Alexandre Accioly: ‘O Rio de Janeiro é um celeiro de grandes oportunidades’
Fundador da Bodytech e responsável por empreendimentos como o Roxy Dinner Show e o QualiStage, o empresário relembra a trajetória nos negócios e fala, dos desafios e das graças de investir na Cidade Maravilhosa

Para Alexandre Accioly, o Rio de Janeiro ainda deixa muitas oportunidades na mesa. Empresário que construiu negócios em áreas tão distintas quanto academias, casas de espetáculo, telemarketing e gastronomia, ele acredita que a cidade precisa assumir de vez sua vocação para o turismo e o entretenimento. Carioca “com C maiúsculo”, como se define, o empresário diz enxergar uma conexão direta entre os diferentes setores em que atua.
À frente de projetos como a rede de academias Bodytech, o Roxy Dinner Show — eleito pela revista americana “Time” um dos melhores lugares do mundo para visitar em 2025 — e a casa de eventos Qualistage, Accioly se tornou um dos empresários mais influentes do Rio de Janeiro, “dono” de quase tudo na cidade. Em comum entre os negócios está a aposta em áreas ligadas ao bem-estar, ao lazer e à convivência em uma cidade que, segundo ele, precisa investir mais nas experiências de quem vive e de quem visita.
“As pessoas estão buscando experiências. Como empresário é uma oportunidade absurda de investir e ser feliz”, disse.
Em entrevista ao Papo Amado, ele relembrou o início precoce nos negócios, quando ainda criança montou uma rede de engraxates no Leblon. Falou também dos desafios e das graças de investir no Rio e defendeu que desenvolvimento e segurança caminham juntos. “O desenvolvimento liga a luz, traz segurança, traz gente, traz movimento”, afirmou.
Leia os principais trechos da entrevista. Ou assista à íntegra em vídeo ao final do texto.
De onde que vem essa veia de empreendedorismo tão heterogênea?
O Rio de Janeiro é a minha cidade, sou um carioca apaixonado. Fui entrando no mundo do entretenimento e do bem-estar. Quando falo de bem-estar, falo nas academias de ginástica. Elas são hoje um polo importantíssimo de networking, relacionamento e convivência, ainda mais em um mundo cada vez mais digitalizado. A digitalização fez com que o bem-estar fosse a principal prioridade da família no mundo inteiro. Você pode falar que [a academia] é saúde preventiva e é [também] lazer e entretenimento.
Já no Qualistage, estamos falando de qualidade de vida. A pessoa se permite assistir um bom show, musical, peça de teatro… é lazer e entretenimento. Na gastronomia, a mesma coisa. O turismo é a essência de tudo isso. As pessoas estão buscando experiências. Como empresário é uma oportunidade absurda de investir e ser feliz. Vejo uma conexão direta entre todos os meus negócios. Tudo tem comunicação, gestão financeira, administrativa e comercial. No entanto, cada um com foco em um produto diferente.
Quem são seus pais?
Sou de uma família de classe média baixa. Os meus pais se separaram quando eu ainda tinha 2 anos de idade. A partir daí perdi completamente o contato com meu pai e vim reconstituir algum tempo depois. Meu pai era gerente da Caixa Econômica Federal, e minha mãe era decoradora. Estudei em escola pública e não fiz faculdade.
Você divide a figura do empreendedor em três: por paixão, necessidade ou vocação. Qual delas te representa?
Fui empreendedor por necessidade. Com 8 anos de idade, morava no Leblon, juntei um grupo de oito amigos próximos, peguei a minha mesada e fiz oito caixas de engraxar sapato. Botava eles na praça Antero de Quental engraxando sapato e ficava de bicicleta supervisionando o trabalho. No final do dia, pegava metade do dinheiro arrecadado e ia ao supermercado repor as coisas para o dia seguinte. Durou pouco tempo porque os pais deles descobriram e os proibiram de andar comigo.
Adolescente, você chegou a ter uma agência de figurantes.
Tinha 17 anos e namorava uma menina que ia fazer um musical para o “Fantástico”. Fui levá-la ao Teatro Fênix e quando cheguei, o Edinho, dono da agência, disse que estava precisando de figurantes e perguntou: “O senhor não quer participar, não?” Foi a única vez que trabalhei para alguém na minha vida. Gostei daquele mundo. Entre uma gravação e outra, chamei o Edinho e pedi: “Me explica como é isso?” Aí ele explicou que eles eram uma agência contratada pela TV Globo para fornecer figurantes. Minha mãe teve que me emancipar para eu poder montar uma empresa chamada Young Set Produções Artísticas. Chegou um ponto em que dominei a TV Globo inteira. Fazia quatro novelas e fornecia de 2 a 3 mil figurantes por mês.
O que deu errado?
