Futebol é arma política, e a ‘Copa das Fronteiras’ prova isso, diz Jamil Chade
O jornalista e autor do livro "A Terra Redonda", Jamil Chade, aponta que o futebol continua sendo uma linguagem universal de resistência e identidade, mesmo quando os donos da bola tentam transformá-lo em um instrumento de poder

A Copa do Mundo de 2026 mal começou e já carrega um título controverso: a “Copa das Fronteiras”. Entre o brilho da festa de abertura e os primeiros gols em campo, o que se vê nos bastidores é um torneio marcado por vistos negados, delegações sujeitadas a uma série de embaraços e um clima de tensão diplomática que ameaça colocar o esporte em segundo plano. Para o jornalista Jamil Chade, convidado do Matinal, programa do Amado Mundo, desta sexta-feira (12/6), essa confusão não é um erro de percurso, mas reflexo de como o futebol é, e sempre foi, uma arma e uma arena de disputa política.
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“O que a gente está fazendo, no fundo, é reivindicar o futebol como uma arena legítima para que nós, torcedores, jornalistas, analistas, possamos também utilizar o futebol como uma arma política extremamente poderosa, com uma energia gigantesca e com muita história para contar”, afirmou.
Ele acaba de lançar, em parceria com a também jornalista Milly Lacombe, o livro “A Terra Redonda”, que define como um “bate-bola sobre política, paixões e futebol”. Segundo Chade, a ideia de que “política e futebol não se misturam” é uma falácia alimentada por quem deseja manter o monopólio da politização do esporte, especialmente a Fifa (Federação Internacional de Futebol Associado).
Dois pesos e duas medidas na Fifa
O jornalista recorda que, no passado, a Indonésia teve sua candidatura para sediar o Mundial retirada porque não garantiu a entrada da seleção de Israel. Agora, diante de um governo americano que impõe barreiras severas a torcedores de países como Haiti, Senegal e Costa do Marfim, e criou toda série de constrangimentos à seleção do Irã, a reação do presidente da Fifa, Gianni Infantino, foi de total complacência.
“Existe uma regra para a superpotência e outra para o resto do mundo”, analisou Jamil Chade.
O silêncio da Fifa diante da deportação do árbitro somali Omar Artan, um dos melhores do continente africano, barrado sob alegações genéricas de segurança e “suspeita de ligação com terrorismo”, é, para Chade, o ponto mais baixo dessa conivência.
O fantasma da Copa de 1934 e o controle de Trump
Segundo ele, a única vez que se viu um controle tão absoluto de um líder político sobre um Mundial foi em 1934, com Benito Mussolini na Itália. Na época, o ditador fascista ditava calendários, escolhia árbitros e chegou a oferecer sua própria taça ao campeão.
Hoje, de acordo com o correspondente internacional,o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, parece ditar as regras das fronteiras, e a Fifa, que em 2014 suspendeu leis no Brasil para vender cerveja e no Catar ignorou tradições locais, agora simplesmente se curva ao governo americano.
A camisa amarela: entre o sequestro e a magia
O debate político também atravessa a identidade nacional brasileira. No livro, Chade e Lacombe divergem sobre o futuro da camisa amarela. Enquanto Milly defende uma ruptura e a adoção de uma camisa vermelha para a seleção, Jamil é mais cauteloso.
Como correspondente que já percorreu mais de 70 países, ele relata que a camisa amarela ainda é um símbolo muito forte de soft power, forma de um país influenciar outros sem coerção, e magia no exterior, desconectada das disputas ideológicas domésticas.
“Ela ainda é o sol que ilumina”, diz ele, defendendo que o Brasil busque o fim do “sequestro” do uniforme em vez de aposentá-lo.
Confira o Matinal desta sexta-feira (12/6) na íntegra: