Lewandowski sai da Justiça sem entregar a agenda da segurança
A nove meses das eleições, governo federal terá pouca margem de manobra para realizar entregas em área que mobiliza a população e amplia a polarização

A passagem de Ricardo Lewandowski pelo Ministério da Justiça termina sem deixar as marcas que o governo Lula gostaria de apresentar justamente na área mais sensível do debate público hoje: a segurança.
O agora ex-ministro deixou o cargo sem conseguir emplacar a PEC da Segurança Pública nem o PL Antifacção, duas apostas centrais da agenda federal para enfrentar a violência e o crime organizado. A ausência pesa politicamente num país em que a sensação de insegurança se tornou o eixo central da polarização.
A saída, formalizada em 8 de janeiro, data carregada de simbolismo por causa dos ataques às sedes dos Três Poderes em 2023, coincidiu ainda com o veto de Lula ao projeto que reduzia penas dos condenados, o chamado PL da Dosimetria, pela tentativa de golpe.
O gesto reforçou o contraste: enquanto o Planalto endureceu o discurso institucional, a principal vitrine de política pública da Justiça ficou vazia.
Gestão sem entregas e conflitos na Esplanada
Lewandowski não deixou o ministério apenas sem entregas, mas também desgastado internamente. A relação difícil com o ministro da Casa Civil, Rui Costa, foi mais um elemento de tensão numa Esplanada em que a coordenação política já é reconhecida como um dos gargalos do governo. Ainda assim, o problema vai além de conflitos pessoais.
Segurança pública é hoje o tema que mais mobiliza, divide e cobra respostas do poder público. A sociedade já não direciona essa cobrança apenas aos governadores, responsáveis diretos pelas polícias estaduais, mas também ao governo federal.
Essa pressão é considerada legítima diante da expansão nacional e até transnacional de facções como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o Comando Vermelho. Nesse cenário, Lewandowski nunca colocou a segurança como prioridade do ministério, algo que Lula foi alertado que aconteceria antes mesmo da nomeação.
O resultado é uma percepção difusa, mas politicamente corrosiva, de que “nada foi feito”. E isso a menos de nove meses das eleições. A chegada de Wellington César Lima e Silva ao comando da pasta ocorre, portanto, sob um relógio acelerado e com margem de manobra mínima. A pergunta que se impõe não é apenas o que o novo ministro pretende fazer, mas o que ainda é possível fazer até outubro.
Troca antecipa reforma ministerial forçada pelo calendário eleitoral
Até abril, ministros que disputarão as eleições precisam deixar seus cargos, o que deve provocar uma debandada de cerca de 20 nomes do primeiro escalão.
Muitos serão substituídos por seus números dois, garantindo alguma continuidade administrativa, mas reduzindo a capacidade política de formulação e articulação do governo enquanto governo.
A leitura que se consolida em Brasília é que o Planalto começa a agir como quem considera que o essencial já foi entregue. Daqui pra frente, o foco se desloca para a campanha: vender os feitos, reforçar agendas simbólicas, como a escala 6×1, e colocar figuras como Guilherme Boulos em circulação pelo país, enquanto a Comunicação é centralizada no Planalto sob o comando de Sidônio Palmeira.
Nesse contexto, a saída de Lewandowski não é apenas o fim de um ciclo individual, mas um sintoma. Ela expõe as dificuldades do governo Lula em enfrentar o tema que mais pressiona sua popularidade, revela os limites de articulação interna e sinaliza que, com ou sem entregas robustas, a máquina federal já começa a operar em modo eleitoral.
Resta saber se isso será suficiente para responder à cobrança que vem das ruas e que dificilmente aceitará explicações processuais como resposta à sensação cotidiana de insegurança.
Assista com comentário de Beatriz Bulla no Matinal desta quarta-feira (14):