Entrevista

Antonia Pellegrino: ‘A TV pública pode fazer o que o setor privado não consegue’

Em entrevista ao Papo Amado, a presidente da EBC, Antonia Pellegrino, defende a comunicação pública, explica como ampliou investimentos na TV Brasil e reflete sobre novelas, feminismo e mulheres no poder

Publicado em 12/07/2026 às 06:00
Antonia Pellegrino em entrevista ao Papo Amado
Antonia Pellegrino em entrevista ao Papo Amado (Foto: Amado Mundo)

A comunicação pública existe para atender ao cidadão, não ao mercado. Para a presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Antonia Pellegrino, é essa diferença que permite oferecer informação de qualidade e conteúdos culturais que dificilmente encontrariam espaço apenas sob a lógica da audiência e da publicidade. “Você tira um ator importante da história. E o que você coloca no lugar? O compromisso com o cidadão”, afirmou em entrevista ao Papo Amado.

Roteirista premiada, escritora, ativista feminista, Pellegrino falou sobre o desafio de comandar uma das maiores empresas de comunicação pública do mundo em um cenário de consumo cada vez mais fragmentado. Explicou como articulou parcerias que ampliaram os recursos destinados à programação da TV Brasil, analisou as transformações da telenovela brasileira a partir de sua experiência como colaboradora de autores como João Emanuel Carneiro e Miguel Falabella e refletiu sobre a presença feminina nos espaços de decisão. 

“A imagem do poder é masculina. O imaginário sobre poder é todo formado por homens, na cultura e na política. Uma mulher num espaço de poder é como um erro cognitivo. Se for uma mulher negra, mais ainda. A cabeça está acostumada, há séculos, com outra imagem”, refletiu. 

A conversa também revisitou um dos episódios mais marcantes de sua trajetória como ativista. Pela primeira vez, Pellegrino contou em detalhes como ajudou a tornar pública a denúncia de assédio sexual feita pela figurinista Su Tonani contra José Mayer, relembrou a criação do movimento #AgoraÉQueSãoElas e avaliou o impacto da mobilização no debate sobre violência contra a mulher. 

A seguir, leia os principais trechos da entrevista. Ou assista à íntegra em vídeo ao final do texto.

A roteirista que assumiu a TV. Que plot twist, não?

A minha mãe entrou na TV Globo como estagiária e fez uma carreira lá como figurinista. Sempre tive esse trânsito e sonhei em trabalhar com televisão. Sempre quis fazer novela. Trabalhei com isso por muitos anos e depois fui fazer séries. Chegou um momento que resolvi mudar de carreira. Fui me preparando para uma transição, mas me tornar presidente da EBC foi uma grata surpresa.

Antes mesmo de virar presidente da EBC, como diretora, uma das coisas notáveis que você estava conseguindo fazer era trazer dinheiro para a comunicação pública. Como?

Na responsabilidade da Diretoria de Conteúdo e Programação, a gente tinha na época R$ 23 milhões para fazer tudo… ou nada. [O caminho se abriu quando] recuperamos, junto ao Ministério da Cultura, um edital censurado. Tinha R$ 70 milhões em obras já pagas, e elas não tinham sido recebidas pela TV Brasil. Remontamos este edital e firmamos parceria com a Ancine. Ao mesmo tempo, a Lei Paulo Gustavo estava chegando. Fui falar com o presidente do Fórum de Secretários de Cultura e fizemos uma parceria maravilhosa. A EBC recebeu mais de 800 obras de todo o Brasil. Um dinheiro que a gente não gastou. 

Em 2024, a TV Brasil lançou edital de R$ 110 milhões para produções audiovisuais independentes, incluindo a produção da primeira novela original da emissora pública. (Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil)

Como é ser colaboradora em uma equipe de roteiristas de novela?

Eu tive a oportunidade de trabalhar com dois mestres: João Emanuel Carneiro e Miguel Falabella. E eles são diametralmente opostos. O João, na época, era um cara da estrutura. Quando a novela entrava no ar, ele mandava a escaleta para os colaboradores. Cada um ficava responsável por um núcleo de personagens. Já o Miguel é diferente. Ele é um cara do teatro e do improviso. O que ele mais gosta é de saborear o diálogo. 

O que mudou no gênero novela e para onde vai esse grande produto da televisão brasileira?

Novela é uma criação mexicana. Mas a gente trouxe o melodrama para uma embocadura brasileira. Hoje em dia, por que a audiência diminuiu? As novelas não ficaram piores. O que mudou? Mudou o público, a fragmentação e a forma de consumir conteúdo. Isso não quer dizer que a novela vai deixar de ser importante. 

Em 2017, saiu no #AgoraÉQueSãoElas, editado na Folha de S.Paulo por você e Manoela Miklos, o artigo “José Mayer me assediou”, uma denúncia de assédio sexual feita pela figurinista Su Tonani. Como foi?

Soube da história dessa figurinista, a Su Tonani, que estava sendo assediada pelo Zé Mayer ao longo de uma novela. Procurei-a e perguntei: ‘Você quer falar?’. Ela disse: ‘Quero’. E começou a relatar que ele pegava nas partes íntimas dela na frente das pessoas, fazia brincadeiras constrangedoras na frente de todo mundo. Estamos falando de um homem numa posição de muito poder e de uma assistente de figurino. Sou filha de figurinista e sei o que a minha mãe passou. Ela [Su] mandou o texto. Esperamos o último capítulo da novela para publicar o relato naquele dia.

Leia também: Antonia Pellegrino conta pela primeira vez como ajudou a tornar pública denúncia contra José Mayer

O quão importante foi esse episódio para o feminismo no país?

A gente pegou um tema que é do feminismo, que é a luta contra o assédio sexual, e pautou isso na cultura. Até hoje, segue sendo a maior campanha de enfrentamento ao assédio sexual do Brasil. 

Como surgiu o  #AgoraÉQueSãoElas?

Em 2015, houve um grande levante feminista nas ruas, que ficou conhecido como “Primavera das Mulheres”. [A Manoela e eu nos aproximamos naquele momento], a gente se questionou ‘como fazer essa onda seguir?’. Chamamos de #AgoraÉQueSãoElas, que foi a ocupação desses espaços de homens.

O compromisso do governo com a ampliação da presença feminina nos espaços de poder está sempre em debate. Como é que você, sendo uma das poucas mulheres à frente de um órgão público com a importância que a EBC tem, vê essa questão? 

A questão das mulheres nos espaços de poder é uma questão muito antiga. A imagem do poder é masculina. O imaginário sobre poder é todo formado por homens, foi forjado ao longo de anos por homens, na cultura e na política. Então, uma mulher num espaço de poder é um erro cognitivo. Se for uma mulher negra, mais ainda. Porque a cabeça está acostumada, há séculos, com outra imagem. Sempre orientei o meu trabalho como ativista no sentido de incidir no imaginário. É a partir daí que a gente vai conseguir uma transformação mais profunda. 

Qual a importância de se ter uma TV pública no Brasil?

A comunicação pública não é pautada pela questão da publicidade. Então, você tira um ator importante da história. E o que você coloca no lugar? O compromisso com o cidadão. Coloca também conteúdos que, eventualmente, no setor privado, por causa da busca por receita, não vão performar. Mas, no setor público, eles podem estar, porque são importantes para formar olhar, cidadania, pensamento crítico.

Assista à entrevista completa com Antonia Pellegrino:

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