Master: quando o problema deixa de ser o banco e vira o Supremo
Interlocução de Alexandre de Moraes com o Banco Central em favor do Master amplia desgaste institucional e reacende debate sobre limites, ética e o peso da toga.
Há histórias em Brasília que vão ficando radioativas. Quanto mais se mexe, mais contaminam o entorno. O caso do Banco Master parece ter entrado nessa categoria e, a essa altura, o problema já não é apenas o banco, nem só o sistema financeiro. O desconforto agora alcança em cheio o STF (Supremo Tribunal Federal).
O novo capítulo veio com um furo da colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, publicado nesta semana. Segundo a reportagem, o ministro Alexandre de Moraes procurou ao menos quatro vezes o presidente do BC (Banco Central), Gabriel Galípolo, para interceder a favor do Banco Master, defendendo a aprovação da venda da instituição para o BRB (Banco de Brasília).

O negócio foi anunciado em março de 2025 e depois barrado pelo BC. A autoridade monetária entendeu que havia indícios de fraude na operação, especialmente no repasse de cerca de R$ 12 bilhões em créditos do Master para o BRB.
Ainda segundo a coluna, Galípolo informou Moraes sobre os achados técnicos, e o ministro teria reconhecido que, se as irregularidades fossem confirmadas, a venda não poderia prosperar.
Até aqui, já seria uma história sensível. Mas ela não começa nem termina aí.
Nas semanas anteriores, a própria Malu Gaspar havia revelado que o escritório de advocacia da esposa de Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes, mantém um contrato com o Banco Master.
O acordo prevê pagamentos de R$ 3,6 milhões por mês, por três anos, a partir de janeiro de 2024, o que pode chegar a algo próximo de R$ 130 milhões ao longo do período.
O problema começa quando as peças se empilham: contrato vultoso, banco sob investigação, tentativa frustrada de venda, e o próprio ministro da mais alta Corte do país conversando diretamente com o presidente do BC sobre um negócio que interessa à instituição que remunera sua esposa.
É aí que a situação deixa de ser apenas delicada e passa a ser institucionalmente constrangedora.
A questão central não é criminal, ninguém está dizendo que a esposa do ministro atuava em processos no STF, o que configuraria impedimento objetivo.
A questão é ética, política e simbólica. É a chamada zona cinzenta: até que ponto relações familiares, contratos privados e atuação pública se misturam de forma aceitável quando se ocupa uma cadeira no Supremo?
Nesse caso específico, a fronteira parece ter sido atravessada. Não por especulação, mas por um fato objetivo revelado pela reportagem: “Alexandre de Moraes falou com Gabriel Galípolo em defesa de um banco que paga milhões ao escritório de sua esposa”. Isso muda tudo.
O silêncio também pesa. Até agora, não houve manifestação pública do ministro, do STF ou do Banco Central. Em um caso dessa gravidade, falar em off não resolve. Pelo contrário: banaliza um instrumento que deveria ser exceção. Aqui, o que se espera é explicação clara, direta, pública, até para preservar a Suprema Corte.
Criticar o Supremo não é atacar o Supremo, é o oposto
Como costuma dizer o constitucionalista Conrado Hübner, o problema é quando a Corte se torna surda às críticas. Um Supremo que não responde se fragiliza, especialmente num momento de tensão entre os Poderes e de desgaste institucional generalizado.
O episódio ainda se soma a outros ruídos recentes, como o de ministro em jatinhos de empresário. Não por acaso, o presidente do STF, Edson Fachin, voltou a defender a discussão de um código de ética e conduta para ministros da Corte, algo comum em democracias consolidadas e longe de ser uma jabuticaba brasileira.
O caso do Banco Master também promete desdobramentos políticos. A senadora Alessandra Vieira (MDB-SE) já anunciou que pretende, após o recesso, coletar assinaturas para investigar o contrato entre o banco e o escritório da família de Moraes, citando valores fora do padrão da advocacia e a atuação direta do ministro em favor da instituição.
Tudo isso acontece num momento em que Alexandre de Moraes está no centro do embate político nacional, em razão de suas decisões contra golpistas, militares e aliados do bolsonarismo pelos atos do 8 de Janeiro. Justamente por isso, talvez, o cuidado devesse ser redobrado. Quando se ocupa uma posição tão exposta, a conduta fora dos autos importa tanto quanto as decisões dentro deles.
No fim, a pergunta que fica não é apenas sobre o Banco Master. É sobre o peso da toga. E sobre quanto o Supremo está disposto a explicar para seguir sendo o poder que, como seus próprios ministros gostam de lembrar, “não pode errar”.
Assista à análise de Talita Fernandes no Matinal de terça-feira (23):