Letícia Duarte

De NY, análises sobre o mundo e os EUA

De NY, análises sobre o mundo e os EUA

Banner imagem do autor Banner mobile imagem do autor
Análise

Guerra no Irã: Trump quer encerrar conflito, mas não sem um discurso de vitória

Ameaças ao Irã, que culminaram num cessar-fogo temporário, vieram acompanhadas de uma ruptura significativa na base conservadora, que começa a falar em impeachment do presidente americano

08/04/2026 às 14:26 · Atualizado há 6 meses
O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que um cessar-fogo temporário foi alcançado entre os EUA, o Irã e Israel, suspendendo os ataques por duas semanas. Crédito: Alex Wong/Getty Images/AFP

Com o anúncio dos Estados Unidos e do Irã sobre um cessar-fogo de duas semanas, após Trump subir o tom e ameaçar dizimar o país persa, que também respondeu à altura, há muitas camadas a serem destrinchadas pós-acordo mediado pelo Paquistão e com apoio da China.

A primeira delas é uma reação direta a Trump: vem crescendo, embora de forma marginal, uma discussão sobre o potencial impeachment do republicano, com a evocação da Emenda 25 — para a remoção de um presidente considerado incapaz. As conversas envolvem não só a oposição, mas a própria base republicana, além de aliados históricos, que vêm tecendo críticas abertas ao líder pelas ameaças recentes de destruir a civilização iraniana.

A discussão sobre a Emenda 25 vem surgido inclusive em discursos de figuras como Alex Jones, influente na extrema-direita e historicamente alinhado a Trump. Jones afirmou publicamente que Trump estava propondo algo equivalente a um genocídio no Irã, qualificando a ameaça de “loucura”. A ex-congressista republicana Marjorie Taylor Greene, outra aliada, também pediu a invocação da emenda, defendendo que não se pode eliminar uma civilização inteira. A ruptura na base MAGA muda o nível da crise: Trump não enfrenta apenas uma guerra externa, mas um conflito interno causado por ela.

Com cessar-fogo, Trump busca construir narrativa de vitória

O acordo pelo cessar-fogo ajuda, por um lado, a diplomacia externa e, por outro, também a uma contenção do dano político. A trégua reduz uma pressão imediata e permite que Trump chegue à mesa de negociações, algo que ele já sinalizava desejar, mesmo quando o Irã negava os avanços das conversas.

Para Trump, interessa um fim rápido à guerra — desde meados de março, esta foi a terceira vez que ele adiou o ultimato dado ao Irã. Ao mesmo tempo, não interessa a ele sair do conflito sem um discurso de vitória. A escalada retórica com ameaças de destruição total era, em parte, uma estratégia para forçar o Irã a negociar, evitando concretizar ameaças que seriam crimes de guerra e poderiam levar a um conflito nuclear.

Agora, na mesa de negociações, Trump busca transformar o cessar-fogo em compromissos concretos, como a reabertura do Estreito de Ormuz, para construir a narrativa de vitorioso perante os eleitores nas eleições de meio de mandato. O discurso será o de que ele salvou o mundo de um ataque nuclear.

No entanto, para muitos analistas, sentar-se para negociar com o Irã já é uma admissão de derrota, visto que o americano agora terá que ceder em pontos. Antes, ele falava em rendição incondicional do Irã.

Alguns detalhes de como deverá ser esse acordo já começaram a emergir. O jornal “New York Times” noticiou que dois altos funcionários iranianos, em condição de anonimato, disseram que a proposta incluía garantias como: a de que o Irã não seria atacado novamente, que haveria um fim dos ataques israelenses contra o Hezbollah, no Líbano (ainda que o Líbano não faça parte desse cessar-fogo agora), além da suspensão de todas as sanções.

Em troca, o Irã suspenderia de fato o bloqueio do Estreito de Ormuz e manteria a taxa milionária por navio — que seria dividida com o Omã. O Irã diz que usaria parte dessa receita para reconstruir a infraestrutura destruída pelos ataques americanos e israelenses.

No entanto, ainda há muita incerteza sobre o que vem pela frente, até mesmo se essa trégua será, de fato, cumprida, pois existem muitos grupos envolvidos. E, depois dela, ainda não se sabe se haverá um acordo de paz. Toda essa incerteza não interessa a Trump, pois não é benéfica para a economia — nem a americana nem a mundial.

Trump calculou errado ao começar guerra

Se a negociação realmente acontecer, com os termos sendo cumpridos, o Irã pode sair com uma fonte de renda para a sua reconstrução. É preciso observar como a negociação evoluirá, e qual narrativa de vitória irá prevalecer.

De um lado, o Irã tenta dizer que conseguiu prorrogar a guerra, que não se rendeu, que conseguiu sair com pontos a seu favor, que mostrou força e não cedeu em pontos-chaves, como o poder militar, o qual continua em ação. E, do outro lado, Trump dizendo que enfraqueceu o exército iraniano, que perderam sua capacidade militar e tiveram que implorar por uma negociação, embora o mundo esteja assistindo que é justamente Trump quem tem insistido pelas negociações.

É uma marca do presidente americano esse “vai e vem”, sem que se saiba o quanto se pode confiar nas declarações públicas dele. É um momento para os dois países poderem rever suas estratégias e para o mundo respirar um pouco, com uma perspectiva de que as coisas podem melhorar. Mas as sequelas permanecem em muitos níveis, no tanto que a população civil foi afetada, além de seus aliados regionais.

Por mais que vá “vender” vitória, Trump sabe que perdeu muito. Ele fez um cálculo errado, imaginando que seria uma guerra fácil, uma ação rápida nos moldes da Venezuela, de onde poderia tirar o regime. Imaginava que a população iraniana iria às ruas para apoiar os Estados Unidos, e todo mundo celebraria e agradeceria por ter salvado os iranianos. No entanto, na realidade, a população iraniana está mais unida em torno do regime pois sente-se atacada por um poder externo.

Será necessário dar tempo para que haja uma reconfiguração de todas as relações geopolíticas pós-acordo — se é que ele vai permanecer. Mas até aqui, este é mais um sinal de boas intenções do que uma conquista.

Assista à íntegra do comentário de Leticia Duarte no Matinal desta quarta (8):

Os artigos publicados pelo Amado Mundo não refletem necessariamente a opinião do site. O objetivo ao publicá-los é estimular o necessário debate em qualquer democracia.
PLAYLISTS