Letícia Duarte

De NY, análises sobre o mundo e os EUA

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Análise

Fim da guerra no Irã? Trump sinaliza retirada em meio a desgaste econômico e político

Vaivém de declarações da Casa Branca e mensagens contraditórias sobre os objetivos e as condições para o encerramento do conflito aumentam clima de incertezas

01/04/2026 às 15:41 · Atualizado há 5 meses
Presidente americano Donald Trump. Crédito: JIM WATSON / AFP

Embora credibilidade e coerência não sejam o forte de Trump, nos últimos dias, o presidente americano vem sinalizando que os Estados Unidos querem encerrar as operações militares contra o Irã — mesmo que as metas estabelecidas no início do conflito não tenham sido atingidas. Em uma guinada significativa, Trump chegou a afirmar que um acordo formal com Teerã nem sequer seria necessário para o fim da guerra, abrindo a possibilidade de uma retirada unilateral americana.

A Casa Branca anunciou um pronunciamento do presidente para a noite desta quarta-feira. A porta-voz do governo, Karoline Leavitt, disse que Trump vai comunicar à nação uma atualização importante sobre o Irã. Pode ser que isso indique um acordo para o fim da guerra, mas, desde o início do conflito, temos visto como essa comunicação tem sido marcada por mensagens contraditórias da Casa Branca sobre os objetivos e as condições para o encerramento do conflito.

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No entanto, a mudança de tom é marcante. Há pouco tempo, Trump falava em rendição incondicional do Irã e ameaçava intensificar o conflito caso o país não aceitasse um conjunto de exigências rigorosas — entre elas, o fim do enriquecimento de urânio.

O que explica a guinada de Trump?

Dois fatores combinados. O primeiro é econômico: desde o início da guerra, o preço dos combustíveis nos Estados Unidos disparou cerca de 35%, saindo de menos de US$ 3 por galão de petróleo para mais de US$ 4, o nível mais alto desde o início da guerra da Rússia contra a Ucrânia, em 2022.

A segunda motivação é política: as eleições de meio de mandato se aproximam, e cada semana de conflito amplia o custo eleitoral. A popularidade de Trump atingiu o piso histórico de seu segundo mandato — apenas 36% aprovam sua gestão, contra 57% que a reprovam, uma taxa 8 pontos percentuais abaixo do registrado no mesmo período do primeiro governo. Dois terços dos americanos defendem uma saída rápida do conflito, mesmo que isso signifique abandonar os objetivos anunciados pela própria administração. Apenas 28% apoiam a guerra; enquanto 59% se opõem a ela.

Congresso entra em cena

Esse cenário de pressão coincide com um marco legal relevante. O dia 29 de abril marca 60 dias desde o início da ofensiva contra o Irã — prazo a partir do qual aumenta a obrigação do governo de explicar a operação ao Congresso, justificar os próximos passos e, se a guerra continuar, buscar uma autorização formal para sua continuidade.

Os republicanos evitaram esse debate enquanto puderam. Mas agora ficou mais difícil adiá-lo. O movimento que fizeram, porém, é revelador de como operam: em vez de convocar uma audiência específica sobre a guerra — o que significaria um confronto mais direto com a Casa Branca —, aproveitaram a sessão anual do Congresso para discutir o orçamento do Pentágono, algo rotineiro e já previsto no calendário. O conflito não criou o espaço, apenas o ocupou.

Na prática, esse espaço institucional da audiêcnia deve se transformar no primeiro grande momento de cobrança pública sobre a guerra. Nem o próprio Congresso consegue acessar com clareza os custos reais do conflito — o que torna a sessão um momento tanto de pressão quanto de transparência forçada.

Desfecho não depende inteiramente de Trump

Trump quer encerrar a guerra. Mas o Irã vai aceitar? Essa é a questão que nenhuma sinalização da Casa Branca ainda conseguiu responder.

s bombardeios americanos causaram baixas significativas na cadeia de comando iraniana, fragmentando o poder de decisão do país. Essa fragmentação, paradoxalmente, complica as negociações: quem tem autoridade para garantir que uma posição representa o governo inteiro — e que ela será cumprida? A resposta não está clara. Nesse ponto, o desfecho já não depende apenas da vontade de Trump.

Assista à íntegra do comentário de Letícia Duarte ao Matinal desta quarta (1/4):

Os artigos publicados pelo Amado Mundo não refletem necessariamente a opinião do site. O objetivo ao publicá-los é estimular o necessário debate em qualquer democracia.
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