Letícia Duarte

De NY, análises sobre o mundo e os EUA

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Análise

Novo conselho de paz de Trump exige ‘cota’ de adesão de US$ 1 bi e pode rivalizar com a ONU

Enquanto governos estão avaliando a entrada no 'Board of Peace', a exemplo do Brasil, o mundo se vê diante um impasse: não querem comprar briga com Trump nem tampouco chancelá-lo

21/01/2026 às 17:58 · Atualizado há 8 meses
Donald Trump anunciou a formação de um ‘Conselho da Paz’, um elemento-chave da segunda fase do plano apoiado pelos Estados Unidos para acabar com a guerra em Gaza. Foto: White House

Inicialmente idealizado por Trump sob a justificativa de gerir o pós-guerra em Gaza, o anunciado Board of Peace (Conselho Internacional de Paz e Reconstrução) pode começa a tomar forma não como uma missão humanitária, e, sim, como uma estrutura de poder paralela desenhada com objetivo de rivalizar com a ONU.

Para começar, o custo é altíssimo. Trump quer que os países paguem US$ 1 bilhão como cota para se tornarem membros permanentes desse grupo. Parece, na prática, muito dinheiro para uma estrutura ainda indefinida, mas o custo político que pesa nessa decisão pode ser ainda maior, porque há muita incerteza em entregar essa carta branca ao americano.

Uma das maiores preocupações é que, de acordo com as pistas vazadas até agora, a vaga de liderança não é nem destinada ao cargo de presidente dos Estados Unidos, mas, sim, à pessoa de Trump. É muito possível que esse órgão se torne uma espécie de clube privado e internacional, chefiado por um líder de perfil extremamente belicoso e instável, como o Trump.

Muitos governos estão avaliando a adesão, a exemplo do Brasil, que está cauteloso antes de tomar qualquer decisão. Outros cogitam participar, mas sem pagar a taxa, como é o caso do Canadá. 

Mas o fato é que o mundo todo se encontra diante de um dilema perverso: ninguém quer comprar uma briga com Trump nem tampouco chancelar seus movimentos e ímpetos imperialistas.

Como bem definiu o correspondente do jornal britânico “Guardian”, Julian Borger, “recusar-se a participar, como a França tentou fazer, significa ser punido com tarifas retaliatórias impostas por um presidente mesquinho. Por outro lado, juntar-se ao conselho implicaria minar a ONU, submeter-se à vontade de Trump e concordar com sua visão de futuro de governança mundial — uma corte imperial onde estados vassalos pagam tributos e competem pela atenção do imperador laranja”.

Ironicamente, em meio a tanta disputa, do que menos se fala é sobre a prerrogativa que inicialmente motivou o conselho: Gaza nem sequer é mencionada no documento.

O estilo de Trump é a demolição, é o ataque frontal às instituições, incluindo a ONU. Ele disse claramente que esse novo órgão poderia substituir as Nações Unidas, sugerindo que a organização “falhou”. 

Está bem claro, portanto, que suas ambições são bem mais elevadas do que prevíamos inicialmente: criar um clube para chancelar suas ações, ignorar tratados internacionais e palpitar em qualquer conflito global, onde ele atue como o chefe que faz a própria vontade.

Assista ao comentário completo de Leticia Duarte no Matinal desta quarta (21):

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