Entrevista

Mamdani é um dos rostos promissores do Partido Democrata, diz documentarista

Autor de “Procurando Mamdani” avalia os desafios do novo prefeito de Nova York para tirar do papel propostas ousadas.

Publicado em 26/12/2025 às 14:00

O jornalista e documentarista Luís Nachbin comentou no Matinal desta sexta-feira (26) os bastidores e os significados políticos de “Procurando Mamdani”, primeiro documentário do Amado Mundo, que acompanha os últimos dias da campanha vitoriosa de Zohran Mamdani, eleito prefeito democrata de Nova York.

“Procurando Mamdani” é o primeiro documentário do Amado Mundo. Foto: Divulgação

Para Nachbin, a eleição de Mamdani escancara uma das faces possíveis do Partido Democrata no pós-Trump: mais ousada, progressista e conectada diretamente às dificuldades materiais da população, sobretudo a capacidade de pagar as contas no fim do mês, a chamada affordability.

Nachbin avalia que a divisão observada entre empresários nova-iorquinos após a vitória de Mamdani é natural e previsível.

Enquanto parte do setor produtivo reage com desconfiança a propostas como taxação dos super-ricos, congelamento de aluguéis e serviços públicos gratuitos, outra parcela entende que esse programa é necessário em uma cidade profundamente desigual e progressista como Nova York.

Para ele, o pacote de propostas do novo prefeito é audacioso e só se sustenta se houver enfrentamento direto na disputa por fontes de financiamento, especialmente na queda de braço com os mais ricos.

O documentarista também destacou o papel central da comunicação na vitória de Mamdani. Segundo Nachbin, a campanha abandonou formatos tradicionais e apostou fortemente em uma linguagem audiovisual pop, ousada e pensada para públicos específicos, sobretudo jovens eleitores.

Segundo ele, essa estratégia não apenas mobilizou quem já estava politizado, mas conseguiu levar às urnas pessoas que normalmente não votariam, em um país onde o voto não é obrigatório.

O jornalista e documentarista Luís Nachbin, diretor do primeiro documentário lançado pelo Amado Mundo, “Procurando Mamdani”, sobre o prefeito democrata de Nova York. Foto: Reprodução/YouTube

Por fim, Nachbin observa que a eleição de Mamdani e seu início de relação institucional com Donald Trump tornam o cenário político americano ainda mais imprevisível.

O documentário, diz ele, registra justamente esse momento de transição: o fim da campanha, o início da “vida real” da política e os desafios concretos de transformar promessas em políticas públicas em meio a resistências institucionais, disputas de poder e jogos retóricos que podem mudar rapidamente de tom.

Leia a entrevista de Nachbin ao Matinal de sexta-feira (26):

Como está a expectativa em Nova York para a posse de Zohran Mamdani, marcada para 1º de janeiro?
Mamdani representa uma das faces possíveis do Partido Democrata nas últimas eleições. Nova York acabou escolhendo uma face mais progressista, ousada, de um socialista democrata, imigrante, filho de imigrantes. Essa divisão que a gente vê no empresariado me parece natural e previsível. Há empresários que apoiam Mamdani e acreditam que ele é necessário para uma cidade como Nova York. Além disso, ele manda uma mensagem nacional de que o Partido Democrata precisa se renovar e conversar diretamente com os trabalhadores, que estão tendo muita dificuldade de pagar as contas.

Essa divisão no empresariado surpreende?
Não. Essa questão da affordability, da capacidade de pagar as contas no fim do mês, é central. O racha é previsível e esperado. Talvez não estivesse tão claro antes da eleição, mas era algo que sabíamos que ia acontecer em algum momento.

O pacote de propostas do Mamdani é viável?
É um pacote muito audacioso: ônibus gratuitos, creche gratuita, congelamento de aluguéis. Durante as filmagens, muitos apoiadores se perguntavam se isso seria possível. Agora começa a vida real da política, com entraves institucionais. Como driblar esses obstáculos vai ser o grande desafio.

A taxação dos bilionários é o ponto mais difícil?
É um ponto-chave, porque essa queda de braço precisa ser vencida para financiar todo o pacote de políticas públicas. Sem essa fonte de financiamento, fica difícil sustentar as promessas.

O encontro entre Mamdani e Donald Trump mudou o cenário? Como você interpreta esse encontro?
Foi imprevisível e surpreendente. Depois de uma campanha tão agressiva, ver um encontro amistoso muda a dinâmica. Trump tinha interesses ali: mudar a pauta midiática, embarcar na popularidade de Mamdani e também sinalizar preocupação com a economia e os aluguéis. O jogo retórico é muito cara de pau. Trump chamou Mamdani de monstro comunista, mas esse discurso pode cair e voltar a qualquer momento, dependendo dos interesses. Vai ser uma gangorra difícil de prever.

O que a campanha de Mamdani ensina sobre comunicação política?
Ele apostou fortemente no audiovisual, em linguagens ousadas, pensadas para públicos específicos. Vídeos bem construídos, câmera nervosa, estética pop. Isso mobilizou muito o público jovem e tirou gente de casa para votar. O ensinamento é claro: comunicação bem feita, direcionada e audiovisual importa muito.

Isso aponta um caminho para o Partido Democrata?
Sim. Não faz sentido um padrão único de candidatura e comunicação. As propostas e a forma de comunicar precisam variar conforme o contexto local. Mamdani mostrou que falar diretamente com a classe trabalhadora e usar bem o audiovisual pode fazer a diferença.

Assista à entrevista de Luís Nachbin ao Matinal de sexta-feira (26):

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