Conrado Hübner, Ricardo Henriques, Tourinho e a utopia pragmática de um Brasil mais justo
No programa Brasil de Histórias, trio debate sobre a falta de planos ambiciosos e viáveis para o crescimento do país

A utopia pragmática é a união entre um sonho de futuro ideal e o uso de passos práticos e reais para alcançar esse objetivo. Para discutir como conciliar a ambição e a realidade na construção de um país mais justo, recebemos o jurista Conrado Hübner Mendes, o economista e presidente do Conselho de Administração da Anistia Internacional Brasil, Ricardo Henriques, e o publicitário Pedro Tourinho no programa Brasil de Histórias, produzido pelo Amado Mundo em parceria com a Janela Livraria e a mapa lab. Sob a mediação da jornalista Johanna Nublat, a conversa, gravada durante a Flip, trouxe temas como autoritarismo, cultura e políticas públicas.
Durante o painel, Ricardo Henriques, autor do livro “Utopia Pragmática”, lançado em junho deste ano pela editora Jandaíra, aprofundou a proposta. Ele detalhou que o tema trata diretamente do potencial do Brasil diante das adversidades e ressalta as vantagens competitivas do país em diversos setores.
“Mais do que um conceito, é uma provocação. A gente tenta sair da ideia de que a utopia é só sonho. A ideia é de que a gente pode projetar futuros ambiciosos para esse país, e estamos muito carentes disso. O meu livro é sobre o reconhecimento do que a gente tem avançado. Isso é inquestionável, o país avançou no processo constituinte até hoje, mas avançou em velocidade aquém do que seria desejado e possível”, destacou o economista.
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Debate do Brasil de Histórias propõe pensar num país mais justo
Para o autor, não adianta projetar planos ambiciosos se não for criado um “campo potencial de encontro de soluções” entre as lideranças do país. E para que isso aconteça, a preservação da democracia é fundamental. “Não é só esse problema do enfrentamento, do risco, do autoritarismo. É também reconhecer que a democracia é o espaço do desconforto. Ela solicita, o tempo todo, um tensionamento entre visões distintas do mundo, em que o outro não tem que virar o inimigo, mas tem sempre opiniões distintas”, disse Henriques no Brasil de Histórias.
Ricardo Henriques destaca três projetos como exemplos de grandes iniciativas que mudaram o curso da evolução do país: a implantação do Sistema Único de Saúde (SUS), a elaboração do Plano Real e a aplicação do Bolsa Família.
“Se vocês olharem hoje cursos de políticas públicas no mundo como um todo, na Europa, nos Estados Unidos, na Austrália, o Bolsa Família é uma das referências de política pública que funciona em larga escala. O programa possui centenas de avaliações. As pessoas estudaram e constataram que: ‘caramba, esse negócio feito ali naquele país estranho do hemisfério Sul funciona mesmo’. A ameaça ao campo democrático, de um certo sentido, em um amplo espectro doutrinário desse país, incidiu fortemente para que a gente projetasse pouca ambição como país.”
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A ameaça do autoritarismo
A ameaça do autoritarismo é constante no desenvolvimento da sociedade brasileira, destacou Conrado Hübner Mendes, autor da obra “Como desarmar o autoritarismo no Brasil: Uma agenda para a desradicalização”, lançado pela editora Tinta-da-China em junho deste ano, durante sua fala no Brasil de Histórias. A força da população deve ser demonstrada, principalmente nas urnas, para que projetos antidemocráticos percam a força.
“Não é radicalizar a democracia, mas é desradicalizar o autoritarismo que está sempre à espreita. Essas duas coisas se cruzam e se retroalimentam. Sempre que a gente dá passos importantes, como o Bolsa Família, essa outra engrenagem, que é treinada e é institucionalizada em interromper processos de democratização, começa a ser atiçada”, analisou Hübner Mendes.
Para que a democracia seja mantida em segurança, também é importante que o Brasil tenha projetos a longo prazo, com o intuito de alcançar melhoras estruturais e estabelecer debates sobre a melhoria do país, de acordo com o autor. “Nosso esforço por pensar o futuro é permanentemente desencorajado e desincentivado porque, na realidade política, tudo parece inviável”.
O autor também refletiu sobre as contantes privatizações realizadas no Brasil. “Quem está decidindo por nós? A gente precisa reconquistar as pessoas na política, que é o único espaço em que a gente pode pensar coletivamente. Pensar em conjunto é uma tecnologia muito poderosa inventada pela humanidade. Hoje, quem está pensando no nosso futuro são alguns oligarcas detentores de poder tecnológico, criados em uma cultura de inovação pela inovação. De tal forma, de tamanha ambição, que eles querem chegar à Marte antes de resolver a mudança climática.”
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Utopia como farol
Tourinho foi secretário de Cultura e Turismo de Salvador entre 2023 e 2025. Refletindo sobre a sua experiência na gestão pública, o publicitário afirmou que sua missão era entender a identidade real da cidade e institucionalizar suas características, para que o município pudesse ver seus projetos sendo realizados de uma forma mais potente.
“No Brasil, a gente vive com várias dimensões e conflitos no serviço público. Você tem a questão eleitoral como um elemento que faz as pessoas realmente quererem declarar mais resultado do que colocar os projetos em prática. Geralmente querem desqualificar o trabalho de quem veio antes, sempre há uma troca de equipes muito grande quando elegem um novo governo. Existe uma instabilidade para planejar, porque de repente tudo muda, e a corrupção existe em todos os cantos”, analisou o publicitário.
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Entre os projetos encabeçados por Tourinho em Salvador está o Museu Afro, que era colocado como principal objetivo de sua gestão. “Durante a minha vida inteira eu levei essa ideia de que a utopia está como farol, mas nós temos que dar passos pragmáticos para chegar até ela. E, de repente, a gente chegou. Ou chegou mais próximo do que a gente estava”.