Fim da escala 6×1: empresários ignoram custo do adoecimento por burnout, diz Túlio Gadêlha
Deputado federal detalhou as PECs aprovadas na CCJ da Câmara, e comparou com PL do governo Lula sobre o mesmo tema

A discussão sobre a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1 — jornada em que o trabalhador folga apenas um dia na semana e trabalha seis consecutivos — vem ganhando tração no debate público, impulsionada por movimentos como o VAT (Vida Além do Trabalho) e pela crescente insatisfação com modelos considerados exaustivos. Pesquisa Datafolha do mês passado mostrou que 71% da população brasileira apoia o fim da escala 6×1.
O tema também se consolidou como pauta política relevante e deve ocupar espaço central nas eleições de 2026, mobilizando diferentes propostas no Congresso e estratégias do governo Lula.
Nesta quarta-feira (22), a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou a proposta de emenda constitucional (PEC) que prevê o fim da escala 6×1. A CCJ analisou dois textos: o primeiro, proposto pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), que prevê que a jornada passe de 44 horas semanais para 36 horas (em uma redução gradual, feita ao longo de dez anos); e o segundo, de autoria da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), que propõe a diminuição da jornada para quatro dias trabalhados e três de folga, com implementação em até 360 dias.
A comissão analisou a admissibilidade das propostas e considerou que elas são constitucionais e que podem seguir para a tramitação na Câmara. As PECs foram avaliadas de forma conjunta, visto que ambas tratam do mesmo assunto, e passam a tramitar agrupadas. Elas seguem agora para a discussão do mérito da proposta. É nesta etapa que diferentes grupos políticos e setores empresariais devem se manifestar sobre os termos das mudanças trabalhistas, sugerindo inclusive alterações no texto.
Na semana passada, o governo Lula também enviou uma proposta para o fim da escala 6×1, em regime de urgência — nesse caso, o Legislativo tem que deliberar sobre o tema em 45 dias. O texto presidencial, no entanto, prevê a redução para 5×2 (cinco dias trabalhados e dois de folga). A proposta passaria então a tramitar como um projeto de lei — e não como PEC. O movimento do governo é visto como estratégico e uma das principais bandeiras a serem levantadas nas eleições de outubro.
Atualmente, a legislação trabalhista prevê uma jornada de até 44 horas semanais. Ou seja, todas as propostas apresentadas preveem uma redução nas horas trabalhadas e um aumento do descanso para o trabalhador.
Para comentar o assunto, o Matinal desta sexta (24) recebeu o pré-candidato ao Senado por Pernambuco Túlio Gadêlha (PSD-PE), que é a favor dos limites na carga horária do trabalhador.
Gadêlha comentou qual seria a que a PEC é mais forte quando inserida no texto da Constituição e, se em algum momento futuro, Senado ou Câmara decidisse alterar o projeto teria mais trabalho. No entanto, defendeu que o PL em regime de urgência do presidente traria uma resposta mais imediata à vida do trabalhador que espera pelo fim da escala.
Com relação a resistência da oposição à aprovação dos projetos — que afirmam que essa redução poderia trazer impactos significativos na economia —, Gadêlha exemplificou que trabalhadores de países do exterior, como Alemanha e Islândia, passaram a produzir mais com a diminuição da jornada de trabalho. Contudo, explicar para empresários e oposição que esse cenário não implicaria na economia ainda é um desafio a ser enfrentado.
Leia abaixo os principais trechos da entrevista ou veja em vídeo ao final do texto.
Como o senhor responde às críticas de que a redução da jornada pode trazer custos econômicos que ainda não estão claros para a sociedade? E, diante desse cenário — em que o tema ganha apoio popular, mas enfrenta resistência de setores empresariais e da oposição —, que tipo de mudanças, adaptações ou compensações o senhor acredita que a oposição deve propor ao longo do debate, considerando que também não estarão dispostos a votar contra uma proposta popular em um ano eleitoral?
Em todos os países que reduziram a jornada houve algum tipo de compensação do governo, e isso também está sendo considerado aqui. Mas o que muitos empresários ignoram é o custo do adoecimento principalmente por causa do burnout, cujos casos dispararam — de 2025 para 2026, houve um aumento de 493% de pessoas afastadas — e só em 2026 foram mais de 546 mil afastamentos por doenças do trabalho no INSS. Isso já gera um impacto enorme na economia, acima de R$ 550 bilhões por ano, segundo o Banco Mundial. Então, quando se discute reduzir a jornada, é preciso colocar tudo isso na conta — e, se houver impacto para as empresas, pensar em compensações.
Como o senhor avalia a estratégia do governo de enviar um PL frente a uma preferência do presidente da Câmara, o deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), de seguir com as PECs?
Acho a PEC mais forte, pois, quando a gente insere no texto da Constituição uma norma, para você retirar essa norma, dá mais trabalho. Sou defensor da PEC, pois dá mais consistência e segurança jurídica, mas sei também que os projetos que tramitam hoje na Câmara [do deputado Reginaldo e deputada Erika] exigem um prazo de implementação, que podem chegar a 10 anos, no caso da do deputado Reginaldo, ou a 360 dias, no caso da PEC da deputada Erika. Já o projeto que Lula traz já pode, em curto prazo, entrar em vigência. Então, para o trabalhador que espera que esse projeto seja aprovado, é uma resposta mais imediata. Além disso, na tramitação de um PL, existe o envolvimento do presidente. Quando uma lei é aprovada na Câmara e no Senado, ela passa para a sanção presidencial. Acho importante o envolvimento do presidente nesse processo de construção da proposta, porque ele tem sido um grande defensor.
Qual é a viabilidade hoje de pensar no andamento de um PL quando a gente está vendo uma preferência pelas PECs?O senhor vê espaço para esse projeto de lei andar?
Vejo espaço, sim, principalmente se o presidente Hugo determinar que essa comissão especial precise de 40 sessões. Se o presidente Hugo assim determinar, logicamente, o projeto de lei encaminhado pelo presidente da República que chegou ao Congresso em regime de urgência, ele tem uma limitação de 45 dias para ser votado. Esse projeto de lei do presidente Lula será votado em um prazo menor do que a análise dessa PEC, onde vai se discutir, como o presidente falou, o mérito dela. Acredito que o projeto de lei pode ser votado a depender do entendimento que o presidente Hugo possa formar para a gente discutir a PEC na Comissão Especial. Por isso, eu não descarto essa possibilidade. A preferência hoje da Câmara, e eu digo da maioria dos deputados, é de se votar no formato PEC, mas, se isso for empurrado pelos próximos meses, como pode ser em 40 sessões, logicamente o PL do presidente Lula vai precisar entrar em pauta antes da PEC.