país.

Segundo Kalout, apesar de rivalidades históricas, países do Oriente Médio, especialmente os do Golfo, não têm interesse em uma escalada de instabilidade no Irã. Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Omã e Kuwait, afirmou, vêm sinalizando aos Estados Unidos que o uso da força militar pode desencadear uma reação capaz de atingir diversos países da região.

“O Irã tem uma capacidade militar que não pode ser desprezada”, disse. Para ele, um eventual bombardeio colocaria o regime em modo de sobrevivência e ampliaria o risco de ataques a instalações energéticas e bases militares americanas em países vizinhos.

“Um ataque ao Irã não ficaria restrito ao Irã”, alertou, destacando que a destruição de infraestruturas de energia provocaria desabastecimento, alta do petróleo e pressão inflacionária sobre a economia global.

O Irã vive uma onda de protestos internos, com manifestações contra o regime que começaram no fim de dezembro de 2025 e se espalharam por mais de 180 cidades. Há uma represália violenta das autoridades e um bloqueio quase total da internet imposto desde 8 de janeiro.

Grupos de direitos humanos relatam que mais de 2.500 pessoas já teriam sido mortas nos confrontos, enquanto as forças de segurança usaram força letal e prisões em massa para tentar conter as mobilizações contra o regime.

Leia trechos da entrevista com Hussein Kalout no Matinal desta quarta-feira (14):

O Irã vive a maior onda de protestos desde a Revolução Islâmica de 1979. O que explica a dimensão dessas manifestações?

As manifestações começaram no fim de dezembro, motivadas principalmente pela crise econômica, pela forte desvalorização de sua moeda e pelo aumento expressivo do custo de vida. Inicialmente, os protestos tinham um caráter mais econômico, mas rapidamente evoluíram para questionamentos diretos ao regime e ao líder supremo, Ali Khamenei. Hoje, trata-se de um processo político em curso, extremamente volátil, mas que, na minha avaliação, ainda não aponta para a queda imediata do regime.

O governo iraniano corre risco real de perder o controle da situação?

O regime está acuado e enfrenta um desafio inédito, mas isso não significa que esteja prestes a cair. O Irã ainda possui uma base social significativa de apoio e capacidade de mobilização. Há protestos contra o regime, mas também há manifestações expressivas a favor do governo. A oposição mais ativa está concentrada sobretudo em segmentos da elite urbana e da classe média alta, e não de forma homogênea em todos os estratos sociais.

Como avalia a resposta do regime aos protestos?

A resposta tem sido de repressão dura, com o uso da Guarda Revolucionária e de milícias paramilitares. Isso é condenável do ponto de vista dos direitos humanos, mas, historicamente, regimes autocráticos do Oriente Médio tendem a reagir dessa forma quando se sentem ameaçados. O regime iraniano acredita que, se afrouxar a repressão, perde o controle da narrativa e da estabilidade.

ONGs falam em 2 mil a 3 mil mortos na repressão. Esses números são confiáveis?

É preciso cautela. Esses números são muito graves, mas carecem de verificação independente robusta. Em regimes altamente repressivos, ONGs não atuam livremente no terreno. Não estou dizendo que os números são falsos, mas, do ponto de vista científico, eles não podem ser aceitos automaticamente sem questionamento metodológico da mesma forma como números de mortos em outros conflitos, como em Gaza, também foram contestados no passado.

Há uma reação internacional mais dura ao Irã. O senhor vê hipocrisia nessa postura?

Sim. Existe uma assimetria clara na comoção internacional. O Ocidente demonstra choque com a repressão no Irã, mas não reagiu com a mesma intensidade diante de centenas de milhares de mortos em Gaza. Isso não justifica os abusos do regime iraniano, que é autoritário, repressivo e violador de direitos humanos, mas revela uma seletividade moral perigosa.

Qual seria o impacto de uma instabilidade prolongada no Irã para o Oriente Médio?

O impacto seria enorme. O Irã é uma potência regional, com quase 100 milhões de habitantes e capacidade militar relevante. Países do Golfo, como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar e Kuwait, não têm interesse numa escalada ou na queda abrupta do regime. Eles temem que qualquer intervenção militar americana provoque uma reação iraniana que atinja instalações energéticas e bases militares na região, com efeitos globais sobre o preço do petróleo e a inflação mundial.

Os Estados Unidos podem intervir militarmente?

Uma intervenção direta, nos moldes da feita no Iraque, é extremamente improvável. Duas opções estão praticamente descartadas: uma operação de captura do líder, como na Venezuela, e uma invasão terrestre. Ambas seriam de altíssimo risco. O que os EUA podem tentar é ampliar sanções, pressionar parceiros comerciais do Irã e usar uma narrativa humanitária para justificar ataques pontuais a estruturas de segurança do regime.

Essa estratégia pode funcionar?

Ela tem limites claros. Muitos dos principais parceiros comerciais do Irã, como China, Rússia, Índia, Alemanha, França, Turquia, Coreia do Sul, Emirados Árabes Unidos e Brasil, teriam perdas significativas. Vários são aliados dos EUA ou membros da Otan. É um efeito bumerangue. Não está claro se esses países aceitariam abrir mão de bilhões de dólares em comércio.

E a ameaça de execução de manifestantes?

Sou absolutamente contra a pena de morte e considero ilegal e inaceitável qualquer execução sem devido processo legal. Isso viola frontalmente o direito internacional e os direitos humanos. Ao mesmo tempo, é preciso contextualizar: práticas semelhantes ocorreram em outros países da região sem gerar a mesma comoção internacional. O erro não justifica o erro, mas a seletividade da indignação precisa ser apontada.

Existe uma saída diplomática para a crise?

Sim, e ela já existiu. O acordo nuclear negociado durante o governo Obama com o Irã demonstrou que a diplomacia funciona. O Irã aceitou limitar seu programa nuclear e permitir inspeções internacionais. Esse acordo foi rompido posteriormente, o que enfraqueceu setores moderados e reformistas dentro do país e fortaleceu os setores mais duros do regime.

Como funciona o sistema político do Irã? O que é uma República Islâmica?

O Irã é um Estado teocrático, no qual a religião é um pilar central do modelo político. A Constituição foi reformulada após a Revolução Islâmica de 1979 com base em princípios do islamismo xiita. Há instituições civis, como o Parlamento e a Presidência, mas também conselhos religiosos que têm poder de veto e supervisão sobre temas considerados morais, religiosos e estratégicos.

Qual é o papel do líder supremo?

O líder supremo é a autoridade máxima do país. Ele tem a palavra final sobre guerra, paz, política externa e decisões estruturais do Estado. Não atua na política cotidiana, mas intervém em temas existenciais. Sua escolha ocorre dentro de um complexo sistema de conselhos clericais.

Em resumo, o que esperar do Irã nos próximos meses?

Um cenário altamente perigoso, marcado por repressão interna, tensões externas e riscos de escalada regional. A queda do regime não é impossível, mas é muito mais complexa do que parece. Sem uma retomada séria da diplomacia, o custo humano, econômico e geopolítico tende a aumentar, tanto para o Irã e para o mundo.

Assista à entrevista com Hussein Kalout no Matinal desta quarta-feira (14):

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