Sérgio Dávila: ‘Não deveríamos, por princípio, vetar a voz de ninguém no jornal’
Em entrevista ao Papo Amado, o diretor de redação da Folha de S.Paulo comenta os princípios editoriais do jornal e relembra a cobertura do 11 de Setembro e da Guerra do Iraque

“O que te irrita na Folha?” foi a pergunta que o jornal fez, no começo do ano, por ocasião de seus 105 anos, a políticos, intelectuais e artistas convidados a apontar incômodos com o projeto editorial. A mesma provocação foi refeita pelo Amado Mundo, no Papo Amado, ao diretor de redação da Folha de S.Paulo, Sérgio Dávila. A crítica dele está no próprio fazer jornalístico: a “qualidade média do texto” e os “aspismos” das reportagens.
Dávila, que em mais de três décadas no jornal foi de repórter à chefia da redação, afirmou que o jornal mantém como princípio ouvir todos os lados, mesmo sob críticas do “dois-ladismo”.
Um dos jornais com maior número de colunistas do país — são 169 —, a Folha busca refletir, nessa diversidade, a amplitude de opiniões da sociedade brasileira, segundo o jornalista. Para ele, o limite dessa pluralidade de opiniões é a lei. Ao comentar episódios recentes, como a publicação de um artigo sobre “racismo reverso”, assinado por Antonio Risério em 2022, disse que opiniões divergentes fazem parte do projeto editorial, ainda que nem sempre reflitam a visão de quem edita.
“O segredo de fazer um jornal como a Folha é: 90% do que sai como opinião, eu não concordo”, disse.
Na conversa, Dávila ainda revisitou algumas das coberturas que marcaram sua carreira. No 11 de setembro, caminhava em direção ao World Trade Center quando as torres desabaram – ele foi o primeiro repórter brasileiro a chegar aos escombros.
Anos depois, em Bagdá, ele e o fotojornalista Juca Varella foram um dos poucos profissionais da imprensa que permaneceram na cidade durante os primeiros bombardeios da Guerra do Iraque. A experiência rendeu a eles o Prêmio Esso de Reportagem, em 2003, e também o livro ilustrado “Diário de Bagdá, a Guerra do Iraque segundo os bombardeados” (ed. DBA).
“Algumas cenas que presenciei na guerra do Iraque me fizeram pensar em que momento eu parava de ser o repórter e voltava a ser humano. Situações para tomar uma decisão: reporto isso ou faço parte dessa história?”, contou.
A seguir, leia os principais trechos da entrevista. Ou assista à íntegra em vídeo no final do texto.
A Folha tem feito uma pergunta curiosa para os seus leitores no Instagram que replico aqui: o que te irrita na Folha de S.Paulo?
A qualidade média do texto. Recorremos muito a “aspismos”. Uma reportagem não deveria ter a pessoa falando entre aspas cinco, seis vezes. Bastaria uma frase da pessoa ou nenhuma, porque, às vezes, você entrevista só para conseguir informações. Alguém falou que o texto da Folha tem a característica de ser, ao mesmo tempo, superficial e obscuro. Superficial no sentido de não ser didático e não aprofundar o assunto. Obscuro porque não se entende o que se está falando. Estou generalizando, obviamente. Temos uma redação de 300 jornalistas excelentes, mas a pressão do tempo e a necessidade de colocar coisas no ar muito rapidamente nem sempre permitem fazer aquela revisão, e acaba saindo coisa muito ruim. Isso me irrita profundamente no jornal.
O que mudou desde que você chegou à Folha?
A Folha tem uma característica que é muito marcante: manter o projeto intacto. Tem alguns princípios basilares ao longo desse tempo, e eles não só não mudaram, como foram reforçados. E há pressão para que se mude. Por exemplo, a Folha não criou, mas instituiu a obrigatoriedade de se ouvir o outro lado em qualquer reportagem. [Quando começou], ali nos anos 1980, ouvir o outro lado era exótico na imprensa. Com a polarização, desde o Brexit, a [primeira] eleição do Trump, em 2016, e a do Jair Bolsonaro, em 2018, há uma pressão muito grande para que nem sempre a gente dê voz para quem, segundo essa tese, não merece ter voz. Até há uma crítica que chama isso de “dois-ladismo”. Estamos muito convencidos de que esses princípios devem ser mantidos, porque jornalismo profissional é isso: uma gama de opiniões diferentes na sociedade brasileira que é muito diversa. Nós não deveríamos, por princípio, vetar que a voz de ninguém apareça no jornal.
