O agente ‘político’: como Wagner Moura virou uma das mais engajadas vozes nas premiações
Para jornalista e crítica de cinema Isabella Faria, a coragem de falar de temas espinhosos, como o governo Trump e o caso Epstein, tem conferido destaque ao ator, aumentando as chances do Brasil no Oscar

Faltando um mês para a cerimônia do Oscar 2026, marcada para 15 de março, o cinema brasileiro vive um estado de efervescência. No centro desse furacão está ”O agente secreto”, de Kleber Mendonça Filho, que não apenas conquistou a crítica internacional — a exemplo do editor da revista americana “New Yorker”, David Remnick, que classificou o filme como a melhor realização artística do ano passado —, mas também vem consolidando Wagner Moura como uma das vozes políticas mais potentes do circuito de premiações.
Diferente da postura contida de muitos astros de Hollywood, que temem retaliações de estúdios ou do próprio governo Trump, o ator baiano tem aproveitado sua exposição em veículos como a CNN Internacional e o jornal “The Guardian” para atuar como um verdadeiro “agente político”. Ele tem sido vocal ao criticar o sistema americano e ao trazer à tona temas espinhosos, como o desejo do país de deixar para trás os “arquivos Epstein”.
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A coragem de falar o que muitos americanos hesitam em dizer conferiu a ele um papel de destaque na campanha, elevando o filme brasileiro ao patamar de favorito, no páreo junto com as grandes produções mundiais. Para analisar esse fenômeno, o Matinal recebeu a jornalista e crítica de cinema Isabella Faria.
Segundo ela, a mídia internacional tem visto com bons olhos a atuação de Moura em entrevistas, e vê as expectativas aumentarem com as recentes indicações de prêmios no BAFTA, o ”Oscar inglês”.
Como você avalia as nossas chances reais de vitória nas quatro categorias em que disputamos?
A estratégia de divulgação está impecável e forte, com o Wagner e o Kleber em veículos de peso como a CNN Internacional e o “Guardian”. No Oscar, “quem não é visto não é lembrado”, e eles estão garantindo essa presença constante junto aos votantes da Academia. Acredito que nossa maior chance de vitória seja em Melhor Filme Internacional. Embora o concorrente “Valor sentimental” tenha nove indicações, ele não tem apresentado uma divulgação tão intensa quanto a do “O agente secreto”. Em Melhor Ator, vejo o Wagner em segundo lugar, porque Timothée Chalamet (de “Marty Supreme”) vem muito forte, não só pela atuação, mas por uma propaganda massiça que inclui talk shows e até dirigíveis pelos céus americanos. Também somos fortes em Melhor Elenco, embora me surpreenderia se a Academia premiasse um filme de língua estrangeira com um elenco totalmente brasileiro em relação aos americanos. Já na categoria de Melhor Filme, a tendência é que “Uma batalha após a outra” acabe varrendo a premiação.
Temos visto o Wagner Moura em muitos eventos e entrevistas internacionais. Qual a sua leitura sobre o papel dele como porta-voz e “rosto” do filme nessa campanha?
O Wagner Moura é o rosto do filme e, ao mesmo tempo, está indicado na categoria de Melhor Ator. Ele acaba promovendo duas categorias ao mesmo tempo – quatro categorias, se juntarmos toda. Ele está muito confortável nessa posição de agente político, literalmente “o” agente. Percebemos nas entrevistas sempre um tom muito político, e ele sempre foi um ator muito engajado politicamente. No mundo do cinema, ele dirigiu ”Marighella” e, na política, sempre foi contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, vocalizando de forma muito clara. Disse que se aproximou do Kleber Mendonça justamente na época em que Bolsonaro estava no poder, tomado por uma angústia e uma revolta do que estava sendo feito com a cultura no Brasil. E não só com o cinema, mas também com outras áreas da cultura. E sendo uma pessoa muito política num país que não é o dele, ele acaba assumindo um papel muito interessante.
Então, a partir do momento que ele toma à frente pra dizer ”Trump não é um bom presidente, vocês nunca tiveram ditadura, vocês acham que a democracia de vocês é uma coisa que não vai ser destruída”, ele consegue uma brecha importante. Na CNN, ele disse que os Estados Unidos estão querendo deixar os arquivos Epstein para trás. Os outros atores e atrizes – no caso dos EUA – têm contratos a cumprir, têm relações com estúdios, e por si só os estúdios já têm relação com o governo.
Você não vê nem mesmo figuras como Leonardo DiCaprio, Paul Thomas Anderson, Sean Pean, nenhum deles falando contra o governo dos Estados Unidos hoje em dia, justamente por medo. Ele (Wagner) tem sido chamado para muitas entrevistas, e acredito que seja um pedido dos americanos de dizerem: ”Fale você, que não mora aqui. Você, que não é cidadão americano, por favor, fale o quanto está complicada a situação do país”. Cada entrevista tem sido melhor que a outra.
E quanto ao BAFTA, o “Oscar inglês”, que acontece em 22 de fevereiro: também temos a Petra Costa com o documentário “Apocalipse nos trópicos”. Quais são as nossas chances?
O BAFTA é um dos maiores termômetros do Oscar. A Petra Costa é uma cineasta corajosa, e fico muito feliz que o BAFTA tenha reconhecido sua obra, já que o Oscar não o fez. ”Apocalipse nos trópicos” tem boas chances, inclusive pela parceria com a Plan B (produtora do Brad Pitt), o que ajuda a atrair o público anglófono. Também precisamos ficar de olho no Adolpho Veloso, que vem forte em Fotografia por ”Sonhos de trem”. Se ganharmos o BAFTA, é muito difícil não ganhar o Oscar. Depois de anos na “geladeira”, o Brasil está bombando novamente nas premiações.
Assista à entrevista de Isabella Faria ao Matinal desta segunda-feira (9/2):