Eu estava fazendo tudo certo. O problema é que o mercado era só da TV Globo. Ela tinha, como tem até hoje, 80% de market share. Na época, então, não tinha outras TVs produzindo novelas, programas, não existia isso. A TV Globo determinava o preço. E eu já tinha o meu limite. Como é que eu faço para crescer e mandar 10 mil figurantes por mês? Tinha que ter cinco TVs Globo e não existia cinco TVs Globo.
O seu grande pulo do gato foi com a Quatro/A, empresa de telemarketing que nos anos 2000 foi comprada pela Telefónica. Era um setor que, naquele momento, não existia.
Todos os negócios, na minha vida, um amarrou o outro. No início dos anos 1990, montei um jornal de classificados de automóveis chamado “Auto Negócio”. Os concorrentes eram “O Globo”, “Última Hora”, “O Dia” e “Jornal do Brasil”, em que o jornal era um caderno e os classificados eram outros nove. Era gigantesco, e todo mundo que recebia em casa tirava os classificados e ficava com o jornal.
Resolvi fazer um classificado especializado em carros, que correspondia a 80% dos anúncios de qualquer jornal. Com três ou quatro meses, veio o Plano Collor e confiscou o dinheiro de todo mundo. O mercado de compra e venda de automóveis acabou. Ninguém tinha mais dinheiro, as concessionárias cancelaram os anúncios, e eu fechei o jornal.
Ficaram todas aquelas linhas telefônicas ali, e foi quando resolvi vender assinaturas da revista Veja por telefone. Ali nasceu a Quatro/A Telemarketing. Foram sete anos empreendendo ali, graças à Abril.
E a vinda para o Rio de Janeiro?
A minha paixão sempre foi empreender. Brilha meus olhos, me dá vontade de me relacionar com as pessoas e construir coisas. Depois as coisas entram numa rotina… Eu particularmente quero estar sempre fazendo coisa nova. Depois que vendi a Quatro/A, queria trazer para o Rio de Janeiro as coisas de que eu gostava muito em São Paulo. Primeiro foi o Grupo Fasano. Eu era um cliente assíduo do Parigi e do Gero e muito amigo do João Paulo Diniz, que era sócio do Rogério Fasano. Juntos, montamos o Gero Rio, em Ipanema. Em seguida, montamos o Forneria. E assim foi andando.
Como é a sua relação com o Rio?
Estamos vivendo uma fase maravilhosa no Rio de Janeiro. A minha rotina é a Bodytech, o Roxy, Casa Tua, Jardim de Alah e Qualistage. Eu curto e vivo as coisas de que participo. Sou nascido carioca, com C maiúsculo, com muita autoridade, porque conheço, vivo e penso como a cidade. E torço pela cidade.
Hoje vejo uma cidade totalmente voltada para o turismo, que sempre foi e sempre deveria ter sido a nossa vocação estratégica, com políticas públicas. Vejo a cidade e os governantes totalmente alinhados com essa única forma de o Rio de Janeiro se desenvolver e se diferenciar no Brasil. Quando você investe em eventos, você traz o público.
Qual o papel do Roxy nessa engrenagem?
Penso em melhorar a experiência do público no Rio de Janeiro. Não tenho a menor pretensão que alguém pegue um avião de Tóquio, Nova York ou Paris e venha para o Rio ir ao Roxy. Mas tenho a convicção de que o turista que chega ao Rio, o Roxy melhore a experiência dele na cidade. De manhã, ele tem as praias, os museus, o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar… E à noite? O Roxy nasceu com essa pretensão de ajudar a contribuir com a experiência da cidade. Estou me envolvendo em projetos que melhorem a experiência do turista. E se melhora a do turista, melhora a do carioca. 95% do meu público é turista, fiz o Roxy para isso.
Virou quase um lugar-comum dizer que tudo o que dá errado no Rio é culpa da segurança pública. Na sua visão, quanto das dificuldades da cidade realmente se explica pela segurança e quanto vem de outros entraves?
A segurança, sem nenhuma dúvida, é um problema, mas não é um problema só do Rio. É um problema do Brasil inteiro. Todas as grandes capitais têm problemas de segurança pública. O Rio de Janeiro tem um problema de segurança muito sério, que são as milícias, o que prejudica o investimento, limita a cidade e gera insegurança, porque a mídia de uma guerra de milícias e de traficantes ecoa no Brasil inteiro. E tudo o que acontece no Rio de Janeiro tem um eco enorme.
A população de Copacabana só frequenta a Avenida Atlântica e a praia de Copacabana: a Avenida Atlântica, à noite, e a praia, de dia. As ruas de dentro são desertas. Graças ao Roxy, a área aqui agora tem movimento noturno. Tem que ter vários Roxys. O desenvolvimento liga a luz, traz segurança, traz gente, traz movimento. É um problema sério que nós temos, mas uma das melhores maneiras de se dar segurança é investindo em ocupação. O Rio de Janeiro é hoje um celeiro de grandes e ótimas oportunidades.
Assista à íntegra da entrevista de Alexandre Accioly ao Papo Amado.