Entrevista

Mary Del Priore expõe crise da leitura: ‘A garotada não sai do TikTok’

Historiadora Mary Del Priore se diz 'horrivelmente entristecida' com 35% de analfabetos funcionais no Brasil

Publicado em 16/07/2026 às 06:00
Mary Del Priore – Foto: Amado Mundo

Com mais de 50 livros publicados, a historiadora Mary Del Priore — que se especializou na vida íntima do Brasil — manifestou ao Papo Amado um temor grave sobre o futuro da cultura no país, apontando a ascensão do digital como uma agravante para a crise da leitura e escrita no país. A pesquisadora declarou ficar “horrivelmente entristecida” com o panorama atual, que ela conecta diretamente à migração do consumo de conteúdo para plataformas de vídeos curtos.

“Estou começando a achar que está tarde demais, que a garotada não sai do TikTok. Estou horrivelmente entristecida com esse número que nós temos: 35% da população brasileira de analfabetos funcionais,” lamentou Mary Del Priore.

A historiadora critica o fato de que conteúdos complexos, como os relativos à História, estão sendo substituídos por versões simplificadas e caricatas, o que impede a profundidade do conhecimento.

Na conversa com Guilherme Amado, publisher do Amado Mundo, Mary Del Priore também classificou o celular como o demolidor da privacidade, construída ao longo de 300 anos no Brasil. Para a especialista, a tecnologia aboliu a vida íntima e moveu a exposição para a esfera pública.

Velhice ao longo dos anos

Também pesquisadora sobre a velhice, Priore traçou um contraste entre o “coitadismo” da velhice contemporânea e a dignidade dos velhos do passado, que, segundo ela, mantinham-se ativos e sem lamúrias, mesmo diante da falta de apoio estatal. “O que os nossos velhos do passado ensinam é que não havia coitadismo, né? Esses velhos eram de uma dignidade até o final, com as suas mazelas, com tudo que tiveram que enfrentar, com a falta de apoio…”, comparou.

A historiadora também adiantou dados de sua pesquisa, desmistificando figuras históricas. Ela descreveu Xica da Silva não como uma vilã sensualizada pela ficção, mas como uma mulher de mobilidade social e dignidade: uma mãe de família “dedicadíssima à educação dos seus filhos” e que, sendo preta, fez parte de uma das comunidades mais ricas do Brasil no século XVIII. 

Ela também celebrou a vida livre da Marquesa de Santos (Domitila), amante de D. Pedro I, cuja correspondência explícita encontrada revela que a paixão era uma “relação de pele” de longa duração, indo além do mero arranjo político.

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