Há quatro anos, a Folha deu espaço ao Antonio Risério, que escreveu uma coluna sobre “racismo reverso”. À época, o jornal foi muito criticado, inclusive na própria redação. Mesmo com esse princípio tão basilar para a Folha, você não vê limites nisso?
Tudo tem limite. Seria bonito dizer que a liberdade de expressão não tem limite. Ela tem. A Folha tem a posição de ir até o limite da liberdade de expressão. E qual é esse limite? A lei. Não se pode escrever um artigo que seja homofóbico, racista, que incite violência contra as mulheres, [pois] tudo isso quebra a lei. Desde que respeitada essa premissa, não há pensamento que seja proibido na Folha. A posição do Risério, com a qual particularmente eu não concordo, era uma posição defensável. Aliás, o segredo de fazer um jornal como a Folha é: 90% do que sai como opinião, eu não concordo. O jornal é como uma praça pública de ideias. Você joga uma opinião polêmica, não só por ela ser polêmica — nesse caso era —, passa o filtro das outras opiniões contra ela, e que prevaleça a que for mais razoável e bem fundamentada.
Um dos momentos mais importantes da sua carreira foi a cobertura do atentado às Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001. Onde você estava naquela manhã?
No dia 10 de setembro daquele ano, a banda Jamiroquai lançou provavelmente o disco menos ouvido da história da indústria fonográfica. Foi um show no Bowery, depois eles deram entrevista para a imprensa e depois houve uma festa. Saí do evento às duas ou três da manhã. Estava dormindo, quando fui acordado pela secretária assistente da redação, a Cleusa Turra, com a informação de que um avião havia entrado por engano em uma das torres do World Trade Center. Foi com essa pauta que eu e a minha esposa, Teté Ribeiro, saímos de casa naquela manhã.
No caminho entre o nosso apartamento [no East Village, não muito distante do WTC] e as torres, elas caíram. A gente viu a história acontecendo. Foi um momento inesquecível na minha carreira. Era um barulho muito grave, seguido de um silêncio absoluto que só foi quebrado por gritos das pessoas que se assustaram quando perceberam o que houve e pelo ruído de alarmes dos carros disparando.
Anos depois, você, de certa maneira continua essa cobertura, mas na Guerra do Iraque. Como foi?
Fui convidado para ir junto com o Juca Varella. Nós demoramos uma semana de São Paulo até chegar lá. Passamos por cinco países. Havia dois mil jornalistas do mundo inteiro em Bagdá. Quando o presidente americano George W. Bush deu o ultimato [antes do bombardeio], foram embora 1.840. Quando nós chegamos em Bagdá, havia 160 jornalistas, e éramos os únicos brasileiros. Encontramos uma cidade deserta que tinha se recolhido, para esperar o que iria acontecer. Na virada do dia 19 para 20 de março, estávamos lá quando as primeiras bombas caíram. É um outro momento, sensação e experiência profissional. Inesquecível por outros motivos. Quando você ouve o primeiro míssil da sua vida, atingindo o chão, é um barulho, um deslocamento de ar de que jamais esquecerei.
Você sentiu medo da guerra ou em algum momento se acostumou?
Tem um medo basal, que é um medo que te mantém vivo e não te deixa ultrapassar alguns sinais. Você negocia internamente o tempo todo com você mesmo para que esse medo não te domine a ponto de te paralisar. Desses 160 jornalistas, 16 morreram nos 35 dias em que estivemos lá. Uma equipe da Al Jazeera inteira, um repórter espanhol e outro britânico. Depois do terceiro dia, a adrenalina toma conta 24h por dia, e você congela o medo. Lembro que quando finalmente saímos de Bagdá e voltamos para Amã, já distante do front, tudo o que tínhamos guardado em 35 dias se manifestou em dois dias: caímos de cama.
Qual foi o teu maior dilema ético no jornalismo?
Algumas cenas que presenciei na Guerra do Iraque me fizeram pensar em que momento eu parava de ser o repórter e voltava a ser humano. Havia situações claras em que as pessoas precisavam de ajuda — de dinheiro até ajuda pois tinham sido feridas. Situações para se tomar uma decisão: reporto isso ou faço parte dessa história? A ideia de escrever “Diário de Bagdá: A Guerra do Iraque segundo os Bombardeados” veio muito da percepção nossa de que as pessoas que estavam morrendo não tinham culpa. Na maior parte das vezes, eu optava por reportar o que estava vendo sem me envolver ou alterar a cena. Nós reportamos o bombardeio de uma escola de crianças, cenas que são inesquecíveis, mas tínhamos que reportar.
Você começou a carreira como trainee na Editora Abril. Como foi a ida para a Folha?
A impressão que tive ao mudar da Abril para a Folha foi de ter saído de uma guerra e entrado numa guerrilha. Era uma luta diária para conseguir emplacar as suas matérias, a disputa era muito maior. Foi um choque até estruturalmente.
Você se tornou editor executivo com quantos anos?
Foi em 2010. Ainda não tinha 45 anos.
Há uma lógica que é “faça sempre um jornal melhor do que você fazia ontem”, só que com cada vez menos dinheiro. Como fechar essa equação?
Por estar constantemente em crise, o jornalismo é uma profissão que historicamente respondeu muito bem aos desafios tecnológicos. O lide — o que, quem, quando, onde, como, por que —, que hoje quase todo texto jornalístico traz, nasce da invenção do telégrafo, porque começaram a cobrar por palavra, e os jornais passaram a pedir: “Jornalista, seja objetivo”. A fotografia levou imagens para o impresso. A impressão offset aumentou a velocidade das tiragens. A internet melhorou a distribuição do que a gente faz, e as redes sociais, a interação com nossos leitores. A IA já é uma outra discussão. O que acontece é que, desde a massificação da internet, há esses “disruptores” que chegam com a mentalidade de velho oeste, dizendo que agora tudo é livre. Veja que curioso: eles sempre valorizam o que a gente faz. O jornalismo profissional é peça integral das big techs. Sem jornalismo profissional, elas não têm conteúdo bom para vender.
Como foi trabalhar com o Otavio Frias Filho (diretor de redação da Folha, filho do fundador, Octávio Frias de Oliveira)?
O Otavio foi meu mentor no jornalismo. Ele tinha muito esse caráter professoral, de ver o que você está fazendo por ser imaturo e te ensinar. Quando via alguém e achava que [essa pessoa] poderia se desenvolver no jornal, ele não tinha medo de perder tempo com essa pessoa. Comigo foi assim.
Quanto tempo da sua semana é destinado a administrar crises geradas pela Ombudsman?
A Ombudsman tem que nos desagradar por definição do cargo. Quando digo “nós”, é o comando do jornal. A Alexandra de Moraes é a nossa “Xandona”, ela é implacável. Ela publica duas críticas diárias só para consumo interno e tem uma coluna semanal que sai aos sábados no digital e aos domingos no impresso. É um bom problema, porque muitas vezes ficamos tão encapsulados no nosso universo, de apuração, falar com fontes e colocar as coisas muito rapidamente no ar… A função dela é nos incomodar.
Quantos colunistas tem a Folha?
Nós estamos com 169 colunistas.
O Elio Gaspari disse uma vez que o jornalismo brasileiro tem muitas colunas e poucos pilares. Como você vê isso hoje?
É uma outra redação para se administrar. Tem opiniões que vão de A a Z em todos os assuntos. Tem colunistas conservadores e muitos progressistas, até num desbalanço. A gente tenta que os colunistas sejam um pouco o microcosmo do nosso país e que representem alguma fatia dos nossos leitores. A gente acaba conseguindo com algumas falhas.
E a imprensa brasileira?
Opinião virou commodity. Todo mundo passou a ter a sua opinião. E, de acordo com aquela frase famosa, você pode ter o direito à sua opinião, mas não ao seu fato. Então, o fato passou a ser revalorizado. Tinha caído em desuso, diante da opinião, e voltou a ser muito importante. Todo mundo dizendo o que acha o tempo todo banaliza a opinião.