Entrevista

Esquecimento faz tão parte de livro que me tomou também, diz Natalia Timerman sobre Alzheimer da mãe

A escritora e psiquiatra conta ao Notas de Rodapé sobre o processo de descoberta do Alzheimer da mãe e como foi transportar o processo para um livro de ficção

29/07/2026 às 08:44 · Atualizado há 3 semanas
Natalia Timerman Alzheimer
Escritora e psiquiatra Natalia Timerman

A escritora e psiquiatra Natalia Timerman descreveu de forma brutalmente honesta, no programa literário Notas de Rodapé, do Amado Mundo, a intensidade que foi testemunhar o apagamento da própria mãe, diagnosticada com Alzheimer. Durante a entrevista, ela falou sobre o processo de criação de seu romance “Antes que apague” e contou que o impacto emocional da doença da mãe ecoou nela, enquanto escrevia o livro. 

“O esquecimento faz tão parte deste livro que ele me tomou também, sabe? Eu me incrustei nele a ponto de também ir perdendo algo da memória, quase como se fosse um jeito de eu estar perto da minha mãe”, declarou. 

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A negação diante do diagnóstico de Alzheimer

Apesar de ser médica psiquiatra, Natalia revelou que demorou a perceber os sintomas de demência na própria mãe, que era muito jovem, na faixa dos 60 anos, quando a doença começou a se manifestar. Ela descreve o período como um momento de forte relutância e negação. 

“Acho que a gente só consegue ver o que está dentro das nossas possibilidades existenciais, acho que minha mãe ter Alzheimer não cabia na minha consciência naquele momento”, explicou. 

A ‘verdade possível’ diante do esquecimento

Um dos dilemas éticos e emocionais mais complexos do convívio da escritora com o Alzheimer foi ressignificar a verdade. Ela relembrou que, após a morte de seu pai, a mãe constantemente se esquecia do falecimento e perguntava por ele.

Ao notar que a mãe sentia a cada vez que recebia a notícia de novo, como se sofresse um impacto inicial de luto inédito, Natalia mudou de atitude e passou a dizer que o pai estava bem. 

“Acho que não dá nem para chamar de mentira, era a verdade possível ali em algum lugar, era o que ela conseguia suportar, era o melhor para ela”, refletiu. 

A culpa e o processo doloroso da escrita

O romance “Antes que apague” nasceu em meio à pesquisa de doutorado da psiquiatra, que investigava a postura de autoria e a exposição da realidade na obra de autores como Elena Ferrante e Karl Ove Knausgård. A partir dessas reflexões, ela construiu um livro com nítido material autobiográfico, mas baseado na premissa que credita a Ricardo Piglia: “uma gota de ficção contamina tudo de ficção”. 

No entanto, o processo não teve nada de terapêutico. “Foi muito doloroso, muito angustiante escrever esse livro. Me sentia muito culpada, como se eu tivesse usando a dor da minha mãe para fazer alguma outra coisa”, confessou.

Para lidar com esse peso ético, a autora decidiu incorporar as próprias dúvidas na narradora da obra. 

“A literatura é o lugar onde a gente consegue sustentar perguntas assim. E não ter respostas fáceis, sustentar complexidades, ambivalências”, concluiu. 

Assista ao Notas de Rodapé completo:

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