Antes de mea culpa da Globo, Maeve Jinkings criticou desenvolvimento de casal lésbico em ‘Vale tudo’
Estudo recente da Globo apontou críticas ao casal Cecília e Laís em 'Vale tudo'. Meses antes, Maeve Jinkings já cobrava mais profundidade para personagens LGBTQIAPN+ na TV aberta

Impulsionada pela repercussão positiva de Lorena (Alanis Guillen) e Juquinha (Gabriela Medvedovsky), casal de “Três Graças” que conquistou o público e ganhou status de fenômeno nas redes sociais, a Globo revisitou recentemente a forma como retrata personagens LGBTQIAPN+ em suas novelas. Em uma pesquisa apresentada ao mercado publicitário na última semana, a emissora apontou a dupla como exemplo positivo e reconheceu as críticas à falta desenvolvimento de Cecília e Laís, personagens de Maeve Jinkings e Lorena Lima em “Vale tudo”, como um caso de representação que gerou insatisfação entre parte do público.
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Realizado com mil entrevistados em todas as regiões do país, o levantamento concluiu que a maioria dos brasileiros não se incomoda com demonstrações de afeto entre pessoas do mesmo sexo na televisão. Segundo a pesquisa, o público já não rejeita beijos LGBTQIA+ em novelas nem tampouco aceita o apagamento dessas histórias.
Meses antes de a própria emissora reconhecer o problema, Maeve Jinkings já fazia uma avaliação semelhante. Em entrevista ao Papo Amado, um dia após a exibição do último capítulo de “Vale tudo”, em outubro de 2025, a atriz afirmou que o romance entre as personagens perdeu a oportunidade de alcançar maior densidade dramática e emocional. Mais do que a ausência de beijos ou cenas de intimidade, Maeve lamentou a dificuldade de desenvolver a humanidade e a complexidade daquele vínculo na tela.
“Eu sabia que não íamos performar a afetividade como os casais heterossexuais, mas, ainda assim, a diferença foi grande demais”, disse.
Conhecida por personagens marcantes em produções como “Aquarius”, “Boi neon”, “DNA do crime” e “Os outros”, Maeve também refletiu sobre os desafios de interpretar uma personagem LGBTQIAPN+ na televisão aberta em um momento de avanço do conservadorismo. Sem atribuir responsabilidades individuais à direção ou à autora da novela, a atriz afirmou que esse é um debate que ultrapassa os limites de “Vale tudo” e expõe uma questão histórica da dramaturgia brasileira: a dificuldade de conceder aos personagens LGBTQIAPN+ o mesmo grau de complexidade reservado aos casais heterossexuais. Ainda assim, reconheceu a importância da novela em levar essa discussão para milhões de espectadores.
Leia abaixo os principais trechos da entrevista.
Em “Vale tudo”, houve grande expectativa para que o romance entre duas mulheres fosse desenvolvido de forma plena, mas isso não aconteceu. Como você reagiu?
Eu tinha essa expectativa, como todo mundo. Esperava que o casal tivesse um desenvolvimento mais robusto, por tudo que “Vale tudo” significou em 1988, uma obra ousada e disruptiva em muitos sentidos. Ainda que de maneira tímida, o casal se tornou um ícone. Não tinha beijo, mas a solução foi fascinante: elas fumavam o mesmo cigarro, tinha uma maneira de se relacionarem fisicamente. Foi um grande avanço. A TV aberta tem um histórico de pequenos avanços. É um debate público, que vai além do remake. Diz respeito a todo um histórico de representação de casais homoafetivos na televisão aberta. As decisões em torno dessas representações carecem de sensibilidade, e digo isso com respeito, porque não é sobre a equipe de “Vale tudo”. Matar um personagem LGBTQIAPN+ é uma solução fácil de lidar com o incômodo, mas não tira o elefante branco da sala.

Faz mais de dez anos do beijo de Félix e Niko em “Amor à vida”. De lá para cá, a gente evoluiu ou retrocedeu?
Compreendo isso e não tenho o romantismo de achar que “temos que ser disruptivos”, até tenho isso na minha vida. Mas em uma telenovela, com 30 ou 40 milhões de espectadores por dia, é preciso cuidado. Entrei muito consciente disso. Nunca achei que teríamos cenas de sexo ou muitos beijos, como os casais heterossexuais.
O que você esperava para a personagem?
Humanização. Um desenvolvimento mais coerente e denso. Somos capazes de humanizar qualquer personagem, até vilões. Sendo justa com a direção e a autoria, acho que havia esse desejo no princípio e se tentou fazer isso. Você pode gostar ou não da forma como foi feito. O casal tinha uma coisa luminosa, a música, Paraty, uma atmosfera solar. Mas acho que essas instâncias que tomam decisões poderiam ter mais interesse e uma escuta genuína. Quando a gente invisibiliza ou perde a chance de humanizar a afetividade delas, o desnível fica brutal. Eu sabia que não íamos performar a afetividade como os casais heterossexuais, mas ainda assim a diferença foi grande demais.
Como atriz e mulher bissexual, o que muda pra você quando interpreta uma personagem LGBTQIAPN+ em comparação às personagens heterossexuais que já fez?
A relação que tenho hoje com a minha companheira é a primeira com uma mulher. Minha vida inteira foi com homens e, como atriz, vivi personagens heterossexuais. Consigo perceber a diferença dramatúrgica e corporal. A liberdade que eu tinha com personagens masculinos era outra. A dramaturgia explorava minha sexualidade de um jeito muito mais livre. Durante muito tempo fui vista como uma mulher muito erotizada no audiovisual, e tudo bem, não tenho problema moral com isso, e é um debate que também me interessa. Mas, quando vou para uma personagem LGBTQIAPN+, parece que isso não pode. É a repetição de um discurso social: “Posso até tolerar sua existência, mas, por favor, seja discreto”. Isso é muito violento.
Você tentou conversar isso internamente? Teve acolhimento?
Sim. Queria muito ter esse cuidado e, por isso, evitei conversar durante a novela com jornalistas, mesmo quando sentia interesse. Queria complexificar o debate, não personalizar. Não tenho interesse em gerar nenhum tipo de violência contra a Manuela Dias ou o Paulo Silvestrini, porque não é sobre isso. A Globo é feita de uma diversidade enorme de pessoas, com personalidades e inclinações diferentes, e muita gente ali torcia por esse casal e tentou coisas. A internet passou do limite na violência com a própria Manuela. Como mulher, isso me incomodou. Existe um pequeno monstro de moer mulheres, sempre à espreita. O que desejo é que o debate seja feito com mais complexidade e implicação coletiva.
Tem uma questão industrial por trás. Não dá para fulanizar na Manuela ou no Silvestrini.
Tem um aspecto que é um mérito do remake de “Vale tudo” — goste, odeie, faça “hate watching” ou seja fã da novela — que me lembrou algo que senti no cinema: a alegria de ver as pessoas voltando. Quando vi o bloquinho de Carnaval com o tema da novela, ou amigos marcando festas para assistir ao último capítulo, pensei: “Há quanto tempo não vivíamos isso?”. Fiquei com o gostinho de “puxa, podíamos ter avançado mais”, mas, para uma grande parcela do Brasil, foi incrível. Foi a primeira vez que duas mulheres foram retratadas em dupla maternidade. E a novela tem esse papel, ela coloca um debate sobre a mesa. Esse debate me interessa, me implica como artista e como mulher LGBTQIAPN+, mas acho que ele precisa ser feito com responsabilidade.
Assista à segunda parte do Papo Amado com a atriz Maeve Jinkings: