Madalena Sá Fernandes: ‘A escrita é tentativa de elaborar as dores através das palavras’
Autora de Leme, Deriva e Sótão, portuguesa fala sobre psicanálise, literatura, Brasil, maternidade e violência doméstica

Dois sótãos, separados por décadas, acabaram unidos pela literatura. O primeiro fazia parte da casa onde Madalena Sá Fernandes cresceu, em Lisboa, e passou a ser o quarto do pai após a separação dos pais. O segundo foi o espaço para onde a escritora portuguesa se mudou com as filhas depois do próprio divórcio. Transformado em símbolo de refúgio e reconstrução, o lugar acabou dando nome ao seu livro mais recente, “Sótão”.
“Escrevo muito sobre a minha própria experiência. [O sótão] é um espaço especial da infância e também muito importante na vida adulta”, contou, em entrevista ao Lisboa Connection, videocast do Amado Mundo. Autora de “Leme”, publicado no Brasil pela editora Todavia, e de “Deriva” e “Sótão”, ambos pela Companhia das Letras de Portugal, a escritora portuguesa tem transformado memórias íntimas em literatura, num processo que, segundo ela, dialoga diretamente com a psicanálise.
“Faço psicanálise e não abdico. No meu caso, ela tem uma relação muito direta com a escrita. É uma narrativa, não é? São tentativas de elaborar as dores e as coisas mais difíceis através das palavras”, afirmou.
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Ao longo da conversa, Madalena falou sobre a influência de Clarice Lispector e de outros autores brasileiros em sua formação, relembrou os quatro anos em que viveu no Rio de Janeiro, refletiu sobre maternidade, violência doméstica, direitos das mulheres e política, além de comentar o impacto das redes sociais sobre a leitura e os caminhos que pretende seguir depois de concluir o ciclo de “Sótão”.
A seguir, leia os principais trechos da entrevista. Ou assista à íntegra em vídeo ao fim do texto.

O que representa o lugar “sótão”, que dá nome ao seu novo livro?
O sótão é um espaço de refúgio e de criação. Escrevo muito sobre a minha própria experiência, e o sótão era um espaço muito especial. Foi onde meu pai passou a dormir quando se separou da minha mãe. [Também], quando me separei, por conta dos preços das casas em Portugal, o que consegui alugar foi um sótão para mim e minhas filhas. Um espaço especial da infância e muito importante na vida adulta.
Em tempos de redes sociais, como despertar o interesse pela literatura?
A velocidade que as redes impõem é contrária à ideia de pensamento da leitura. A literatura, por natureza, exige tempo, lentidão, e as redes vêm cortar essa possibilidade.
E os e-books?
Ainda não sou adepta do e-book. Gosto do livro físico. O e-book tem uma vantagem clara e óbvia: elimina o peso, permite viajar e levar quantos livros quisermos. É bom, mas não deixa de ser uma outra tela. O caminho deveria regressar ao livro, mas antes o e-book do que as redes sociais.
A psicanálise teve muita influência na escrita de “Leme”. Pode falar sobre isso?
Faço psicanálise e não abdico. No meu caso, ela tem uma relação muito direta com a escrita. São tentativas de elaborar as dores e as coisas mais difíceis através das palavras. A psicanálise e a escrita são mecanismos de trabalhar as minhas dores e angústias, torná-las mais legíveis e ordenadas.
O “Leme”, lançado há três anos, está editado em dez países. Nele, você escreve sobre episódios de violência doméstica vividos com o seu padrasto. Como foi essa desconstrução?
O “Leme” é do ponto de vista do eu-criança. Sobre a convivência com o meu padrasto, o Paulo, que era uma pessoa muito violenta e obsessiva. Tem a ambivalência da criança que ao mesmo tempo que odiava aquela figura, conseguia amá-la e reparar pequenas delicadezas. É um livro que tem me dado contínuas alegrias, o que é muito inesperado.
O título é uma referência ao bairro do Rio de Janeiro?
Também. O bairro deu o mote porque vivi nele, na rua Gustavo Sampaio, que era a rua da Clarice Lispector. Foi a minha primeira paisagem na vida sem o Paulo. É uma paisagem que apresenta uma nova possibilidade num certo sentido. Mas [o título] também é metafórico. Vem da questão de construir o próprio barco, pegar no leme, [ter] autonomia e direção.
Como você foi parar no Leme?
Estudava literatura aqui em Portugal e ganhei uma bolsa para fazer um intercâmbio de alguns meses na Universidade Federal do Rio de Janeiro. O Leme foi porque havia vários portugueses [no bairro].
E qual a sua relação com o Rio e com o Brasil hoje?
É de muita saudade, o tempo inteiro. Era para ficar quatro meses no Rio e fiquei quatro anos. Não queria sair de lá.
A Clarice Lispector é uma de suas referências?
É uma referência mais para minha vida do que para a minha escrita.
Além da Clarice, quais outros autores brasileiros te inspiram?
Chico Buarque, Nelson Rodrigues, Machado de Assis. Mais contemporâneos, gostei muito de ler Bernardo Carvalho, Tatiana Salem Levy, Eliane Brum, Vera Iaconelli, Mariana Salomão Carrara, Giovana Madalosso e Natalia Timerman.
Você é mãe de duas meninas. A sua experiência de violência doméstica, quando era tão pequena, impactou de alguma forma a relação com as suas filhas?
Quanto às minhas filhas, o impacto é o medo de que elas possam, um dia, viver alguma coisa assim. [O que faço] é educá-las para que saibam que não precisam de se meter em nada ou com alguém que as desvaloriza a esse ponto.
Como você avalia a percepção da sociedade sobre os direitos das mulheres em Portugal e no Brasil?
Não sei quem está mais atrasado, porque vi atrasos grandes em ambos os países. Mas, às vezes, sinto que é Portugal. O Brasil está um bocadinho mais atento. Acontecem situações de machismo aqui em Portugal que, no Brasil, as pessoas iriam estar atentas. Coisas absurdas aqui passam batidas.
Como é a sua relação com a política?
Cresci com o meu pai a fazer política, o que eu não sabia que era política. Era só querer que a cidade e a sociedade ficassem melhores. A família dele é toda de esquerda e a da minha mãe é de direita. Cresci com duas visões opostas, o que, para mim, foi ótimo. Sempre ouvia os dois lados. Isso me permitiu crescer com o espírito crítico e poder escolher o que me identificava mais, que foi com a esquerda.
Em 2024, você lançou seu segundo livro, o “Deriva”, com crônicas bem-humoradas. Foi preciso esse descanso de uma leitura mais exigente?
Foi exatamente o meu objetivo. Respirar um pouco.
O que vem pela frente?
Sinto que esgotei tudo o que tinha para dizer. É uma fase um pouco assustadora, mas, ao mesmo tempo, é libertador, porque posso fazer qualquer coisa. Como projeto mais imediato, tenho a minha tese de mestrado para terminar este ano.