Talita Fernandes

De Jerusalém, análises sobre política, mundo e Oriente Médio

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Análise

Nova escalada entre EUA e Irã retrocede a acordo firmado em junho

O cessar-fogo no Oriente Médio sempre se mostrou frágil, mas será que ele não vai ter peso nenhum nas novas decisões dos EUA e do Irã?

21/07/2026 às 16:43 · Atualizado há 4 semanas
Guerra entre Irã e Israel e destroços dos ataques no sul do Líbano (Oriente Médio)
Guerra entre Irã e Israel: destroços dos ataques israelenses no sul do Líbano (Foto de KAWNAT HAJU / AFP) /

Desde o início do conflito no Oriente Médio, deflagrado em 28 de fevereiro com os ataques conjuntos de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã, as manobras de tentativas de paz sempre se mostraram frágeis. Essa fragilidade fica evidente ao lembrarmos que levou até junho para que se chegasse à assinatura de um memorando de entendimento — um documento inicial, assinado virtualmente no dia 14 de junho e, pessoalmente, no dia 17, que abriria espaço para tratativas de paz.

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Menos de um mês depois, já entramos no décimo dia de uma nova troca de ameaças e ataques, e a escalada nas tensões acaba de ganhar mais um capítulo após a decisão de Trump de autorizar ataques diretos contra alvos iranianos.

Em resposta, o Irã passou a atingir bases militares americanas instaladas em países aliados na região, como Jordânia, Iraque e Bahrein, ampliando o risco de uma escalada do confronto. Até o momento, Israel não participou diretamente dessa nova ofensiva, mas cresce o temor de que Tel Aviv possa se juntar às ações militares lideradas por Washington, o que ampliaria ainda mais a dimensão da guerra.

Paralelamente aos confrontos entre EUA e Irã, os Houthis — grupo rebelde do Iêmen apoiado por Teerã — anunciaram um bloqueio marítimo no estreito de Bab-el-Mandeb contra embarcações ligadas à Arábia Saudita no Mar Vermelho. A medida aumenta a instabilidade em uma das mais importantes rotas do comércio internacional, afetando o transporte de mercadorias e pressionando os preços globais do petróleo, em meio ao receio de novos impactos sobre a economia mundial.

Jogos de interesses no Oriente Médio 

Para além da centralidade do Estreito de Ormuz, que é um ponto importante para a rota do comércio mundial, com destaque para a questão de energia, agora entrou no jogo o Bab-el-Mandeb, outro estreito por onde passa cerca de 10% da rota comercial do mundo e mais ou menos 5% do petróleo.

A discussão sobre o possível fechamento dessa passagem expõe a questão de que outros atores envolvidos querem faturar com isso, ao cobrar tarifas dos navios que passam por lá. Claro que também há um interesse econômico, uma disputa por território e por quem controla a região. 

O erro de cálculo e a sobrevivência de Netanyahu

Quando me perguntam se a guerra voltou, eu retomo o argumento de que houve um erro de cálculo, na minha leitura, de como os Estados Unidos e Israel entraram nessa guerra. Trump parece ter caído no canto da sereia de Benjamin Netanyahu, que tem todos os interesses do mundo em manter um conflito sempre ativo na região, sobretudo com o Irã. 

O primeiro-ministro israelense se vê enfraquecido: está com uma reputação péssima mundo afora e tem um pedido de prisão contra ele expedido pela Corte Internacional Criminal em função de tudo o que ainda acontece em Gaza. Dessa forma, ele tenta sobreviver e tem Trump como seu principal aliado.

O poderio do Irã e o dilema de Trump

Trump parece ter comprado a história de que o Irã trocaria de regime rapidamente, o que não aconteceu. O país persa mostrou-se mais forte do que muita gente estimava e tem jogado com o que tem de força. Os iranianos vêm aterrorizando países que são aliados americanos — mesmo usando drones mais baratos —, enquanto Israel e os EUA têm uma grande sofisticação de equipamentos. É uma medição de força. Ainda que o poderio militar iraniano não chegue perto da potência dos rivais. Além do mais, eles não têm um país inteiro como aliado na região. Contam apenas com forças rebeldes, como os Houthis no Iêmen e o Hezbollah no Líbano. 

O que a gente está vendo, portanto, é cada um usando a força que tem. Trump também tem medo de entrar para valer nessa guerra, porque, caso os conflitos se intensifiquem, ele vai ter que prestar contas à população americana, já que os americanos estão pagando mais caro. Lembrando que Trump se elegeu dizendo que não iria mais se envolver em guerras intermináveis.

Os ataques às instalações de produção nuclear do Irã, que ele chamou de “pontuais”, estão mostrando que não há nada de pontual. Essa nova rodada de tensões, portanto, nos distancia cada vez mais de uma saída pacífica e diplomática para esse conflito.

Assista ao Matinal desta terça-feira (21/7) na íntegra:

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