Entrevista

Drauzio Varella: ‘O que me emocionou mesmo foi conduzir alguém nos momentos finais da vida’

Em entrevista ao canal Amado Mundo, Drauzio Varella fala da emoção de tirar a angústia de alguém que está próximo do fim e comenta a desumanização da profissão

Publicado em 31/05/2026 às 06:00
drauzio varella
Drauzio Varella em entrevista no Papo Amado

Dizer a um paciente que não há mais cura é, para Drauzio Varella, a parte “mais dura” da medicina. Ao longo de décadas como oncologista, o médico acompanhou de perto o sofrimento de pessoas em fase terminal, conviveu com a morte em hospitais e em presídios paulistas e transformou parte dessas experiências em livros que marcaram gerações de leitores.

“Não tem regra. É a coisa mais difícil do mundo. [Você faz de] tudo para que [a notícia] não tenha um impacto devastador na vida daquela pessoa. Isso ninguém ensina em lugar nenhum. Tem que aprender”, reconheceu em entrevista ao Papo Amado.

Aos 83 anos, Drauzio segue como uma das vozes mais presentes nos lares brasileiros quando o assunto é saúde. Em meio às transformações da medicina nas últimas décadas, ele avalia que a pressão por produtividade e a lógica de mercado acabaram afastando médicos e pacientes e enfraquecendo o lado mais humano da profissão.

“Uma coisa importante de se perguntar é em que condições este médico, que não tem um lado humano, trabalha. Existem convênios em que os médicos têm que atender um doente a cada 10 minutos. Ele trabalha sob uma pressão constante por produtividade. Como é que vai ser humano?”, questionou. 

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O médico criticou ainda a expansão desenfreada das faculdades de medicina no Brasil e avaliou que a formação médica passou a ser guiada cada vez mais por interesses financeiros.

Leia os principais trechos da entrevista. Ou assista à íntegra em vídeo ao final do texto.

A formação em medicina, hoje em dia, é motivada por interesses diversos, não necessariamente por uma postura humanista. Como o médico pode virar essa chave para ser mais humano no trato com os pacientes?

Não é uma queixa só brasileira. É mundial. Uma coisa importante de se perguntar é em que condições este médico, que não tem um lado humano, trabalha. Existem convênios em que os médicos têm que atender um doente a cada 10 minutos. Ele trabalha sob uma pressão constante por produtividade. Como é que vai ser humano? Como é que você orienta uma pessoa com diabetes ou câncer nesse tempo? A medicina passou a atingir muito mais gente, porém com atendimento expresso. 

Como explicar o paradoxo entre o crescimento de faculdades de medicina e a piora na relação entre médico e paciente?
O Brasil hoje tem mais faculdades de medicina do que os Estados Unidos e do que a China. Nós só perdemos para a Índia, um país com mais de 1,4 bilhão de habitantes. Essas faculdades foram formadas por interesses puramente financeiros. Virou um grande negócio. 

Teve algum médico que te inspirou?
Com 7 anos, tive uma glomerulonefrite, uma doença potencialmente grave. Aí tive um pediatra que cuidou de mim. Fui ao médico outra vez só na faculdade de medicina. Não havia esse contato com a medicina. O SUS foi criado em 1988, com a Constituição. [Até então], o Estado não tinha obrigação de tratar os seus doentes. 

Quem foram os seus pais?
O meu pai, José, nasceu na Espanha. Ele foi naturalizado aqui porque o meu avô não queria ter filhos espanhóis. Meu avô não deixava a minha avó falar espanhol com os filhos porque dizia que se aprendessem [a língua] iriam querer voltar para a Espanha e lá iam se meter em guerra. O meu pai casou com 21 anos. A minha mãe, Lídia, teve um primeiro filho que nasceu em casa e morreu em seguida. Aí teve a minha irmã mais velha, eu, e um irmão dois anos mais novo. No parto desse meu irmão, desenvolveu uma doença autoimune, que é a miastenia grave. Ela morreu muito cedo, com 32 anos. Eu tinha 4 anos, minha irmã 7 e o meu irmão, 2. O meu pai ficou com esses três filhos, e foi maravilhoso. Ele tinha dois empregos e dizia: “Meus filhos vão entrar na universidade”. Naquela época, no Brás, quando se fazia 14 anos, ia trabalhar nas fábricas. 

Quem era o Drauzio de 18 anos, quando entrou na faculdade?
Fiz uma coisa certa ali que definiu a minha vida: aprender e gostar de estudar. Quando entrei na faculdade, comecei a dar aula no cursinho que tinha feito. Com 18 anos já ganhava mais que meu pai. Fiz um curso médico razoável, poderia ter sido muito melhor, mas tinha muito trabalho [dando aulas]. 

Desde sempre quis oncologia?
Me formei e queria fazer Saúde Pública, mas naquela época era praticamente impossível. Aí passei uns dois ou três anos perdido até fazer um estágio no Hospital dos Servidores do Estado, em São Paulo. De lá fui para o Hospital do Câncer e fiz oncologia. 

Você foi um homem de longas relações, mas que também teve seus momentos de coração partido. Existe remédio para isso?
Eu vivi mais ou menos tranquilamente até a época da adolescência, começo da faculdade. Namorava muito até conhecer a minha primeira mulher. Ela estava desquitada e tinha um filho. Vivemos 11 anos juntos, e tive duas filhas com ela. Depois nos separamos, e eu conheci a Regina [Braga].  

E o seu remédio foi um anúncio de jornal?
Tinha me separado e tinha uma filha de 8 anos e outra de 6. Naquela época não havia guarda compartilhada. Não me conformava que não ia mais morar com as minhas filhas, e aquilo me dava uma tristeza profunda. Um dia leio no jornal que ia começar um curso de teatro. Foi aí que eu conheci a Regina, que era professora no curso. 

Pensando em um sentido não necessariamente estético, existe beleza no sistema prisional?
Esteticamente não, porque os lugares são horríveis e mal cuidados. Mas tem situações em que você reconhece beleza nos comportamentos. Nesse sentido, a solidariedade, o gesto de ajudar o mais fraco, a importância da palavra… é um ambiente em que ela tem muito valor. 

Como você diz para uma pessoa que a doença não tem cura e ela vai morrer?
É a coisa mais dura que enfrentei na profissão, a mais difícil do mundo. E a arte da medicina é essa. [Você faz de] tudo para que [a notícia] não tenha um impacto devastador na vida daquela pessoa. Isso ninguém ensina em lugar nenhum.  

O contrário deve ser muito bom, falar para uma pessoa que ela está curada. 
Dá prazer, claro, mas o que me emocionou mesmo foi conduzir alguém nos momentos finais da vida. Tirar a angústia e fazer entender que é natural morrer.

Você acredita em milagre, Deus ou em um ser superior?
Nunca consegui acreditar. Acho que, na hora que morrer, vou morrer e acabou. Aí tem pessoas que dizem: “Mas então a vida é só isso?” Poxa, só isso? Quantos prazeres você teve na vida? Quantas coisas boas viveu?

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