Múcio diz que Lula não conseguiria reagir a invasão americana semelhante à da Venezuela
Em entrevista ao Lisboa Connection, o ministro da Defesa, José Múcio, diz que o Brasil não está preparado para evitar ação semelhante, que resultou na prisão de Maduro, e que só conseguiria conter invasões intramuros e de vizinhos

O ministro José Múcio considera que Trump é um fato novo na história do mundo e que o poderio bélico dos Estados Unidos é avassalador. No caso da Venezuela, que resultou na prisão do presidente Nicolás Maduro, tudo pareceu muito simples. Para ele, se o mesmo acontecesse no Brasil, não estaríamos preparados para enfrentar a ofensiva. De acordo com Múcio, o Brasil só tem condições de resistir a invasões intramuros e dos países vizinhos, embora alguns deles, como o Chile, a Colômbia e o Peru tenham mais aviões do que nós.
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Em entrevista ao Lisboa Connection, Múcio explicou que os problemas internos a que se refere são as GLOs (Garantia da Lei e da Ordem) nos nossos portos, as drogas na fronteira e outras questões menores, mas que nunca nos preparamos para um conflito real. Questionado sobre como é possível lidar com os desafios orçamentários de sua área em um país carente em investimentos em Saúde e Educação, o ministro revelou que chega a sentir remorso quando vai ao presidente pedir para comprar submarinos, pois o mais simples custa 800 milhões de euros e a gente precisa de pelo menos cinco.
“O que eu defendo é que o orçamento seja discutido independentemente de defesa. Se nós também não cuidarmos da defesa, a nossa vulnerabilidade nos torna uma coisa atrativa para os invasores” — destacou Múcio.
A seguir, os principais trechos da entrevista com José Múcio
Na sua visão, há uma chance de que a polarização entre lulismo e bolsonarismo volte a contaminar a caserna neste ano eleitoral?
Que cada um guarde o seu voto para si e torça isoladamente pelo que quer, mas a gente sempre tem que analisar o conjunto, principalmente as forças, que têm que trabalhar por um objetivo comum. Se nós não somos fortes como merecíamos ou precisamos ser, nós não podemos, em momento nenhum, nos dispersarmos. A gente tem que eleger a nossa união para estabelecer o melhor resultado para as lutas que nós desejamos.
A proximidade entre Brasil e França, devido à fronteira com a Guiana Francesa, não abre portas para uma cooperação militar entre os países para a defesa dessa região que envolve nosso interesse de petróleo?
A França tem grandes negócios no Brasil. Ninguém tem mais negócios no Brasil. O submarino que estamos fazendo agora, com propulsão nuclear, é francês. Tem uma equipe francesa no Rio, em Itaguaí, essa coisa toda. Temos helicópteros da Airbus, franceses, lá em Minas Gerais. Essa questão das parcerias é estabelecida pela diplomacia brasileira, que é a arma mais importante da defesa do país. Se nós não tivéssemos a nossa diplomacia, nós já teríamos conflitos e problemas muito maiores, e não teríamos as conquistas que tivemos ao longo da história. Com relação a essa questão do petróleo, primeiro nós precisamos vencer os problemas internos, a questão do meio ambiente, agora que nós estamos começando a perfurar. Sabemos que ali tem uma quantidade gigantesca de petróleo, o que vai nos instar a ter uma esquadra muito forte no Norte que nós não temos.
Como é possível lidar com os desafios orçamentários da pasta em um país que carece de investimentos em Saúde e Educação?
Num país desigual como o nosso, nós sempre priorizamos as prioridades. Alimento, educação e saúde. Não há uma reserva que o nosso dinheiro tenha para investir em defesa. Eu fico com muito remorso quando eu vou ao presidente pedir para comprar submarinos. Um submarino simples, da classe Scorpene, custa 800 milhões de euros. E a gente precisa de 5, 6, 10. Num país que às vezes falta vacina, falta remédio, às vezes falta comida, está faltando livro escolar.
O que eu defendo é que o orçamento seja discutido independente de defesa, porque dinheiro sobrando para defesa você só terá no dia que ninguém estiver precisando de comer, de estudar, de comprar um remédio, quando não tiver mais fila no SUS. Mas se nós também não cuidarmos da defesa, a nossa vulnerabilidade nos torna uma coisa atrativa para os invasores. Quando alguém se elege presidente da República, a defesa serve a quem ganhou, mas continua servindo a quem perdeu.
Com base no que o senhor falou anteriormente, atualmente, que tipo de ameaças o Brasil consegue conter?
Essa é uma pergunta ruim de se responder. Nós conseguimos conter as invasões intramuros, dos vizinhos, e isso sendo que, hoje, há vizinhos que são mais fortes que nós. As aviações do Chile, da Colômbia e do Peru são maiores do que a nossa. Nós nos achamos os maiores, mas não somos. Penso que devemos ser o quarto ou quinto país.
Isso acontece porque nós não cuidamos das nossas proteções. Lá atrás, quando houve aquele movimento de 1964, que uns chamam de movimento político, outros chamam de golpe, ficaram as queixas [à defesa]. Essas queixas se cristalizaram, depois se tornaram cicatrizes, depois elas sararam, mas ficaram as nódoas. A classe política sempre achou que, desarmando os soldados, estavam punindo aqueles que foram envolvidos ou seus descendentes. Quando nós desarmamos os soldados, desarmamos a defesa do país. É como você contratar um vigia para a sua casa mas, como não gosta dele, não confia, não dá uma arma. Você fica sem proteção e o vigia fica zangado com você pela falta de confiança. Precisamos virar essas páginas, corrigir essas sequelas e tocar para frente.
A que o senhor se refere quando fala de invasões intramuros?
Falo dos problemas internos que acontecem aqui, coisas como GLOs (Garantia da Lei e da Ordem) nos nossos portos, a questão de drogas na fronteira, nós temos defesa para essas questões menores aqui. Mas nós nunca nos preparamos para um conflito. A última guerra que nós vivemos foi contra o Paraguai. Nunca fomos instados a nos armarmos. Nós estamos sempre armados de esperança, mas precisamos materializar as coisas que a gente deseja.
No caso de uma invasão americana aos moldes da que prendeu o ex-presidente Maduro na Venezuela, o Brasil e o presidente Lula conseguiriam se defender?
Nós não estamos preparados para aquilo. Eu acho que eu era o único ministro do governo que estava em Brasília quando aconteceu. Desde que eu cheguei aqui, eu tenho muito cuidado com os longos finais de semana, porque as pessoas que desejam fazer esses movimentos sempre aproveitam um carnaval, uma semana santa, um longo final de semana, porque se tem tempo e as pessoas estão todas desmobilizadas. Então, eu disse para a minha mulher que iríamos passar o Réveillon aqui. Eu tinha certeza, vendo o porta-aviões lá na beira da praia deles [venezuelanos], eu já sabia que aquilo ia acontecer. E aí eu recebi um telefonema de alguém da inteligência do Exército no dia 3, às 5 horas da manhã. Como a gente já sabia que ia acontecer, estávamos com as nossas fronteiras guarnecidas. A Guiana não tem defesa, praticamente, então dependia de nós evitar que eles entrassem.
E o resto é como vocês viram. Foi uma invasão rapidíssima. Eu acho que houve um certo conluio de quem estava dentro da Venezuela, porque ficou uma coisa tão simples que não tem como você não acreditar nisso. Mas nós não estávamos preparados para uma coisa daquela, não.
A própria Alemanha admitiu, durante uma coletiva do governo, que, se os EUA quisessem fazer aquilo com o chanceler alemão, provavelmente conseguiriam. Alguém está preparado?
Ninguém está preparado. Nós estamos vivendo um mundo novo. O Trump é um fato novo na história do mundo. Não sei até quando ele vai aguentar isto. Os Estados Unidos já tiveram uma experiência malograda no Vietnã e no Afeganistão. Eles tinham que ter muito cuidado para não sair do Irã desmoralizados, como disse o primeiro-ministro da Alemanha.
O ex-comandante da Marinha, Ilques Barbosa Junior, disse, em entrevista recente, que ‘se atacar Itaipu e fechar o porto de Santos, acabou’. O senhor acredita que a proteção a pontos estratégicos como esses precisa de uma intensificação? Isso vem sendo feito?
Nós somos vulneráveis. O Brasil é sedutor para quem tem ganância de riqueza. Se nós não cuidarmos disso, um dia algum desavisado vem aqui e vai ter a vantagem. Itaipu é uma fronteira, inclusive, de transporte de drogas. De vez em quando nós fazemos operações que chamamos de Ágata, com os países vizinhos, que são treinamentos para evitar transporte de drogas. Nós pegamos lá 300, 400, 500 quilos de drogas, e isso é apenas uma amostra do que acontece lá todos os dias. Nós temos vizinhos que são grandes produtores de droga. Aí vem a pergunta: você acha que essa droga é escoada por onde? Você pode não querer responder, mas sabe por onde ela é escoada. Às vezes a gente pega um grande traficante numa dessas fronteiras e entrega aqui às autoridades da Justiça. Dois meses depois, com liminares e habeas corpus, eles estão cumprimentando as mesmas pessoas que os prenderam alguns meses atrás, de maneira que algum freio de arrumação vai ter de haver nessa questão da droga.
Mas, um dos nossos grandes problemas aqui são os crimes transnacionais. Antes desse final de ano, ainda, nós vamos fazer um périplo com os vizinhos. Estou chamando de uma ‘diplomacia militar das Forças Armadas’. Nós vamos fazer uma grande visita a Uruguai, Paraguai, Chile e Venezuela, visitando ministros de defesa, comandantes das forças armadas para conversarmos sobre as fronteiras e ver o que é que nós podemos estabelecer do interesse comum para que nós possamos tomar providências comuns contra crimes transnacionais e para tentar imunizar essa questão ideológica da segurança. A gente tem que despolitizar essa questão. Enquanto as Forças Armadas da América do Sul tiverem vieses político-eleitorais, nós nunca vamos estar em segurança.
Assista à íntegra da entrevista do ministro José Múcio ao Lisboa Connection: