Testosterona: moda ou tratamento médico? Os riscos e a tecnologia da reposição hormonal
Entre géis nanotecnológicos e implantes de precisão, especialistas alertam para a linha tênue que separa a evolução da medicina da busca perigosa por performance estética
Luiza Barufi

A reposição de testosterona tornou-se um dos temas mais debatidos da medicina atual, dividindo opiniões entre especialistas e o público. De um lado, o uso indiscriminado para fins estéticos e de alta performance alimenta a promessa de uma juventude eterna, levando muitos a buscarem o hormônio sem necessidade clínica e sem mensurar as consequências. De outro, pacientes que realmente apresentam deficiência hormonal enfrentam o medo causado pela desinformação.
A grande questão que se impõe é: onde termina a busca irresponsável pela performance e onde começam a ciência e a tecnologia da reposição hormonal baseada em evidências?
A visão feminina: ‘janela de oportunidade’ e libido
Para as mulheres, as indicações são muito específicas e não devem ser banalizadas. A ginecologista Rita de Cássia de Maio Dardes, da Comissão Nacional Especializada em Climatério da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), faz um alerta importante: “Não deve ser ofertado a testosterona para humor, para osso, para bem-estar ou para ganho de músculo. Isso não tem uma recomendação médica”.
Segundo a especialista, a recomendação formal na literatura foca no benefício para mulheres na pós-menopausa com desejo sexual baixo.
“Mulheres que realmente têm uma baixa de libido importante, os trabalhos conseguiram demonstrar que o uso de testosterona em baixa dose, numa via em forma de gel transdérmica, tem benefícios”, explica.
A terapia deve respeitar a chamada “janela de oportunidade”: pacientes abaixo dos 60 anos e com sintomas climatéricos (como fogachos) em até 10 anos após a última menstruação. Nestes casos, os benefícios podem incluir ganhos ósseos, cardiovasculares e para a libido.
No entanto, Dardes reforça que a paciente que já realiza a terapia hormonal comum às mulheres na menopausa já está exposta a alguns riscos conhecidos.
“Quando você associa dois fármacos [estrogênio e progesterona], você pode aumentar, comparado às não usuárias de hormônios, o câncer de mama. Esse risco é pequeno, os benefícios excedem esse pequeno risco, mas existe. Também existe um risco maior de tromboembolismo, em especial no primeiro ano de uso da terapêutica hormonal”.
O homem e o diagnóstico de hipogonadismo
Para o público masculino, o médico Alexandre Hohl, diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (ABESO) e diretor do departamento de Andrologia da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), explica que a investigação também deve ser criteriosa.
O diagnóstico de hipogonadismo, uma condição clínica na qual as gônadas (testículos nos homens e ovários nas mulheres) produzem pouco ou nenhum hormônio sexual (como a testosterona ou o estrogênio), deve ser investigado em homens com queixas na vida sexual, como disfunção erétil e queda de libido:
“Pacientes masculinos com queixas de disfunção sexual, queda de libido, disfunção erétil, diminuição das ereções matinais, diminuição da performance sexual, sim, é um paciente que merece uma avaliação médica adequada com vários exames, testosterona e outros mais. A partir dali, são definido os pontos de cortes para ser feito o diagnóstico”.
Hohl enfatiza que a testosterona não deve ser encarada como um exame de “check-up” rotineiro para quem não apresenta diagnóstico clínico.
O perigo do ‘atalho’ estético
O uso estético da testosterona geralmente envolve doses anabolizantes, o que interrompe a produção natural do corpo acarretando em um “desligamento” hormonal: “Tudo vai depender de quantidade de hormônio, tipo de hormônio, idade do paciente, quantas vezes que ele fez esse liga e desliga. Quanto mais hormônios, quanto mais mistura de hormônios, quanto mais tempo de uso, quanto mais vezes usar ao longo da vida, maior a chance de desligar e nunca mais religar”.
As consequências podem ser severas, indo desde a parada da secreção de hormônios pela hipófise até a atrofia testicular, que pode resultar em total infertilidade.
Tecnologia farmacêutica: géis e pellets
A medicina moderna substituiu as antigas injeções por métodos mais sofisticados, como géis nanotecnológicos e implantes de liberação controlada (pellets). Contudo, o especialista faz uma ressalva importante sobre a procedência desses produtos.
Não há comprovação científica de que produtos feitos em farmácias de manipulação sejam superiores aos vendidos em farmácias tradicionais. Hohl aponta que o grande risco do manipulado é a ausência de bula e o perigo de superdosagem, o que fere o direito do consumidor e traz insegurança à saúde.
Para um tratamento seguro, ele defende o uso de fármacos com registro na Anvisa, que garantem doses fixas e confiáveis.
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