Letícia Duarte

De NY, análises sobre o mundo e os EUA

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Análise

Tarifaço de Trump contra o Brasil é uma colcha de retalhos de embates políticos

Trump juntou todos os revanchismos políticos contra o Brasil e tenta dar um verniz técnico ao tarifaço. Seu secretário de Estado, porém, deixou claras as intenções do presidente

17/07/2026 às 12:59 · Atualizado há 3 meses
tarifaço
Lula em foto com Trump em agenda na Malásia — Foto: Ricardo Stuckert/PR

A recente decisão do governo dos Estados Unidos de voltar com um tarifaço de 25% sobre os produtos brasileiros não é a simples medida econômica que o USTR (órgão de comércio americano) tenta vender. Trata-se, na verdade, de um ataque político disfarçado de burocracia.

Leia também: Tarifaço: governo calcula impacto, promete ajuda a empresários e prepara reação

Até a semana passada, ainda existia alguma dúvida sobre o peso político dessa decisão. No entanto, quando o secretário de Estado americano, Marco Rubio, publicou nas redes sociais que a culpa das tarifas era do presidente Lula e o acusou de colocar o próprio ego à frente do povo brasileiro, qualquer verniz técnico foi ralo abaixo. Rubio transformou oficialmente a disputa comercial em um embate político direto entre Washington e o governo brasileiro.

Os retalhos da colcha do tarifaço

O primeiro retalho dessa colcha é o ressentimento contra a nossa autonomia digital e financeira. Peguemos o PIX como exemplo. Enquanto o mundo inteiro celebra o sistema como uma revolução bem-sucedida e gratuita, os Estados Unidos enxergam apenas empresas financeiras americanas perdendo lucros.

Como bem notou um editorial recente do jornal britânico “The Guardian”, a verdadeira ofensa que incomoda Washington não é o protecionismo brasileiro, mas a nossa autonomia de criar instrumentos próprios que reduzem a dependência dos sistemas americanos. Na visão deles, nenhum país pode ousar criar um modelo próprio em detrimento dos lucros americanos.

O segundo retalho é revanchista e diz respeito ao embate com o Judiciário brasileiro. Há uma fúria explícita do entorno de Trump com as decisões da Justiça brasileira de remover conteúdos de desinformação, discurso de ódio e atos antidemocráticos das redes sociais. Uma das plataformas atingidas no Brasil, inclusive, foi a Truth Social, rede social criada pelo próprio Trump. O DNA dessa taxação, portanto, está impregnado por interesses conflagrados na guerra das redes sociais.

Novas tarifas são desdobramentos das passadas

Outra parte do tecido desta história é a questão ambiental. O governo Trump, que internamente encoraja a flexibilização de regras ecológicas e práticas antes condenadas, tenta usar o desmatamento da Amazônia como argumento técnico contra o Brasil, ignorando que os indicadores de devastação vêm caindo durante o governo Lula.

Tudo isso, claro, está mergulhado no caldo de um ano eleitoral — tanto no Brasil quanto nos EUA, que terá as midterms em breve. O novo tarifaço é, na verdade, um desdobramento da primeira tentativa de taxação ocorrida no ano passado, que tinha um tom assumidamente político e estava ligada à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro no STF. O presidente e empresário tentou agir por decreto, a Suprema Corte americana barrou, e agora eles encontraram essa investigação do USTR como via alternativa para restabelecer a retaliação.

Assista ao Matinal desta sexta-feira (17/7) na íntegra:

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