Entrevista

Para Múcio, só haverá segurança se as forças armadas do continente forem despolitizadas

Em entrevista ao Lisboa Connection, o ministro da Defesa argumenta que "desideologização" das Forças Armadas da América do Sul é indispensável

Publicado em 23/05/2026 às 06:00
O ministro da Defesa, José Múcio, foi entrevistado pelo jornalista Guilherme Amado e pelo economista Paulo Dalla Nora Macedo (foto: Amado Mundo)

A história de regimes políticos repressivos na América Latina perpassa, inegavelmente, a relação de instrumentalização político-ideológica que esses governos fizeram das forças armadas de seus países. O desafio de organizar a relação entre política e caserna — ou seja, entre governo e os militares — é um que não se restringe ao Brasil, atinge todos os demais países do continente. A situação brasileira na área, contudo, mergulhou em tensão incomum nos últimos anos.

“Um dos mais vividos da República”, como o próprio personagem se descreve, por ostentar uma longa lista de mandatos e cargos públicos – foi deputado federal, ministro de Estado em diferentes pastas e presidente do Tribunal de Contas da União (TCU) –, José Múcio foi o escolhido do presidente Lula para lidar com uma tarefa espinhosa. Coube ao pernambucano chefiar o Ministério da Defesa e devolver ordem à relação com os militares depois da tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023, que acabou na condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro e de vários oficiais das Forças Armadas.

Hoje, pouco mais de três anos depois, o ministro não se furta a ressaltar a importância de desvincular a segurança de qualquer visão ideológica, não só no Brasil como em toda a América Latina.

Diálogo com forças armadas dos vizinhos

O plano — apelidado por Múcio de “diplomacia militar das Forças Armadas” — do ministério é fazer uma série de visitas, antes do fim do ano, a Uruguai, Paraguai, Chile e Venezuela, com encontros com ministros de Defesa e comandantes das forças nacionais de cada país.

As reuniões desejadas têm o objetivo de discutir pontos de interesse comuns em relação a problemas enfrentados nas fronteiras, visando providências contra crimes transnacionais, como tráfico de drogas, um dos maiores problemas da Defesa nacional. Além disso, as visitas pretendem abordar a necessidade de desideologização das forças armadas e de segurança. “A gente tem que despolitizar essa questão. Enquanto as Forças Armadas da América do Sul tiverem vieses político-eleitorais, nós nunca vamos estar em segurança”, defendeu o ministro.

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Múcio reforçou a importância de seguir expandindo a indústria nacional de defesa e os incentivos à exportação, principalmente para países vizinhos. Em entrevista ao Lisboa Connection, ele destacou o objetivo de aproveitar as viagens de “diplomacia militar” para negociar vendas de produtos de defesa aproveitando a infraestrutura presente no Brasil, nos moldes do que é feito atualmente com a indústria automobilística. Além disso, o ministro refletiu sobre a nova realidade geopolítica mundial após a eleição do presidente americano Donald Trump em 2024 e os desafios impostos pelo retorno do “bilateralismo impositivo”.

A seguir, alguns trechos da entrevista:

Como a eleição de Trump e o novo rearranjo geopolítico afetam a cooperação militar do Brasil?

Essas ameaças de invasões eram uma coisa que a gente nunca mais havia ouvido falar. Aí Trump se elege e nós involuímos. Ele resolveu reinaugurar o bilateralismo. É uma ameaça para o mundo? Sim. Nós jamais poderemos comparar o poderio bélico americano com qualquer outro. Enquanto o Brasil investe, em indústria de defesa, 1,06% [do PIB], o americano investe muito mais de 10%, e a Otan investe 5%. O nosso problema já é o contrário, nós não investimos, nós carecemos investir muito em defesa para cuidar de nós, para não permitir que nos invadam, que não firam a nossa soberania.

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As Forças Armadas compartilham da visão do presidente Lula sobre a importância de se manter alianças com vários países ou estão mais presas a um alinhamento maior exclusivo com os EUA?

Nós fizemos negócios, estabelecemos parcerias comerciais. Quando você compra equipamento de defesa, você fica com um certo vínculo. Você fica comprando peças de reposição, uma dependência mesmo, manutenção. Aí entra Israel no processo, que hoje é um grande produtor de equipamentos de defesa, de maneira que não há um multilateralismo absolutamente independente, porque alguém tem o que eu não tenho. Você tem que ter liberdade de comprar um avião da China, ou um avião de Israel, ou um avião de tal lugar.

Precisamos ter muito cuidado para que esse movimento do presidente dos Estados Unidos, que o próprio povo americano já desaprova, não inaugure uma temporada nova de donos do planeta, porque a internet fez com que nós conhecêssemos os nossos limites, as nossas potencialidades, as potencialidades dos outros.

