Bolsonaro que se dizia ‘imbrochável’ não cola mais
Estratégia da perseguição como única saída política mascara ausência de um projeto concreto para o país

Quando você não tem um pacote para oferecer politicamente, ser a vítima da história é a estratégia mais conveniente — e é nesse papel que o bolsonarismo vem se agarrando. Aquele Jair Bolsonaro que se dizia “imbrochável“, símbolo da virilidade, da masculinidade e da força, que criou-se como um deputado exótico, fora do mainstream da política, e que tentava se vender como o bully, o cara que era vítima, mas que também que tirava sarro de todo mundo, e, por fim, o cara que não tinha um histórico que comprometesse sua lisura política. Aquele Bolsonaro não cola mais.
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Para além daquela imagem, o discurso no qual ele se sustentava — o de ser apenas anti-PT — também não cola mais. Por mais que exista uma resistência ao PT e uma desaprovação ao Lula — e que parte desse eleitorado vote no Bolsonaro —, há também um legado, uma espécie de passivo do bolsonarismo.
Se o Bolsonaro se defender como forte hoje, portanto, ele perde essa narrativa de dizer que são vítimas e que é Alexandre de Moraes quem está dando um golpe no país, pois se escoram na narrativa da ilegalidade no que determinam Moraes e o Supremo Tribunal Federal (STF).
Isso evidencia essa transição — que não parece muito óbvia — de um homem que se dizia com histórico de atleta, que não tinha medo de pegar Covid-19, para um paciente de saúde debilitada, que se encontra internado há mais de dez dias com broncopneumonia e que precisa ir para casa se recuperar.
Tudo isso mostra que, na verdade, não existe um projeto político. O projeto político é dizer “eu sou contra o que está aí” ou “eu sou vítima do que está aí”.
Sobram perguntas: o que o bolsonarismo pretende trazer hoje para o Brasil? Qual a proposta concreta que Flávio Bolsonaro vai defender? Serão as pautas de moral e de costume? A população parece estar interessada em outras coisas. Ou vão bater na tecla da luta contra a corrupção? Essa pauta de 2018 também não dá mais.
Uma adaptação ao papel de vítima é onde o bolsonarismo consegue existir hoje, portanto. Se isso vai surtir efeito na campanha de Flávio Bolsonaro, ainda não se sabe.
Assista ao comentário de Talita Fernandes no Matinal desta quarta (25):