Quem se fortalece com a saída de Cleitinho da disputa pelo governo de Minas Gerais?
Em entrevista ao Amado Mundo, jornalista político explica quem herda o eleitorado de Cleitinho e o que muda para Lula, Flávio Bolsonaro e Zema

O tabuleiro da disputa pelo governo de Minas Gerais, o segundo maior colégio eleitoral do país, perdeu seu nome favorito nesta semana. Depois de meses alternando entre confirmar e negar a pré-candidatura, o senador Cleitinho (Republicanos) anunciou que não vai concorrer ao Palácio da Liberdade — um desfecho que reorganiza não só o jogo estadual, mas também as contas de Lula (PT) e de Flávio Bolsonaro (PL) para outubro.
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A queda de Cleitinho não é só uma história de bastidores partidários. Poucos dias antes da Convenção Estadual do Republicanos, morreu Matheus Azevedo, irmão do senador, aos 30 anos, internado havia semanas para tratar uma recidiva de leucemia. Cleitinho não compareceu à convenção. No mesmo dia em que uma pesquisa Genial/Quaest o colocava na liderança de todos os cenários para o governo do estado, com cerca de 40% das intenções de voto no primeiro turno, o senador publicou um vídeo feito com inteligência artificial em que o pai e o irmão falecidos o incentivavam a seguir em frente. No dia seguinte, o Republicanos anunciou que ele não seria candidato.
Cleitinho reagiu convocando a imprensa e declarando, em coletiva, que concorreria de qualquer forma. Depois de uma reunião de cinco horas com a cúpula do partido em São José dos Campos, ele voltou atrás e divulgou um vídeo emocionado anunciando a desistência definitiva, ao lado do presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira.
Para o jornalista Orion Teixeira, colunista do “Estado de Minas” e do Portal UAI, a forma como esse desfecho foi construído pesou tanto quanto o próprio conteúdo da decisão.
“O fato é que, com toda essa exposição que ele tinha, ele saiu menor do que entrou dessa indefinição”, avalia o colunista, para quem a sequência de idas e vindas expôs uma fragilidade desnecessária.
Ao Matinal desta terça-feira, Orion Teixeira analisou os bastidores da saída de Cleitinho, quem deve herdar seu eleitorado, o novo desenho dos palanques em Minas Gerais e o que Lula, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema (Novo) precisam fazer no estado até outubro. Após o programa, Cleitinho voltou a pedir ao presidente do partido que considerasse sua candidatura, durante uma convenção do Republicanos.

Confira a entrevista completa:
Quais fatores contribuíram para a desistência de Cleitinho, além do luto?
Cleitinho passou meses dizendo que era candidato e, depois, que não era. Os mineiros nunca acreditaram, a rigor, que ele seria candidato, por conta dessa instabilidade. Dizia-se que faltava a ele preparo técnico para governar, e o próprio partido tinha complicações, com o presidente estadual envolvido no escândalo do INSS. Cleitinho se dizia muito distante dessas ligações perigosas, mas estava muito próximo delas.
Outro fator que comprometia era seu perfil de franco-atirador, com desabafos constantes que não poupavam nem os próprios aliados. Eu pergunto: como um partido aceita um candidato que chama o próprio presidente de “não plenamente confiável” e chama o líder religioso da base do partido, Edir Macedo, de “falso profeta”? Em condições normais, quem faz isso não está querendo legenda, está buscando uma saída honrosa.
Ele teve a chance de encerrar essa história ainda na semana passada, quando deu uma entrevista na Praça Santuário, em Divinópolis, no centro de sua base eleitoral, dizendo que era candidato. Foi chamado a São José dos Campos, conversou por cinco horas com Marcos Pereira, que disse a ele: “Suas qualidades são notáveis, mas você precisa mudar, precisa ser mais conciliador, mais dialogado, mais agregador”. Ele não soube se adequar a essa nova cartilha. E há, nos bastidores, um dedo de Eduardo Cunha (Republicanos), uma raposa da política nacional, que deve ter alertado Edir Macedo: esse rapaz, se ganhar o governo de Minas, no dia seguinte já vai atacar todos vocês, é melhor cortar a asa dessa cobra logo.
Para onde vai o voto do eleitor que apostava em Cleitinho?
O eleitorado de Cleitinho está no campo político da direita, do centro-direita e da extrema direita. A tendência é de que esse campo absorva os votos. Marcelo Aro (Progressistas), ex-secretário de Zema, articulou nesta última semana uma manobra que deixou todo mundo se sentindo traído, inclusive Matheus Simões (PSD), o atual governador, que contava com ele na chapa como candidato a senador.
Aro usou como pretexto a candidatura de Carlos Viana (PSD) à reeleição no Senado para romper com Matheus Simões e se lançar candidato a governador no vácuo deixado por Cleitinho. Ele já sabia, lá atrás, que Cleitinho não seria candidato, que essa rede de partidos não permitiria isso. A Convenção do União Brasil e do PP, federação da qual Aro participa, não chegou a uma definição e adiou a decisão para quarta-feira, porque falta ainda amarrar o apoio do PL bolsonarista, com quem ele também tem divergências. A política de Marcelo Aro é sempre muito complexa e polêmica: ele compra briga, rompe, trai.
Quem são os possíveis candidatos de Flávio Bolsonaro no estado?
O PL tem dois nomes de empresários: Flávio Roscoe, presidente licenciado da Federação das Indústrias de Minas Gerais, e Vittorio Medioli, ex-prefeito de Betim e dono de um complexo de comunicação ligado ao jornal “O Tempo”, que também está interessado na disputa e é inimigo de Marcelo Aro. O PL pode chegar ao desfecho de ter um candidato próprio para dar palanque a Flávio Bolsonaro, ou fechar com Aro, que é o projeto que envolve União Brasil, PP e a ala do Republicanos ligada ao bolsonarismo. A pergunta que fica é se o PP de Ciro Nogueira, em Brasília, vai permitir que se fortaleça aqui um palanque, justamente quando o partido decidiu pela neutralidade na sucessão presidencial.
Um palanque com Cleitinho era realmente muito melhor para Flávio Bolsonaro?
A instabilidade de Cleitinho deixava todo mundo inseguro sobre o que esse palanque poderia significar. Ele tinha noção de que 30% do seu eleitorado também vota em Lula, por causa daquele discurso populista e inflamado, que defende os vulneráveis e os mais pobres. Por isso, não queria imediatamente o apoio do PL no primeiro turno, sabia que isso poderia atrapalhar sua chegada ao segundo turno. Uma vez no segundo turno, o apoio do PL viria por gravidade, pelo voto útil. Essa articulação nunca foi bem amarrada, e isso distanciou Cleitinho do PL.
O que importa, tanto para Flávio Bolsonaro quanto para Lula, é ter algum palanque em Minas Gerais. Aqui se diz que quem ganha em Minas também vence no Brasil, e isso se repete desde a redemocratização, em todas as eleições presidenciais. Existem fatores geopolíticos, econômicos e sociais que explicam essa coincidência: Minas é uma síntese de várias partes do país. Se São Paulo é o coração nervoso do país, a decisão que passa por Minas Gerais é a preocupação de todos: ter aqui um palanque forte, que represente as ideias e as trajetórias de cada candidato.

