Talita Fernandes

De Jerusalém, análises sobre política, mundo e Oriente Médio

De Jerusalém, análises sobre política, mundo e Oriente Médio

Banner imagem do autor Banner mobile imagem do autor
Análise

Bolsonaro que se dizia ‘imbrochável’ não cola mais

Estratégia da perseguição como única saída política mascara ausência de um projeto concreto para o país

26/03/2026 às 13:02 · Atualizado há 5 meses
Senador Flávio Bolsonaro faz vigília pelo pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que foi preso, em imagem de 22 de novembro de 2025. (Foto de Sérgio Lima / AFP)

Quando você não tem um pacote para oferecer politicamente, ser a vítima da história é a estratégia mais conveniente — e é nesse papel que o bolsonarismo vem se agarrando. Aquele Jair Bolsonaro que se dizia “imbrochável“, símbolo da virilidade, da masculinidade e da força, que criou-se como um deputado exótico, fora do mainstream da política, e que tentava se vender como o bully, o cara que era vítima, mas que também que tirava sarro de todo mundo, e, por fim, o cara que não tinha um histórico que comprometesse sua lisura política. Aquele Bolsonaro não cola mais.

Leia mais: Prisão domiciliar de Bolsonaro ocorre em meio a pressão no STF e novo contexto na política

Para além daquela imagem, o discurso no qual ele se sustentava — o de ser apenas anti-PT — também não cola mais. Por mais que exista uma resistência ao PT e uma desaprovação ao Lula — e que parte desse eleitorado vote no Bolsonaro —, há também um legado, uma espécie de passivo do bolsonarismo.

Se o Bolsonaro se defender como forte hoje, portanto, ele perde essa narrativa de dizer que são vítimas e que é Alexandre de Moraes quem está dando um golpe no país, pois se escoram na narrativa da ilegalidade no que determinam Moraes e o Supremo Tribunal Federal (STF).

Isso evidencia essa transição — que não parece muito óbvia — de um homem que se dizia com histórico de atleta, que não tinha medo de pegar Covid-19, para um paciente de saúde debilitada, que se encontra internado há mais de dez dias com broncopneumonia e que precisa ir para casa se recuperar.

Tudo isso mostra que, na verdade, não existe um projeto político. O projeto político é dizer “eu sou contra o que está aí” ou “eu sou vítima do que está aí”.

Sobram perguntas: o que o bolsonarismo pretende trazer hoje para o Brasil? Qual a proposta concreta que Flávio Bolsonaro vai defender? Serão as pautas de moral e de costume? A população parece estar interessada em outras coisas. Ou vão bater na tecla da luta contra a corrupção? Essa pauta de 2018 também não dá mais.

Uma adaptação ao papel de vítima é onde o bolsonarismo consegue existir hoje, portanto. Se isso vai surtir efeito na campanha de Flávio Bolsonaro, ainda não se sabe.

Assista ao comentário de Talita Fernandes no Matinal desta quarta (25):

Os artigos publicados pelo Amado Mundo não refletem necessariamente a opinião do site. O objetivo ao publicá-los é estimular o necessário debate em qualquer democracia.
PLAYLISTS
PUBLICIDADE
Publicidade