Entrevista

‘Foi o momento mais violento da minha carreira’, diz Gabriela Biló sobre 8 de Janeiro

Em meio às discussões sobre uma 'anistia light', a fotojornalista comenta seu novo livro, 'Juízo final', projeto que documenta a tentativa de golpe

17/04/2026 às 16:54 · Atualizado há 4 meses
Atos golpistas do 8 de Janeiro. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A possível derrubada, pelo Congresso, do veto do presidente Lula ao projeto de lei que altera as regras de cálculo de pena para condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023, o chamado PL da Dosimetria, recoloca no centro do debate político a discussão sobre punição e responsabilização dos envolvidos na tentativa de golpe. A análise do veto está prevista para o fim de abril, em sessão conjunta de deputados e senadores.

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Apelidada de “anistia light”, a proposta surge como alternativa à anistia ampla defendida por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro, que não encontrou apoio suficiente no Legislativo. Ao modificar critérios técnicos da dosimetria penal, o texto abre caminho para a redução de penas, com potencial de beneficiar não apenas participantes dos ataques, mas também figuras centrais do processo investigado, entre eles Bolsonaro.

Embora o veto de Lula fosse esperado e alinhado ao discurso do governo desde o início das investigações, há, no Congresso, ambiente político para sua derrubada.

No plano eleitoral, o tema da anistia tende a permanecer relevante. A eventual flexibilização das penas pode reconfigurar o discurso da direita, ao mesmo tempo em que oferece ao governo e a seus aliados um novo elemento para tensionar o debate público sobre democracia, responsabilização e o papel do Congresso.

Para discutir o tema, o Matinal conversou com a fotojornalista Gabriela Biló, que lança neste mês o livro “Juízo final”, projeto que reúne imagens, documentos e bastidores dos ataques de 8 de janeiro e do processo que levou às investigações. Segundo ela, o livro pode ser encarado como um documento de consulta, para reativar a memória dos ataques à democracia no passado recente.

“Principalmente num ano de eleição, em que as coisas vão sendo relativizadas, a tentativa de golpe vai ser relativizada, a gente achou importante ter um livro assim.”

Biló também lembrou de momentos tensos pós-cobertura dos ataques em Brasília, quando suas fotos da Débora do Batom contribuíram para a identificação da mulher que vandalizou a estátua em frente ao STF.

Episódio que Biló faz questão de dizer que não colaborou com a polícia: “Eu jamais forneceria material meu para a polícia a não ser com mandado ou um crime hediondo. Por uma questão ética, eu não contribuo voluntariamente”.

Ela continua: “Mas aconteceu essa fake news e virou um processo de ataque, dizendo que eu entreguei, que acabei com a família. Isso gerou ameaças de morte e ataques de misoginia muito intensos, a ponto de eu ter que me afastar um pouco da cobertura por segurança. Foi o momento mais crítico e violento da minha carreira”.

A fotojornalista também comentou sua famosa foto do Lula com vidro estilhaçado e a técnica da dupla exposição, além de explicar o seu entendimento do trabalho de um fotojornalista: “Num país com um número grande de analfabetos funcionais, muitas vezes a pessoa não lê uma manchete, mas ela vai ‘ler’ uma imagem, aí a imagem acaba sendo um jeito democrático de informar.

Leia abaixo os principais trechos da conversa ou assista ao Matinal na íntegra em vídeo.

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Qual foi a motivação para você decidir fazer esse segundo livro, o “Juízo final”, considerando também a importância de registrar o que foi o 8 de janeiro?

[No meu primeiro livro] que é “A verdade vos libertará”, tem um arco político de 2013 a 2023 que é das jornadas de junho até a tentativa de golpe de 8 de janeiro. O “roteirista” foi bom, porque ele fez 10 anos e deixou bonitinho, um número bem redondo. E ele é um livro de imagens, um livrão grande, ganhou o Jabuti, mais interpretativo, mais conceitual, baseado em fotos. O “Juízo final” é uma outra proposta, ele é um livro pequeno, com texto meu, editado pelo Fernando de Barros e Silva, com prefácio do Marcelo Rubens Paiva, e muito baseado em dados, no parecer da PGR, no voto do ministro Alexandre de Moraes e nos relatórios da Polícia Federal.

Ele tem prints de conversa, agenda do Heleno, muitas evidências e provas. A ideia foi que eu acompanhei de perto o julgamento e o governo Bolsonaro, e quando as pessoas perguntam quais são as provas, é difícil mapear explicando, porque é um conjunto de coisas. Mesmo acompanhando de perto, se eu perdesse um pedaço de informação, já perdia o fio da meada, era difícil entender como tudo se encaixava, porque tem tantas versões da minuta golpista. Eu ficava buscando nas notícias, nos relatórios, tentando entender quem era cada personagem, onde cada coisa se encaixa, e percebi que eu mesma tinha dificuldade de fazer essa amarração. Então pensei em fazer um livro organizando isso, mostrando o que eu aprendi e entendi.

Ele é um livrinho pequeno, diferente do “A verdade vos libertará”, que é mais caro e de fotografia. Esse é para ser acessível, dentro do mercado editorial, é um livro barato, para ter capilaridade, para as pessoas conseguirem comprar e carregar. É um livro que cabe na minha pochete, você consegue consultar, mostrar. Principalmente num ano de eleição, em que as coisas vão sendo relativizadas, a tentativa de golpe vai ser relativizada, a gente achou importante ter um livro assim.

O tema é a tentativa de golpe e o julgamento. Ele começa no 9 de janeiro, quando começam os processos investigativos. O dia 8 é muito precioso, porque sem ele poderia parecer narrativa, mas a partir do dia 9 aparecem evidências e provas. A tentativa de golpe não foi o 8 de janeiro, foi o último fio. Ela começa no primeiro ano do governo Jair Bolsonaro, com os discursos contra a urna eletrônica e o TSE. Quando a gente fala de dosimetria ou anistia, não está falando só do 8 de janeiro, mas de um processo anterior. Os cabeças, os mandantes, são condenados por ações que começaram anos antes, o 8 de janeiro foi só o último suspiro.

Você tem um estilo muito marcante de fotografia, com escolhas de enquadramento e narrativa. Como você pensa essas escolhas e como usou isso na cobertura do 8 de janeiro e do pós-8 de janeiro?

Eu sempre gosto de falar que não existe fotografia isenta, você não tem como se isentar do seu próprio olhar. Quando você escolhe o ângulo, o frame, a lente, você está escolhendo uma história que você quer contar. Para mim, jornalismo tem lado, não existe jornalismo isento. Então o meu olhar é sempre voltado para isso, o interesse social e a democracia. Também penso que, num país com um número grande de analfabetos funcionais, muitas vezes a pessoa não lê uma manchete, mas ela vai “ler” uma imagem, aí a imagem acaba sendo um jeito democrático de informar.

No mundo de inteligência artificial e fake news, a imagem e o fotojornalista se tornam essenciais para contar essa história. Quando vejo uma imagem, eu sempre vou ver quem assinou, de que fotojornalista é aquela imagem, porque isso dá credibilidade. A gente vive um momento de ouro do fotojornalismo, de contar histórias com imagens para pessoas que não veem dez segundos de vídeo num feed. Como comunicador, eu tento passar o máximo de informação da forma mais rápida possível.

Então, acho que tem um pouco disso nas minhas fotos, de tentar ir para além do registro factual.

Matinal

Sobre aquela foto do Lula no pós-8 de janeiro, em que você usa uma técnica específica com o vidro quebrado do Palácio do Planalto, você pode explicar a técnica e os bastidores por trás dessa imagem?

Bom, essa foto foi feita logo depois do 8 de janeiro, realmente. Essa é uma vidraça que estava quebrada do lado do Lula, e o Lula continuou realizando as cerimônias de posse, porque, como era começo de governo, as posses vão acontecendo. Era janeiro em Brasília, tipicamente muito quente, mas aquele janeiro fazia frio dentro do Palácio do Planalto, porque, com os vidros quebrados fazia corredor de vento. O Palácio estava em pedaços, e o Lula dando as posses, e eu, como jornalista, não posso ignorar uma coisa dessas, é um momento histórico, um presidente dando posse com tudo aos pedaços em volta.

Com o presidente Lula usei uma técnica que é muito comum, a múltipla exposição. Muita gente chamou de montagem, mas isso não é montagem, ela tem um arquivo único, é feita na câmera, como se eu não girasse o filme e fizesse dois frames juntos. É uma foto difícil de fazer, você tem que ficar encaixando os elementos, não é simples. É como se você colocasse uma foto em cima da outra, tipo colando, mas isso não existe no fotojornalismo, você não pode fazer isso. Quando você chama uma múltipla exposição de montagem, você está plantando uma mentira, está descredibilizando a foto, é uma escolha de narrativa. É uma técnica comum no fotojornalismo, e a única regra é escrever na legenda que é múltipla exposição, e isso estava na legenda.

Para mim, o Lula não é o Lula nessa foto, ele representa a democracia. Ele está ajeitando a gravata e dando um sorriso, então mostra que a democracia está abalada, craquelada, frágil, mas resiliente. Quando a gente vê como foi perto, essa foto faz muito sentido. É uma foto que retrata a fragilidade da democracia, e às vezes escancarar isso causa reação forte, mas é uma foto que representa bem aquele momento. 

A foto da Débora do Batom acabou ajudando na identificação dela e virou parte do debate sobre anistia e redução de penas. Queria te ouvir sobre essa imagem e o que aconteceu a partir dela.

Essa foto, na verdade, ela é uma sequência. Eu chego na esplanada e o que me chama atenção é essa pessoa em cima da cabeça da estátua. Eu não vi a Débora de primeira, eu primeiro vi a pessoa em cima da estátua. E aí eu me aproximo para tentar fazer essa cena com o STF no fundo e começo a dar volta e faço a sequência dela inteira pichando a estátua. Essa foto é só mais uma das fotos que eu fiz e acabei flagrando depois que fui olhar, tanto que na primeira edição do 8 de janeiro a gente não publica essa foto porque eu não tinha reparado que eu tinha. Fui olhar que eu tinha foto dela depois, porque é muita coisa acontecendo. Até então, para entender o que vai ser relevante, o que vai ser puxado como destaque, o que é mais grave, depende muito do que aconteceu. Como eu era um agente só andando ali, eu não tenho noção do que está acontecendo nas outras coisas. Então precisava um pouco desse distanciamento para entender o que eu tinha e o que era relevante.

Aí a gente decidiu fazer uma matéria sobre isso, e uma pessoa entrou em contato anonimamente dizendo quem ela era. A gente conseguiu contato com ela e ela respondeu “eu pichei a estátua” e desligou. A gente fez a matéria dizendo que tinha conseguido contato, mas não falou nome, não falou cidade, absolutamente nada. Depois isso voltou como se eu tivesse entregado ela e ajudado na investigação, como se eu tivesse entregado para a Polícia Federal.

A Polícia Federal tem muitas formas de investigar, não precisa de mim. Eu jamais forneceria material meu para a polícia a não ser com mandado ou um crime hediondo, por uma questão ética, eu não contribuo voluntariamente. Mas aconteceu essa fake news e virou um processo de ataque, dizendo que eu entreguei, que acabei com a família. Isso gerou ameaças de morte e ataques de misoginia muito intensos, a ponto de eu ter que me afastar um pouco da cobertura por segurança. Foi o momento mais crítico e violento da minha carreira.

Assista abaixo à entrevista completa no Matinal:

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