A periferia me deu régua e compasso, mas o primeiro corpo tombado vi aos 6 anos, diz escritora
A professora e filósofa Bárbara Carine contou sobre o impacto do racismo em sua trajetória e o resgate da memória negra através da educação

A escritora, filósofa e educadora Bárbara Carine compartilhou no Notas de Rodapé, do Amado Mundo, a sua jornada desde a infância na periferia de Salvador até se tornar uma referência nacional em educação antirracista. Ao resgatar memórias de sua criação, ela explicou que a favela desenvolveu o seu senso comunitário, mas a obrigou a conviver cedo com traumas.
Leia também: Existe um plano de encarceramento em massa no Brasil, afirma rapper Dexter
“A periferia me deu régua e compasso, mas não dá para romantizar, porque o primeiro corpo tombado no chão que eu acesso na minha vida é com 6 anos de idade”, disse.
O medo de Bárbara do Estado e a busca pela potência na escola
A autora revelou o pavor constante que sentia na juventude diante da presença policial. Ela relembrou um episódio marcante aos 13 anos, quando sentia fortes dores e segurou um desmaio nas ruas apenas pelo desespero de não cair em frente a uma viatura, reflexo de uma relação com o Estado pautada puramente no medo e na violência.
Para mudar essa lógica, contou que transformou sua abordagem nas salas de aula: em vez de apenas debater a letalidade que atinge os jovens negros, decidiu focar no fortalecimento da identidade.
“Eu quero voltar agora pra escola para falar de potência, eu quero voltar agora pra escola para falar de poder”, declarou a autora, que hoje utiliza suas obras para dar destaque à ciência e às invenções tecnológicas da população negra.
Maternidade e a guerra das facções em Salvador
Outro ponto crucial levantado pela educadora foi a mudança na dinâmica criminal de Salvador e a angústia inerente à maternidade de crianças negras.
Segundo ela, a capital baiana vive um processo brutal de “territorialização das facções”, semelhante ao que ocorreu no Rio de Janeiro, com disputas violentas e derramamento de sangue em comunidades que antes conheciam apenas líderes locais do tráfico.
Diante desse cenário e do assassinato sistemático da juventude preta, a pesquisadora expressou a dor de criar seu bebê de quatro meses sabendo dos riscos que ele enfrentará no futuro:
“Como é que eu vou fazer para segurá-lo em casa? Como é que eu vou fazer para convencê-lo de que todo lugar não é seguro pra gente?”, desabafou. Bárbara também alertou que não existe classe social ou condição material capaz de blindar um corpo negro no país.
Assista ao Notas de Rodapé na íntegra: