Entrevista

Estética tosca de filme sobre Bolsonaro é estratégia para fugir de linguagem ‘esquerdista’

Em entrevista no Matinal, o jornalista e diretor André Fran analisa a simbologia da cinebiografia 'Dark horse'

Publicado em 02/01/2026 às 06:00
Jair Bolsonaro será interpretado pelo ator norte-americano Jim Caviezel – Foto: Reprodução

Peruca mal ajustada, enquadramentos ruins, erros de grafia e uma releitura dramatizada da facada sofrida por Jair Bolsonaro em 2018 compõem algumas das primeiras imagens de “Dark horse” (em tradução livre, “O Azarão”), cinebiografia do ex-presidente, que circularam nas redes sociais nas últimas semanas. O teaser, repercutido por aliados e apoiadores do ex-presidente, chamou a atenção não apenas pelo conteúdo, mas pelo visual precário que marca a produção.

Em entrevista ao Matinal, o jornalista e diretor André Fran afirmou que a aparência “propositalmente tosca” do filme não é coincidência, mas uma escolha estética e simbólica ligada à estratégia de comunicação da extrema-direita.

“É uma negação do apuro, do padrão de qualidade, do que eles consideram ‘mainstream’”, explicou, ao avaliar que visual e linguagem não são resultados de limitações técnicas, mas de uma oposição deliberada aos padrões de qualidade consagrados do audiovisual.

Escrito e produzido pelo deputado federal Mário Frias (PL-SP), ex-secretário de Cultura do governo Bolsonaro, o filme é rodado em inglês e tem no elenco o ator norte-americano Jim Caviezel, conhecido por “A paixão de Cristo” (2004), no papel do ex-presidente.

Frias também aparece em cena interpretando um médico. Dirigido por Cyrus Nowrasteh, “Dark horse” é descrito por seus idealizadores como uma produção de baixo orçamento para os padrões de Hollywood, mas com ambição de circulação internacional, especialmente junto a públicos conservadores.

Leia os principais trechos da entrevista com André Fran e, ao final do texto, assista à íntegra em vídeo.

O que podemos esperar de ‘O Azarão’ nas telas?
A gente pode esperar o que já se esperaria de uma produção audiovisual focada no público da extrema-direita, que adora fatos alternativos, fake news e uma forma criativa de contar a biografia. Essas produções começaram a ganhar corpo lá nos Estados Unidos e acabaram se espalhando pelo Brasil, uma galera que não é tão conhecida pelo apuro cinematográfico, mas que faz vídeos com um viés de extrema-direita. Acabam conseguindo, com subsídios de ingresso e promoções para a turma mais militante, uma certa audiência. Se não são sucessos de bilheteria, são de audiência, de certa forma. Como qualquer produção dessa galera, vai gerar muito corte.

O objetivo nem é tanto ganhar o Oscar ou aparecer em festivais. Pelo contrário. A linguagem dessas produções é uma negação da estética do que eles consideram “mainstream”. O que é “oscarizável”, aparece nas TVs e nas telas do cinema é “coisa de esquerdista”, eles não querem ter essa estética. Tem esse lado do conteúdo ser uma biografia meio fantasiada. A questão estética vem lá de trás, do movimento “Vaporwave“, que começou como uma coisa meio tosca e virou uma linguagem de reação ao apuro estético e técnico.

Tem polêmicas dos bastidores da produção também. Uma matéria do Intercept Brasil, com apuração e investigação bem detalhada, mostrou que a Karine Gama, dona da produtora brasileira responsável pelo filme (Go Up Entertainment), possui algumas ONGs e conseguiu mais de R$ 100 milhões da administração do prefeito Ricardo Nunes, em São Paulo, para instalar pontos de Wi-Fi em comunidades. Nunca tinha trabalhado com Wi-Fi, não tinha concorrência na licitação, mas ela recebeu a grana e não instalou a totalidade dos pontos, segundo a apuração. 

Quem é o protagonista?
O Jim Caviezel é de fato um ator hollywoodiano. O cara já atuou em “A paixão de Cristo”, do Mel Gibson, e em “Além da linha vermelha”, do Terrence Malick, um dos meus diretores americanos favoritos, com um papel de protagonismo no filme, um baita ator. Mas isso já tem mais de 20 anos. Ao longo da carreira, no lado pessoal, ele foi caindo para esse lado da “alt-right”, uma extrema direita conspiracionista. Ele é negacionista de várias questões complexas, acreditava muito na teoria “QAnon”, e talvez por isso acabou se tornando o ator queridinho dessas produções. 

O pessoal talvez lembre dele em “O som da liberdade”, filme independente que começou a fazer barulho, apareceu no cinema e saiu em várias matérias. Depois descobriram que era uma dessas produções da extrema-direita americana que acabaram ganhando muito subsídio de ingresso. No Brasil, teve distribuição de ingresso em igrejas evangélicas e entre essa turma mais militante de extrema-direita. É uma das peças de propaganda da “alt-right” americana. 

André Fran em entrevista ao Matinal – Foto: Amado Mundo

Circulou na internet a história de que Trump estaria apoiando o filme, mas não tem confirmação nenhuma...
A única coisa que tem no IMDB – site confiável sobre o que tem de produções audiovisuais no mundo – quando se procura pelo “Dark horse” é que é “sponsored” por Donald Trump. Só que a palavra “sponsored” pode ter uma série de interpretações: pode ser patrocinado, ou seja, será que Trump botou grana ou serviu como produtor executivo e juntou grana pra ajudar em um filme, ou usou sua influência para apoiar um filme? Mas o “sponsor” pode ser também, nos Estados Unidos, uma coisa mais ideológica, um cara que chancelou o filme, que deu ok, que gostou; talvez nem tenha acontecido. É uma coisa bem ampla, mas, ao mesmo tempo, colocar o Trump ali no bolo dá peso para a produção.

Existem umas conexões e uns conflitos de interesses na história desse filme que são o bolsonarismo ‘na veia’: o Instituto Conhecer Brasil, da dona da produtora do filme, além do contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo, do Ricardo Nunes, que foi apoiado pelo Bolsonaro na eleição de 2024, o próprio Mário Frias direcionou emendas, em um total de R$ 2 milhões para a produtora…
Pois é, a Karine Gama, que é uma das sócias da Go Up Entertainment, responsável pelas filmagens e pelo Instituto Conhecer Brasil, assina o filme como produtora executiva. É um pouco diferente das produções lá de fora. O produtor executivo junta as pontas, consegue patrocínios, apoios e incentivos que vão financiar o filme. Ela está assinando como essa figura. A pessoa que tem essa capacidade de levantar fundos e agora está à frente de uma produção que vai contar essa biografia do Bolsonaro.

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