Letícia Duarte

De NY, análises sobre o mundo e os EUA

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Análise

Com guerra no Irã, Trump bate recorde de conflitos e faz o mundo pagar essa conta

Governo americano subestimou a resistência iraniana e agora enfrenta o bumerangue econômico de uma guerra que fugiu do script e custa bilhões de dólares por dia

12/03/2026 às 12:01 · Atualizado há 7 meses
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, após discursar em um retiro do Partido Republicano no Kennedy Center, em Washington. Foto: Mandel Ngan/AFP

Donald Trump elegeu-se com um discurso de menos guerra, demonstrando estar obcecado em ganhar o Nobel da Paz. No entanto, o que se observa é uma expansão do poder militar sob o argumento de que é preciso garantir a paz através do uso da força. Só no primeiro ano do mandato, somando-se à guerra no Irã, Trump já realizou mais ataques do que todo o governo Biden em quase quatro anos. Essa escalada militar desmonta a ideia de que o slogan America First significaria menos envolvimento militar.

Essa mudança repercute mal entre sua base, pois a campanha prometia que ele não iniciaria novas guerras, que as encerraria e focaria na política doméstica. Para sustentar o discurso atual, ele vende a ideia de defender interesses externos antes que ocorram ataques terroristas nos Estados Unidos, alegando que o país está sob ataque e é preciso garantir a soberania americana.

Trump não abandonou seu slogan, mas o manifesta através do desprezo aos tratados internacionais e de um discurso de que vale qualquer custo para garantir a segurança doméstica por meios externos. Essa guinada política assemelha-se a uma versão “tipo exportação” do America First: uma política neocolonial e imperialista que ignora regras internacionais e impõe a força para submeter outros países aos seus desejos e extrair recursos naturais, como visto na apropriação do petróleo da Venezuela. Embora ele diga estar defendendo os interesses dos americanos, a maioria da população é contra a guerra e parte de sua base sente-se traída.

A politização e ideologização do conflito

Não se trata apenas de um ponto fora da curva ou de um comportamento intempestivo: Trump está politizando o aparato militar e mexendo nas estruturas. Ele tem realizado discursos em bases militares com tons de comício, pedindo votos explicitamente. Além disso, cresce o uso de doutrinação das tropas com retórica cristã extremista; comandantes justificam o envolvimento no Irã como um “plano divino”, afirmando que as tropas representam a vontade de Deus.

Simultaneamente, o governo vem distendendo as amarras institucionais, ampliando a autonomia de comandantes para autorizar ataques fora de campos de batalha tradicionais. Com menos freios internos e menos burocracia, o custo político por operação isolada diminui, facilitando a escalada. Essa administração está institucionalizando uma cultura de uso de poder militar, incluindo o chamado “Escudo das Américas”, onde o poder militar é usado para combater o que antes eram casos de polícia, como o tráfico de drogas.

Trump tem agido como ‘senhor da guerra’

Trump parece ter se tornado o “Senhor da Guerra”. A Casa Branca chegou a divulgar vídeos misturando imagens de videogame e filmes de Hollywood com imagens reais da guerra no Irã. Essa “gamificação” do conflito é perigosa, pois banaliza a guerra e tenta vender a ideia de vitória e lucro, o que está longe da verdade.

De acordo com o Pentágono, na primeira semana, o conflito custou cerca de US$ 11 bilhões (R$ 58 bilhões). Membros do Congresso afirmam que o custo real chega a US$ 2 bilhões por dia, pesando no bolso para que o governo siga os ataques ao lado de Israel. Além dos números, há o custo humano irreparável: mais de 1.800 mortos no Irã, incluindo o ataque a uma escola que matou 175 pessoas, a maioria crianças.

O limite da retórica e o impacto econômico

A inflação de fevereiro estava em 2,4% ao ano, e analistas já apontam um gatilho com uma nova pressão que deve elevar esse índice, e isso é exatamente o que Trump não queria. Quando um conflito começa, é muito fácil dizer que se está atacando outro país como se fosse algo distante, que não afeta os americanos, sob o argumento de combater o terrorismo externo e proteger os interesses dos Estados Unidos no longo prazo.

No entanto, estamos vendo que essa conta está chegando muito rápido e já se reflete no bolso das populações pelo mundo, com navios de petróleo sendo atingidos pelo conflito. Esse cenário repercute muito mal e impõe um limite à capacidade de Trump de administrar sua retórica. Recentemente, em discurso para apoiadores, ele utilizou expressões afirmando que a guerra já estava vencida — o que constitui mais uma falácia. Na prática, observa-se que os Estados Unidos subestimaram a capacidade de reação do Irã, e o custo real dessa subestimação está vindo.

Assista à íntegra da análise de Letícia Duarte no Matinal desta quinta-feira (12):


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