O quanto Lula se beneficia dessa saída de Cleitinho?
Favorece muito o Lula. Imagino até que a entrada de Marcelo Aro, do União Brasil, tenha um dedo do Planalto, porque a direita está fragmentada. Podemos ter três ou quatro candidatos nesse campo, enquanto do outro lado ficam apenas Patrus Ananias (PT) pela esquerda e Alexandre Kalil (PDT) no centro, com uma leve inclinação à esquerda, além de Gabriel Azevedo (MDB) pelo centro. Essa fragmentação torna mais difícil a reaglutinação do voto de direita. Nesse sentido, Lula sai ganhando, com um palanque já definido.
Como estão os demais palanques do estado?
O PDT de Alexandre Kalil caminha para ter como vice um tucano ligado a Aécio Neves (PSDB), e deve ter um tempo de televisão pequeno para garantir sua comunicação com o interior mineiro. Diferentemente de 2016, quando venceu a prefeitura de Belo Horizonte, um universo menor e mais próximo, agora Kalil disputa um estado com 853 municípios, e a penetração no interior precisa melhorar. Ele já identificou deficiências no Sul de Minas e no Triângulo Mineiro, e por isso busca um vice dessas regiões, ainda que ele e Aécio Neves já tenham trocado farpas e acusações no passado, o que certamente será explorado pelos adversários.
Gabriel Azevedo segue isolado no MDB e deve montar uma chapa de emedebistas, apostando na própria articulação. Matheus Simões, candidato à reeleição, conta até agora apenas com o Novo, seu partido original, e o Avante: pouca força partidária, mas já tem tempo de TV consolidado e tenta agora formalizar novas alianças, aguardando o fechamento do quadro para anunciar vice e senador. Ele e seu candidato a presidente, não o preferido pessoalmente, que seria Romeu Zema, mas Ronaldo Caiado, do próprio PSD, já articulam essa aproximação, o que pode significar uma transferência de votos para Caiado e, por consequência, para Simões.
O que Zema, Flávio Bolsonaro e Lula precisam fazer em Minas Gerais para conquistar o eleitor mineiro?
Flávio Bolsonaro tem a seu favor um eleitorado fiel ao bolsonarismo, que resiste mesmo diante de denúncias, do escândalo do Banco Master ou de divergências da própria Michelle Bolsonaro sobre o tarifaço, mas ele tem só isso, o bolsonarismo. Por isso, abandonou uma postura inicialmente mais amena e voltou ao radicalismo, trazendo para o discurso nomes como Milei, Netanyahu e Trump, para garantir sua presença nesse campo político, do mesmo jeito que fez Tarcísio de Freitas (Republicanos) em São Paulo.
Já Lula precisa mostrar entregas concretas e resgatar sua aliança histórica com Minas Gerais. E Romeu Zema também tem dever de casa: sua gestão foi aprovada por mais de 50% dos mineiros, mas, na disputa presidencial, ele fica atrás justamente por não apresentar uma obra sustentável que justifique sua candidatura nacional, ao contrário do que ocorre em Goiás, onde Ronaldo Caiado consegue ser o primeiro em seu próprio estado por conta de entregas mais claras. Em Minas, Zema tem hoje cerca de 10% do eleitorado na disputa presidencial, ficando em segundo lugar. Ele precisa sair bem de casa.
Assista ao Matinal desta terça-feira (4) completo: