O caso Havaianas e o Brasil no espelho da polarização
Reação da direita a comercial com Fernanda Torres ilustra a polarização afetiva descrita por Felipe Nunes, em que consumo, identidade e política se misturam no Brasil atual.
No livro “Brasil no Espelho“, lançado recentemente, o cientista político Felipe Nunes, CEO do instituto de pesquisas Quaest, busca apresentar um retrato da sociedade brasileira contemporânea, com base em uma pesquisa de valores, atitudes e percepções.
A obra nasce de um amplo levantamento que ouviu quase 10 mil brasileiros no fim de 2023, cobrindo cada região do país. O objetivo, explica Nunes, foi “olhar para aquilo que nos une e nos divide”, desde crenças sobre autoridade e violência até desejos de trabalho, aspirações dos jovens e relações sociais.

Um dos dados mais impactantes do estudo é o nível de desconfiança interpessoal: apenas uma minoria dos brasileiros afirma confiar nos outros, um dos menores índices do mundo. Essa desconfiança amplia o medo, reduz a cooperação social e tem impactos diretos na vida cotidiana, na economia e na política.
Ao Matinal, Nunes mostrou como essas tendências foram mapeadas ao longo da pesquisa e seguiram ganhando vida em situações aparentemente triviais como a recente discussão pública em torno de uma campanha das Havaianas.
No conteúdo publicitário, a atriz Fernanda Torres diz não querer que as pessoas comecem 2026 “com o pé direito”. A frase foi interpretada por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro e parlamentares como uma provocação ou insinuação política, o que motivou pedidos de boicote à marca.
Líderes bolsonaristas e influenciadores publicaram críticas e incentivaram que as pessoas parassem de comprar da marca, argumentando que a publicidade teria ultrapassado o limite do marketing e entrado na disputa ideológica.
O caso, segundo Nunes, ilustra como a polarização afetiva, aquela que mistura emoções, identidade e política, passou a influenciar até a percepção de produtos de consumo: pessoas veem a mesma propaganda de forma oposta dependendo de suas crenças e sensações de pertencimento.
Outro efeito dessa polarização é a tendência de o brasileiro confiar mais em instituições tradicionais, como família e religião, do que em outras pessoas ou entidades sociais, justamente porque as relações de confiança interpessoal estão em baixa.
Nunes identificou ainda padrões geracionais curiosos. A chamada “geração.com”, nascida nas décadas mais recentes, declara ser mais centrada ideologicamente e mais “cansada” da polarização política, valorizando flexibilidade no trabalho e diversidade nas relações, diferentemente de gerações anteriores.

Um dos pontos centrais do livro é a classificação dos brasileiros em nove identidades políticas e sociais: desde militantes de esquerda e progressistas, até conservadores cristãos, empresariais, agro e empreendedores individuais, sendo justamente esses últimos e os liberais sociais os segmentos considerados decisivos para as eleições de 2026.
Essa diversidade faz com que o Brasil seja um país “não explicado pela média”, nas palavras de Nunes, mas sim pela variedade de respostas, visões e valores que coexistem e rivalizam no mesmo espaço político e cultural.
O resultado é um retrato complexo, que não se encerra em conclusões simplistas, mas convida a sociedade a olhar de frente para suas contradições e paradoxos, o espelho que, segundo o autor, não mente.
Leia a íntegra da entrevista de Felipe Nunes ao Matinal desta segunda-feira (22):
Para começar, conte a história do “Brasil no Espelho”. Ele nasce de uma pesquisa feita para a TV Globo, certo?
Exatamente. Essa é a maior pesquisa já feita no Brasil sobre valores, atitudes e preferências dos brasileiros. Nós entrevistamos quase 10 mil pessoas em todo o país, em conversas longas, de quase uma hora e meia cada. Foi um estudo encomendado pela Globo, que sempre investiu muito em entender o Brasil. Esse trabalho acabou virando o livro, que agora a gente tem a oportunidade de democratizar, de mostrar esse espelho do Brasil para um público mais amplo. O que a gente encontra ali, para alguns, é surpresa; para outros, é confirmação do que já intuíram. Mas é um livro surpreendente porque revela um Brasil em transformação constante, com mudanças muito rápidas. Nenhum país do mundo viveu, ao mesmo tempo, uma transição religiosa, demográfica e informacional como o Brasil, e isso mexe profundamente com valores e identidades.
Você já trabalha com pesquisa de opinião há muitos anos. Mesmo assim, o que te surpreendeu nesse trabalho?
O livro tem muitas surpresas, mesmo para quem vive disso todos os dias. Quando você olha para os números concretos, alguns dados chamam muita atenção. Um deles é o altíssimo grau de violência da sociedade brasileira e o nível de punitivismo. O Brasil sempre foi punitivista, mas estamos chegando a níveis alarmantes e, curiosamente, não somos um país armamentista. As pessoas querem resolver o problema da violência, mas não armando toda a população. Outro ponto que me surpreendeu foi o nível de cansaço do brasileiro. As pessoas dizem que não aguentam mais trabalhar tanto e ganhar tão pouco. Isso muda mentalidades: cresce o desejo de trabalhar por conta própria, de empreender, de não ter patrão. Isso transforma completamente a discussão sobre mercado de trabalho. Também me chamou atenção a comparação entre gerações, especialmente entre o que eu chamo de geração Bossa Nova e geração.com. O Brasil está muito diferente do que era há pouco tempo.
Você traz no livro um dado muito forte sobre confiança interpessoal. Queria que você explicasse melhor isso e as consequências para a política e a economia.
Confiança é uma base invisível das relações sociais, das mais íntimas às mais distantes. Sem confiança, a vida em sociedade fica muito mais difícil, porque toda interação passa a ser marcada por medo, dúvida e incerteza. O que a gente encontra no Brasil é que apenas 6% dos brasileiros dizem confiar uns nos outros, um dos menores índices do mundo. Isso é muito sério. Um país desconfiado tem mais dificuldade de fazer negócios, de cooperar, de confiar nas instituições. Essa desconfiança gera insegurança institucional e impede o desenvolvimento econômico. Eu considero esse nível de desconfiança uma crise central para pensar o Brasil do futuro.
De onde vem essa desconfiança? É cultural ou resultado do momento político recente?
Ela tem raízes profundas. O Brasil foi um país escravocrata até muito recentemente, patrimonialista, patriarcal, marcado por violências físicas, econômicas e emocionais. É um país historicamente atravessado por golpes, rupturas e falcatruas. As pessoas aprenderam a desconfiar. Você atende o telefone sem saber se é golpe, recebe uma mensagem desconfiando de tudo. Isso está na base da nossa estrutura social.
Mas essa desconfiança aumentou muito com a polarização. Desde 2018, vivemos um nível altíssimo de polarização afetiva. O debate público virou uma disputa moral entre bem e mal. Isso aprofunda a desconfiança, especialmente em relação a quem pensa diferente politicamente.
Esse tema apareceu claramente no debate recente sobre a campanha das Havaianas. O que esse episódio revela?
Eu olho esse episódio a partir dos dois livros que escrevi. O “Brasil no Espelho” mostra um país que tem unidade, mas continua profundamente polarizado. Já em “Biografia do Abismo”, eu e Thomas Traumann falamos de polarização calcificada, quando a visão de mundo organiza todo o comportamento das pessoas. Nesse cenário, as marcas deixam de ser neutras aos olhos do consumidor. Há oportunidades, mas também riscos. Um dado impressionante do livro mostra que, de 2018 a 2025, o percentual de brasileiros que dizem que deixariam de comprar um produto se a marca tivesse posição política diferente da sua saltou de 1% para 28%. Isso mostra uma polarização moral, não pragmática. Preço, qualidade e serviço passam a dividir espaço com valores e identidade. Comunicação deixa de ser só o que você diz e passa a ser o que o outro entende, ou quer entender, dentro das bolhas digitais. Medo, raiva, ressentimento e desconfiança são explorados politicamente. Esse episódio mostra como emoções são usadas para mobilizar grupos, algo muito bem descrito no livro “Os Engenheiros do Caos”, de Giuliano da Empoli.
E onde entram as gerações mais jovens nesse cenário?
A geração.com é uma geração cansada da polarização. Quando se autoclassifica ideologicamente, ela se diz mais de centro. É uma reação clara ao excesso de conflito. É uma geração que valoriza flexibilidade mais do que estabilidade, experiências mais do que carreiras longas. Nos relacionamentos, acredita que a função principal é ser feliz, não cumprir expectativas sociais como ter filhos. Também é menos machista e menos preconceituosa em relação a raça e gênero. É uma geração que se olha no espelho de um jeito diferente da média da sociedade brasileira.
Você diz no livro que o brasileiro é cheio de contradições. Isso é um problema?
Eu prefiro ver isso de um jeito bonito. O Brasil não é explicado pela média, mas pela diversidade, pela variância. Nos últimos dez anos, o país viveu transformações enormes: manifestações, impeachment, prisões de presidentes, reformas econômicas, queda abrupta da taxa de natalidade. Tudo isso produz contradições. Eu vejo isso como expressão da pluralidade do Brasil. O desafio é transformar essa pluralidade em debate democrático, e não em confronto social alimentado pela polarização.
Você propõe no livro uma tipologia de identidades políticas. Pode explicar?
Ao invés de classificar as pessoas só por renda, idade ou escolaridade, eu proponho nove grandes identidades baseadas em valores. À esquerda, estão os militantes de esquerda, a classe D.E. e os progressistas. À direita, a extrema direita, o agro, os empresários e os conservadores cristãos. No meio, em disputa, estão os empreendedores individuais e os liberais sociais, grupos que já votaram a favor e contra o PT e que serão decisivos em 2026.
Onde entram os evangélicos nesse desenho?
A maioria dos evangélicos está dentro do grupo dos conservadores cristãos, que representa cerca de 27% da população. Mas não é um bloco monolítico: há pentecostais, neopentecostais, tradicionais, com visões distintas. Ainda assim, é um público fortemente mobilizado por valores, costumes e identidade religiosa. Na média, tende a votar contra o PT e será um dos grupos mais desafiadores em 2026.
Há espaço para tantos candidatos de direita?
Do ponto de vista da demanda, sim. A direita não bolsonarista é maior do que o bolsonarismo, e o eleitor independente é o maior grupo do país. Mas o sistema eleitoral de dois turnos força a coordenação. O eleitor aprendeu a antecipar quem será competitivo no segundo turno. Sem coordenação política, candidaturas fragmentadas tendem a perder força. A grande disputa será entre permanecer na polarização ou buscar uma alternativa mais ao centro e isso depende da organização das elites políticas.
Assista à entrevista de Felipe Nunes ao Matinal desta segunda-feira (22):