Beatriz Bulla

Análises sobre política e economia

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Análise

Lewandowski sai da Justiça sem entregar a agenda da segurança

A nove meses das eleições, governo federal terá pouca margem de manobra para realizar entregas em área que mobiliza a população e amplia a polarização

14/01/2026 às 16:35 · Atualizado há 9 meses
Ricardo Lewandowski durante cerimônia em defesa da democracia, no Palácio do Planalto. Foto: Ricardo Stuckert/PR

A passagem de Ricardo Lewandowski pelo Ministério da Justiça termina sem deixar as marcas que o governo Lula gostaria de apresentar justamente na área mais sensível do debate público hoje: a segurança.

O agora ex-ministro deixou o cargo sem conseguir emplacar a PEC da Segurança Pública nem o PL Antifacção, duas apostas centrais da agenda federal para enfrentar a violência e o crime organizado. A ausência pesa politicamente num país em que a sensação de insegurança se tornou o eixo central da polarização.

A saída, formalizada em 8 de janeiro, data carregada de simbolismo por causa dos ataques às sedes dos Três Poderes em 2023, coincidiu ainda com o veto de Lula ao projeto que reduzia penas dos condenados, o chamado PL da Dosimetria, pela tentativa de golpe.

O gesto reforçou o contraste: enquanto o Planalto endureceu o discurso institucional, a principal vitrine de política pública da Justiça ficou vazia.

Gestão sem entregas e conflitos na Esplanada

Lewandowski não deixou o ministério apenas sem entregas, mas também desgastado internamente. A relação difícil com o ministro da Casa Civil, Rui Costa, foi mais um elemento de tensão numa Esplanada em que a coordenação política já é reconhecida como um dos gargalos do governo. Ainda assim, o problema vai além de conflitos pessoais.

Segurança pública é hoje o tema que mais mobiliza, divide e cobra respostas do poder público. A sociedade já não direciona essa cobrança apenas aos governadores, responsáveis diretos pelas polícias estaduais, mas também ao governo federal.

Essa pressão é considerada legítima diante da expansão nacional e até transnacional de facções como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o Comando Vermelho. Nesse cenário, Lewandowski nunca colocou a segurança como prioridade do ministério, algo que Lula foi alertado que aconteceria antes mesmo da nomeação.

O resultado é uma percepção difusa, mas politicamente corrosiva, de que “nada foi feito”. E isso a menos de nove meses das eleições. A chegada de Wellington César Lima e Silva ao comando da pasta ocorre, portanto, sob um relógio acelerado e com margem de manobra mínima. A pergunta que se impõe não é apenas o que o novo ministro pretende fazer, mas o que ainda é possível fazer até outubro.

Troca antecipa reforma ministerial forçada pelo calendário eleitoral

Até abril, ministros que disputarão as eleições precisam deixar seus cargos, o que deve provocar uma debandada de cerca de 20 nomes do primeiro escalão.

Muitos serão substituídos por seus números dois, garantindo alguma continuidade administrativa, mas reduzindo a capacidade política de formulação e articulação do governo enquanto governo.

A leitura que se consolida em Brasília é que o Planalto começa a agir como quem considera que o essencial já foi entregue. Daqui pra frente, o foco se desloca para a campanha: vender os feitos, reforçar agendas simbólicas, como a escala 6×1, e colocar figuras como Guilherme Boulos em circulação pelo país, enquanto a Comunicação é centralizada no Planalto sob o comando de Sidônio Palmeira.

Nesse contexto, a saída de Lewandowski não é apenas o fim de um ciclo individual, mas um sintoma. Ela expõe as dificuldades do governo Lula em enfrentar o tema que mais pressiona sua popularidade, revela os limites de articulação interna e sinaliza que, com ou sem entregas robustas, a máquina federal já começa a operar em modo eleitoral.

Resta saber se isso será suficiente para responder à cobrança que vem das ruas e que dificilmente aceitará explicações processuais como resposta à sensação cotidiana de insegurança.

Assista com comentário de Beatriz Bulla no Matinal desta quarta-feira (14):

Os artigos publicados pelo Amado Mundo não refletem necessariamente a opinião do site. O objetivo ao publicá-los é estimular o necessário debate em qualquer democracia.
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