Mas há quem, no alto comando, defenda uma diversificação ou alianças com Índia, China, França?

Eu tenho tentado garantir que o ambiente político não contamine o ambiente militar. A gente não tem fechado as portas das fábricas onde nós compramos ou as pessoas que nós escutamos. Os comandantes militares sempre viajam, viajam para os Estados Unidos, semana passada um passou a semana na Turquia, esteve na Índia, na China, todos já foram. Só eu que não fui para esses lugares todos. Mas eu tenho procurado manter esse ambiente, acreditando que tudo vai passar e tudo voltará ao seu curso, como tem que ser.

Em que medida as vendas de equipamento militar para outros países ajudam a aproximação deles com o Brasil? Essas compras são aprovadas pelo Ministério da Defesa?

Em vez de estratégia militar, eu penso mais em indústria nacional de defesa. No último ano do último governo, a indústria nacional de defesa fechou com US$ 628 milhões em produtos de defesa e de exportação. Nós passamos para US$ 1,2 bilhão no primeiro ano, depois passamos para algo como US$ 1,8 bilhão. Fechamos o ano de 2025 com US$ 3,4 bilhões de produtos de exportação e defesa. Temos uma vizinhança que compra armas no mundo todo. Esse comércio deveria ser nosso, e estamos procurando incentivar isso cada vez mais.

Nós estamos trabalhando para que esses estaleiros, que foram construídos para fazer o nosso submarino, se transformem em um hub para a América do Sul. Isso faria com que nós ficássemos com um acervo tecnológico e com um patrimônio de uma mão de obra absolutamente qualificada. A vantagem deles é que teriam a compra perto, o treinamento perto e a manutenção do vizinho. Temos tudo para ser um bom fornecedor e fazer bons negócios.

O Gripen está sendo feito em Gavião Peixoto, com uma parte sendo montada pela Embraer. A Saab está se aproximando cada vez mais daqui. Em vez de a Saab vender Gripens para o Peru ou para a Colômbia, nós temos uma viagem marcada para que a Colômbia compre Gripens da Saab feitos no Brasil. O acervo cultural que isso deixa para nós é uma semente importantíssima.

São José dos Campos está se tornando um campus de tecnologia. É esse o trabalho que o Ministério da Defesa faz. Eu não tenho sido bom cliente em comprar, porque nós temos pouco dinheiro, mas eu tenho sido um bom parceiro em vender a quem tem dinheiro, e dando a chancela do Ministério da Defesa do governo brasileiro.

Quase como se conseguíssemos replicar, com a indústria de defesa, o que temos com a indústria automotiva?

Exatamente isso. Estou querendo abrir fronteiras. E, no nosso mercado, 3,2% do nosso PIB é a indústria de defesa. Isso poderia ir para 6, 7, 8, 10. O americano ganha dinheiro com as guerras. Quando o presidente dos Estados Unidos manda uma ajuda para a Ucrânia, ele manda em equipamento e depois tira a conta. Quem faz o produto de defesa vive com isso. Os americanos não vivem sem guerra, porque eles têm uma indústria de defesa gigantesca e precisam que tenham clientes.

O senhor mencionou os caças. Quando poderemos ter caças e drones militares desenvolvidos e fabricados no Brasil?

Nós estamos muito próximos de ter caças nacionais. Esses dois próximos já serão cada vez mais brasileiros. Nos drones, estamos avançadíssimos. Inclusive, pequenas iniciativas. O drone é uma coisa curiosa. Quando a gente vê o drone artesanal na Ucrânia, já estão começando grupos que se juntam, professores, estudiosos, para fabricar drones no Brasil, e nós temos comprado e incentivado. temos comprado e incentivado. E eu tenho muita fé na indústria de defesa brasileira.

Quais são os próximos grandes investimentos em Defesa previstos?

O nosso maior desafio é terminar esse submarino. Se nada acontecer e se houver recurso contínuo, ele ficará pronto para experimentações lá para 2032. Os Scorpenes, que são as classes menores, nós já estamos produzindo e já lançou-se ao mar quatro. Fizemos quatro fragatas, numa parceria com a Thyssenkrupp da Alemanha, e estamos agora assinando mais quatro. As nossas fábricas aqui estão fazendo pequenos navios, pequenas embarcações, navio polar, essas coisas todas. Está crescendo bastante. O nosso permanente desafio é fazer com que isso tenha continuidade e que isso não arrefeça.

Assista à íntegra da entrevista do ministro da Defesa José Múcio ao Lisboa Connection:

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