PF avança sobre PL, enquanto Câmara acelera cassações e evita novo embate com STF
Operação da PF e decisões da Mesa Diretora aprofundam o isolamento político do bolsonarismo no Congresso.

A sexta-feira começou movimentada em Brasília com a deflagração da Operação Galho Fraco, da Polícia Federal (PF), que mira o desvio de recursos da Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar.
A ação, autorizada pelo STF (Supremo Tribunal Federal), cumpriu sete mandados de busca e apreensão no Distrito Federal e no Rio de Janeiro e teve como alvos o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), e o deputado Carlos Jordy (PL-RJ).
Segundo as investigações, parlamentares, assessores e terceiros teriam atuado de forma coordenada para desviar verbas públicas e ocultar os valores posteriormente. Durante a operação, a PF apreendeu cerca de R$ 430 mil em dinheiro vivo em um endereço vinculado a Sóstenes Cavalcante, em Brasília, além de recolher aparelhos celulares para perícia.
A apuração é um desdobramento de investigações iniciadas no fim de 2024 e pode envolver crimes como peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Mais do que um episódio isolado, a operação ocorre em um momento sensível para o PL, que já enfrenta dificuldades para reorganizar sua atuação política no Congresso.
O avanço da PF sobre o líder da bancada amplia o desgaste do partido junto ao Judiciário e fragiliza sua capacidade de articulação interna em um fim de ano marcado por derrotas políticas e perda de protagonismo.
Câmara declara perda de mandatos sem passar pelo plenário
Antes, o foco da crise passou pelo campo institucional. Nesta quinta-feira (18), o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), decidiu declarar a perda dos mandatos de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e Alexandre Ramagem (PL-RJ) por ato da Mesa Diretora, sem submeter os casos à votação em plenário.
No caso de Eduardo Bolsonaro, a cassação foi motivada pelo excesso de faltas. O deputado está nos Estados Unidos desde março e não retornou às atividades parlamentares após o fim da licença, acumulando ausências acima do limite constitucional.
A decisão expõe um desgaste que vinha sendo tratado nos bastidores: a ausência prolongada acabou tornando politicamente insustentável a manutenção formal do mandato.
Já Alexandre Ramagem perdeu o cargo em cumprimento a uma decisão do STF, após condenação definitiva por envolvimento na tentativa de golpe de Estado. Ex-diretor da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), Ramagem está nos Estados Unidos desde setembro, e sua situação jurídica deixou pouca margem para manobra por parte da Câmara.
A escolha de Hugo Motta de resolver os dois casos diretamente na Mesa não foi apenas administrativa. Foi também uma resposta política ao trauma recente envolvendo a deputada Carla Zambelli, quando a Câmara tentou barrar uma decisão do Supremo, submeteu o caso ao plenário e acabou desautorizada pela Corte.
Desta vez, o presidente da Casa optou por evitar confronto com o STF, mesmo ao custo de enfrentar críticas internas.
Ao alterar o rito e esvaziar a possibilidade de votação entre os pares, Motta sinaliza que determinadas situações deixaram de ser tratadas como disputa política e passaram a ser encaradas como cumprimento inevitável de regras constitucionais e decisões judiciais.
A mudança de postura revela uma Câmara mais cautelosa e menos disposta a comprar brigas institucionais.
O encadeamento dos fatos ajuda a explicar o clima que se instalou em Brasília: operação da PF, apreensão de dinheiro em espécie, cassações decididas sem plenário e parlamentares vivendo fora do país.
Não se trata apenas de coincidência temporal, mas de um movimento mais amplo de retração do bolsonarismo no Congresso, onde investigações criminais e decisões judiciais começam a produzir efeitos concretos sobre mandatos e lideranças.
Assista à análise de Beatriz Bulla no Matinal desta sexta-feira (19):