Eleições 2026: Flávio Bolsonaro desafia tese de favoritismo de Lula, indica pesquisa
Jornalista Pedro Doria detalha rodada mensal da Pesquisa Meio/Ideia, que revela empate técnico no segundo turno e sugere que rejeição ao atual governo pode ser o fiel da balança na sucessão presidencial

A depender da Pesquisa Meio/Ideia, o cenário político para 2026 desenha-se em uma polarização cristalizada, onde o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se consolida como o principal antagonista do presidente Lula. O levantamento é o segundo de 10 monitoramentos mensais sistemáticos a serem publicados no ano. A pesquisa de agora registra que, enquanto Lula mantém um piso sólido de 33% na sondagem espontânea, Flávio saltou para 16,3%, capturando o espólio político do pai.
O diagnóstico aponta para uma eleição de altíssima competitividade: no segundo turno, o petista aparece em empate técnico com nomes da direita como Tarcísio de Freitas e a família Bolsonaro.
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Como antecipa Pedro Doria, cofundador do Canal Meio, em entrevista: “Estamos numa eleição competitiva. Não dá para dizer que tem um favorito claro nessa eleição. Em havendo o segundo turno, qualquer coisa pode acontecer”.
Leia abaixo os principais trechos da entrevista do jornalista ao Matinal ou veja em vídeo ao final do texto.
Qual é a metodologia e também a abrangência da pesquisa? Qual é a ideia e o que podemos esperar?
Pedro Doria: A ideia é fazer dez edições, dez rodadas dessa pesquisa entre agora e outubro. Começou em janeiro, ou seja, estamos falando de uma pesquisa mensal e, no caso de haver segundo turno – que é o mais provável -, faremos também uma para medir o humor das pessoas. É uma pesquisa feita por telefone, como 99% das pesquisas são feitas hoje no mercado americano e no mercado europeu. Nesta edição de fevereiro, entrevistamos 1.500 pessoas; e em janeiro foram 2.000 pessoas. Uma das preocupações que a gente tem é tentar entender que tipo de gente vota em que tipo de candidato. Para isso, pegamos nosso cientista político Christian Lynch, que tem toda uma metodologia, para entender quais são as ideologias políticas brasileiras. Estamos sempre tentando entender que tipo de perfil, que tipo de visão de mundo de Brasil o eleitor tem quando escolhe um ou outro candidato.

Qual a importância da pesquisa espontânea e da análises desses números?
Quando a gente faz essa pergunta, a do “em quem você votaria?”, a seco, o sujeito simplesmente traz o nome que está na cabeça dele. O que a gente vê muito é o piso daquele eleitor que é muito convicto. Então a gente pode de cara dizer que se trata de um terço do eleitorado brasileiro (33%) para o Lula, e dificilmente cairá. Precisa acontecer uma coisa terrível para o Lula perder qualquer um desses votos. Ele chega em outubro com esses votos. Agora, tem um truque por conta das condições da natureza dessa eleição que é o seguinte: a maneira como eu leio essa pesquisa é: somando os Bolsonaros — Michelle, Jair e Flávio —, a média sobe um pouco mais do que os 20% de votos [do “piso” bolsonarista das eleições de 2022]. Isso é o piso da família Bolsonaro. Esse coração bolsonarista no Brasil, que dá mais ou menos um quinto da população, 20%, ele já entendeu, ele está aos poucos entendendo que o Jair Bolsonaro não vai ser candidato e que o candidato da família deve ser o Flávio.
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Na cabeça do eleitor, a gente pode concluir que ele identifica Flávio, Michelle e Tarcísio como uma continuação do que seria o Jair Bolsonaro?
O Tarcísio, na verdade, agrega mais votos. O Tarcísio é um candidato melhor, pelo menos pelo que a gente vê hoje, do que qualquer Bolsonaro. Por quê? Porque ele traz os votos bolsonaristas — o bolsonarista olha para o Tarcísio e o vê como “um de nós”, e não como uma figura à parte. É assim que o eleitor do Bolsonaro olha para o Tarcísio. Agora, tem um eleitor de direita que não quer votar no Bolsonaro e que vota no Tarcísio porque vê o Tarcísio como um não bolsonarista. Essa ambiguidade na imagem do Tarcísio para eleitores diferentes a favorece ele. Quando colocamos a Michelle, o cenário é muito parecido com os cenários do Flávio. Acredito que podemos dizer com algum conforto: o eleitor está votando em alguém com o sobrenome Bolsonaro, não importa quem esse alguém é.
Você acredita que com essa campanha começando mais fortemente, ela tende a ganhar mais musculatura? Ou ainda veremos só Lula X Flávio Bolsonaro?
Temos um eleitorado de 38% de brasileiros que se compreendem e se percebem como de direita, que votam na direita, e dois terços desse eleitorado de direita preferia não votar no Bolsonaro. A questão é: a partir do momento que você coloca um outro nome, como Romeu Zema, Ronaldo Caiado, Ratinho Júnior e Eduardo Leite, será que essas pessoas votam nesse candidato ao invés de votar no Bolsonaro? Isso a ainda não se sabe. E essa conta na cabeça do eleitor aparece de duas formas diferentes: uma forma é “putz, eu gosto mais desse candidato do que eu gosto do fulano Bolsonaro”; e a outra maneira é o cálculo que esse eleitor faz do tipo “em um segundo turno, quem que tem mais chance de vencer o Lula?”, uma vez que a prioridade dele é vencer o Lula”. E o que as pesquisas de segundo turno estão dizendo hoje é que o Flávio Bolsonaro ganha do Lula com mais facilidade do que Ratinho, do que Caiado, do que Zema, do que Eduardo Leite [ganhariam do Lula]. Neste momento não está apresentado a esse eleitor uma razão para ele não votar em Flávio Bolsonaro.
Qual a margem de erro da pesquisa, e o que esses números revelam?
A margem de erro da pesquisa é 2,5%. Ou seja, se você soma 2,5% no candidato Bolsonaro, na Michelle, no Flávio, no Tarcísio, se você subtrai 2,5% do candidato Lula ,você vê que os números ficam iguais ou um ligeiramente acima, no que chamamos de um empate técnico. Tem um truque para pensar pesquisa de segundo turno, ainda mais em fevereiro: ela nos dá algumas pistas de quão competitivo é, mas ela realmente não diz para a gente o que vai acontecer. Porque o eleitor ainda não foi posto na pressão que ele é posto quando há um segundo turno, e ele tem de fato que fazer uma escolha. O que a gente vê de cara: estamos numa eleição competitiva. Não dá para dizer que tem um favorito claro nessa eleição. Eu acredito, nessas horas, que o número mais valioso para entender os cenários de segundo turno são os números de rejeição e, quando tem um presidente da República, os números de aprovação do governo. A rejeição do Lula hoje é de 44%. A rejeição do Flávio Bolsonaro, que é o que tem a segunda maior rejeição, é 34%. São 10 pontos de diferença. Isso é muito ruim para o Lula.
Assista à íntegra da entrevista de Pedro Doria ao Matinal: