‘Antes, as pessoas decoravam a escalação da Seleção, hoje o cidadão sabe a do STF’
Para o cientista político Creomar de Souza, o caso do Banco Master, somado a uma mudança na percepção do Supremo por parte da sociedade, que agora enxerga a Corte como uma 'casa política', pode ser um risco para indicação de Messias

A saída do ministro Dias Toffoli da relatoria do caso envolvendo o Banco Master, anunciada na última quinta-feira (12), coroa um processo recente de aumento no nível de exposição institucional do Supremo Tribunal Federal (STF). Para o cientista político Creomar de Souza, professor da Fundação Dom Cabral e CEO da Dharma Political Risk, há alguns anos que a mais alta Corte do Brasil é vista pela sociedade como uma “casa política”, parte implicada na maioria dos processos políticos no país.
O resultado, segundo ele, pode ser observado em uma mudança trivial na prosa do cidadão.
“Quando a gente olha para o Brasil da década de 2020, há um fenômeno muito interessante. Eu tenho 49 anos e, quando era adolescente, a gente tinha decorado na cabeça a escalação da Seleção Brasileira ou a do time de futebol de que gostava”, explica o pesquisador, que continua: “Você ia conversar com um taxista, um açougueiro, um motorista de ônibus, sobre essas escalações, se prefere o Romário ou o Ronaldo, se o Edmundo tinha vaga ou não. Já em 2026, o cidadão tem na memória a escalação do STF.”
Mas essa alteração na memória coletiva não é motivada por razões boas, e, sim, por motivos complexos, como os constantes ataques por parte do Executivo durante o governo Bolsonaro e, agora, o escândalo do Banco Master.
“Isso alimenta uma perspectiva de que os desenhos institucionais são caros, ineficazes e dissociados das necessidades reais das pessoas”, explica.

Banco Master: Trajetória da instituição foi de ‘fora da curva’ a graves suspeitas de fraudes
Em meio a esse caldo de exposição e crise institucional na Corte, Souza acredita que o contexto pode prejudicar a indicação do atual Advogado-Geral da União, Jorge Messias, à vaga deixada pelo ministro Luís Roberto Barroso, recentemente aposentado. Messias foi indicado pelo presidente Lula, e ainda precisa ser sabatinado pelo Senado, seguindo o rito.
Análise: Como a ‘caixa-preta’ do Banco Master pode influenciar a indicação de Jorge Messias ao STF
Em entrevista ao Matinal, Creomar de Souza comentou essas e outras perspectivas sobre a crise institucional no Supremo. Veja os principais tópicos:
STF sob intensa exposição e escrutínio
“O STF passou a ser visto como uma casa política, um par do processo, e não apenas o guardião da Constituição. Paralelamente, as instituições de controle moldadas a partir de 1988 tornaram-se burocracias muito fortes. Creio que, desde o momento em que o ministro Dias Toffoli determinou a acareação entre o diretor do Banco Central e Vorcaro, ele desferiu um ataque a um organismo de controle que acabou atingindo dois. Ao pressionar o Banco Central — onde o diretor de fiscalização, Ailton Aquino, apenas cumpria seu dever —, o ministro também atingiu a Polícia Federal, responsável pelas investigações. A delegada da PF foi submetida ao constrangimento de realizar uma acareação entre um fraudador e o regulador. Houve, inclusive, um imbróglio relativo às perguntas formuladas por Toffoli. Nos bastidores, os delegados da Polícia Federal recusaram-se a reproduzi-las, o que resultou em um depoimento marcado pelo mal-estar institucional. Ali, observou-se um “movimento de pinça”, com o TCU também tentando interferir nas investigações. Em nenhum momento tratou-se apenas de um embate isolado entre Toffoli e a Polícia Federal ou o Banco Central. Na verdade, nós assistimos a uma ofensiva do STF contra essas instituições. É fundamental lembrar que, pelo desenho constitucional, cada ministro personifica o próprio STF, não havendo uma hierarquia sobre suas decisões individuais.
A simbologia da saída de Toffoli da relatoria e os relatos de bastidores colhidos com assessores revelam que os ministros estavam profundamente descontentes com a Polícia Federal, sob o argumento de que a instituição estaria investigando o próprio STF. Isso nos remete ao dilema da filosofia latina: “Quem guarda o guarda?”
A ‘escalação’ dos ministros na boca do povo + riscos à indicação de Messias ao STF
“Quando a gente olha para o Brasil da década de 2020, há um fenômeno muito interessante. Eu tenho 49 anos e, quando era adolescente, a gente tinha decorado na cabeça a escalação da Seleção Brasileira ou a do time de futebol de que gostava. Você ia conversar com um taxista, um açougueiro, um motorista de ônibus, sobre essas escalações, se prefere o Romário ou o Ronaldo, se o Edmundo tinha vaga ou não. Já em 2026, o cidadão tem na memória a escalação do STF. Essa alteração na memória coletiva traz um elemento muito importante: os nomes não estão na mente das pessoas por razões boas, mas por motivos complexos. Isso alimenta uma perspectiva — que é inclusive estrutura de campanha eleitoral aqui e em vários lugares — de que os desenhos institucionais são caros, ineficazes e dissociados das necessidades reais das pessoas. Esse me parece ser o dilema que, nesta camada, pode representar um risco para o Jorge Messias. Caso a situação se agrave ou haja um processo de questionamento, somado ao calendário eleitoral em que dois terços do Senado serão renovados, gera-se um caldo de cultura que, neste exato momento, parece estar em fervura.”

Riscos do escândalo do Master para a democracia
“Eu faço análise de risco, e o risco que a democracia brasileira tem, de fato, ao não entender que, ao limitar ou sabotar os elementos de controle, é de efetivamente alimentar discursos que querem explodir a democracia. Não estamos falando de democracia na ideia de golpe, de tanque na rua, mas, sim, um processo de destruição das regulações, semelhante ao que está acontecendo, por exemplo, nos Estados Unidos, quando você olha Trump e os reguladores: regulador de saúde, regulador financeiro, tudo vai mudando. Percebe-se que tanto o mundo político quanto o mundo institucional do STF não se deram conta do risco que estão comprando para si, pois ficou muito cômoda a ideia de que: “Olha, nós salvamos a democracia, então a sociedade nos deve algo”. E, na verdade, em termos teóricos, a sociedade não deve nada a quem está ocupando espaços institucionais. São as pessoas nos espaços institucionais que devem à sociedade o fato de que receberam o poder dela. Mas essa é uma discussão que talvez pareça ingênua quando a gente está falando de Brasil e de mundo em 2026.”
Assista abaixo à entrevista completa no Matinal: