Filmes ‘O agente secreto’ e ‘Ainda estou aqui’ viraram antídoto contra distorção histórica
Para público americano, que não tem experiência com ditaduras, produções funcionam como alerta, analisa Beatriz Bulla

Há algo que conecta os filmes “O agente secreto” e “Ainda estou aqui” para além do sucesso internacional e das estatuetas: ambos disputam a memória.
Não se trata apenas de filmes sobre a ditadura militar, mas de obras que devolvem ao público a dor, os dilemas e as decisões individuais atravessadas por um dos períodos mais violentos da História brasileira. São histórias que permitem identificação, não com heróis abstratos, mas com pessoas comuns, e que, justamente por isso, funcionam como retrato histórico vivo.
Essa disputa pela memória ganha peso num país que flertou recentemente com a amnésia. Décadas depois do fim do regime militar, o Brasil viu uma parcela expressiva da classe política, especialmente ligada ao bolsonarismo, relativizar, enaltecer ou defender abertamente a ditadura. Nesse contexto, não é casual que filmes brasileiros sobre esse passado duro estejam “furando a bolha” e chegando a plateias internacionais. Como disse Wagner Moura, trata-se de filmes sobre memória, mas também sobre o risco permanente do esquecimento.
Lembrar não é um gesto passivo, é uma escolha política. Em “Ainda estou aqui”, isso aparece de forma emblemática na luta de Eunice Paiva pelo reconhecimento oficial da morte do marido, uma cena que resume a recusa em aceitar o apagamento como destino.

Já em “O agente secreto”, a busca pela memória atravessa o filme inteiro, não como nostalgia, mas como urgência, muitas vezes deslocada para outras gerações. É a pergunta que insiste: quem vai lembrar quando os que viveram já não estiverem aqui?
Histórias ecoam fora do Brasil
Para o público americano, que não tem experiência histórica com ditaduras, esses filmes funcionam como alerta. Mostram como erosões democráticas não começam com tanques nas ruas, mas com pactos, silêncios, apoio empresarial, naturalização da violência e da vigilância. São thrillers políticos, sim, mas também filmes didáticos, no melhor sentido da palavra.
Não por acaso, os discursos de Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho reforçam essa dimensão. Wagner fala da transmissão de valores entre gerações, da cultura como vetor de desenvolvimento e da necessidade de não herdar apenas traumas.
Kleber convoca jovens cineastas americanos a filmarem agora, enquanto ainda é possível, lembrando que a arte também é instrumento de denúncia e resistência. Ambos falam de um Brasil que sofreu ataques à cultura, viu artistas serem tratados como inimigos da pátria e agora reage.
O reconhecimento internacional desses filmes não é só estético. Ele tem algo de reparação simbólica. Quando obras que escancaram a violência da ditadura, exaltada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, são premiadas lá fora, há uma sensação de justiça narrativa sendo feita. Não apenas contra indivíduos, mas contra uma versão distorcida da História.
Celebrar essas vitórias é celebrar também a ideia de país que se recusa a esquecer porque sabe que lembrar é, muitas vezes, a única forma de não repetir.
Assista ao comentário completo de Beatriz Bulla no Matinal desta segunda-feira (12):