Reportagem

Helder Maldonado: ‘Corrupção do Master, que estourou sob Lula, pode prejudicar a esquerda’

Para jornalista, do canal 'Galãs Feios', é fundamental a esquerda não 'passar pano' para figuras do Judiciário, como o ministro Alexandre de Moraes

23/03/2026 às 15:19 · Atualizado há 7 meses
Sede do Banco Master, em São Paulo, tem sua logo coberta por plástico e tapumes na porta após escândalo bilionário no sistema financeiro do país (Foto NELSON ALMEIDA / AFP)

Com a iminência de uma delação premiada do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, uma pergunta que vem sendo feita é: afinal, o escândalo do Banco Master é uma mancha na direita, um problema da esquerda ou um sintoma de um sistema corrompido?

No Matinal desta segunda-feira (23), Guilherme Amado e Beatriz Bulla receberam Helder Maldonado, do canal de YouTube Galãs Feios, para detalhar as conexões que ligam o banco a governadores, cúpulas de igrejas e ao Judiciário. O jornalista, que acaba de lançar o livro “É possível unir o Brasil? O sonho improvável de um Brasil sem treta no grupo da família” (Ed. Planeta), coloca na mesa os dados mais recentes sobre o caso que virou uma bomba em Brasília em pleno ano eleitoral e alerta para o perigo da idolatria de membros do Judiciário, entre outros pontos.

Para Maldonado, é fundamental que a esquerda não caia na armadilha de “passar pano” para figuras do Judiciário, como o ministro Alexandre de Moraes, caso surjam irregularidades. 

“É bom que isso aconteça para que a esquerda não caia na mesma armadilha que a direita caiu lá atrás em idolatrar um membro do judiciário. O Alexandre de Moraes é um democrata, mas é uma figura pública com histórico de ligação com a direita brasileira”, alerta.

Sobre a promiscuidade entre fé e esquemas financeiros no caso Master, ele é categórico: “A partir do momento em que as igrejas se fundem com partidos políticos e se transformam em bancos, aquilo ali já deixou de ser apenas um veículo de fé. Transformou-se em um monstrengo”.

Leia a entrevista abaixo ou assista ao vídeo inserida no final do texto.

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Matinal: Embora a maioria dos políticos e fundos envolvidos até agora sejam ligados à direita, a percepção pública parece dividida ou até inclinada a culpar a esquerda. Por que o “carimbo” da corrupção ainda cola mais de um lado do que de outro?

Helder Maldonado: Porque a bomba estoura no governo do Lula, a percepção, na minha opinião, da opinião pública sobre isso é a seguinte, quando estoura num determinado governo, a culpa passa a ser daquele governo, mesmo que o governo de turno, na verdade, seja o responsável por investigar e fazer com que esse escândalo seja conhecido da população, porque isso já rola desde o governo Bolsonaro, passou por baixo do nariz do [ex-presidente do Banco Central, Roberto] Campos Neto, e nada foi feito. Só agora é que se tem feito alguma coisa para tentar acabar com essa situação, que é uma situação que impacta muito no FGC, é um rombo absurdo, e existe agora a investigação que pode ter os nomes das pessoas envolvidas. Vamos saber se o Daniel Vorcaro é testa de ferro ou pau-mandado de alguém. E sabemos também todos os vínculos do Banco Master com igrejas evangélicas, com a Faria Lima, com os políticos do Centrão. No entanto, apesar de tudo isso por ter estourado durante o governo Lula, eles ficam usando aquele argumento de ah, tá vendo, quando o PT, quando o Lula volta ao poder, todo esse tipo de corrupção acontece. como na verdade veio à tona porque houve um esforço para que isso fosse desvendado. 

O caso revela que Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, foi o maior doador individual das campanhas de Bolsonaro e Tarcísio. A esquerda está falhando em comunicar esse elo direto da direita com o operador do esquema?

Não sei se mal explorado, porque já tem um problema crônico de comunicação na esquerda, de como chegar até o público final, a questão é que o governo também tem as limitações dele nesse sentido, certo? O ponto é que quando a gente pega toda essa história sobre corrupção, que vem desde lá do Mensalão, depois Petrolão e tudo mais, existe uma tentativa de desgastar apenas a esquerda. E se você pegar o histórico de políticos do Centrão, Ciro Nogueira, prefeitos de interior, governadores de estado, a gente tem escândalo acontecendo em tudo quanto é canto, desde sempre. E muitas vezes, na maioria das vezes, com o envolvimento de nomes do PP, do PL, do União Brasil, do Republicanos. Mas isso fica abaixo do radar. E todo dia acontece. Todo dia você vê um nome de um desses partidos envolvido em corrupção. Só que fica abaixo do radar, me parece que há até uma força-tarefa da mídia hegemônica, dos próprios influenciadores de direita, de só dar o destaque para quando acontece com alguém minimamente ligado à esquerda. É uma luta inglória, porque quando você fala de mídia hegemônica, você está falando de grande parte do que é consumido pelo público aqui no Brasil. Veja: um PowerPoint como aquele feito pela TV Globo recentemente, que coloca a esquerda e o PT próximos do escândalo do Banco Master, é consumido por muita gente ainda. As pessoas ainda consomem muito notícia via TV, via rádio. Infelizmente, a abordagem que se dá acaba se tornando a abordagem que as pessoas também vão usar para comentar sobre esse caso. Quando passa na Globo se torna a verdade. Aquilo que foi feito é uma maneira também de você manipular como as pessoas entendem o escândalo. 

Uma unidade da Igreja Lagoinha recebeu R$ 41 milhões ligados ao grupo. A instituição alega desconhecimento. É possível acreditar que cifras dessa magnitude passem despercebidas pela administração?

Respeitamos a fé e as religiões, mas é fato que muitas instituições acabam sendo instrumentalizadas para o cometimento de crimes. A afirmação da Igreja Lagoinha de que desconhecia o recebimento de R$ 41 milhões do Banco Master por sua unidade em Minas Gerais subestima a inteligência pública. Não estamos tratando de R$ 41 mil ou R$ 410 mil — valores que já seriam vultosos —, mas de R$ 41 milhões. Mesmo que a premissa de que a família Valadão ignorava as cifras, isso revelaria uma falha gravíssima de gestão: é implausível administrar uma organização sem perceber o trânsito de R$ 41 milhões em uma única unidade. A estratégia parece basear-se na confiança cega dos fiéis na palavra do pastor e na narrativa de perseguição religiosa, mas a questão aqui não é intolerância.

A partir do momento em que igrejas se fundem a partidos políticos e operam como bancos, deixam de ser veículos de fé para se tornarem um ‘monstrengo’ institucional. Dados da apuração indicam que uma empresa ligada à Lagoinha recebeu R$ 3,9 milhões, além de registros de movimentações que chegam a R$ 41 milhões em repasses associados a Fabiano Zettel. Há indícios claros de uso da estrutura religiosa para lavagem de dinheiro. Então é muita grana envolvida e também uma forma de usar, aparentemente, a igreja como uma forma de lavar dinheiro, esquentar uma grana. Quando a gente critica isso, me desculpe, a pessoa também precisa fazer autocrítica. Eu estou colaborando com uma entidade que está envolvida em tanta sujeira assim, é o certo, eu devo continuar a frequentar essa igreja, porque a crítica que está sendo feita não é a fé das pessoas, é como elas estão sendo manipuladas por esses pastores, ou falsos pastores, cuja última preocupação deles talvez seja com a fé mesmo.

Helder Maldonado, do canal Galãs Feios.

O caso Master também cita nomes de ministros do STF, como Alexandre de Moraes. Como a esquerda deve reagir quando figuras que foram essenciais na defesa da democracia aparecem em contextos de investigação de corrupção?

Vejo isso com a seguinte definição: é bom que isso aconteça para que a esquerda não caia na mesma armadilha que a direita caiu lá atrás: a de idolatrar um membro do Judiciário, como aconteceu com o Sérgio Moro [na Operação Lava Jato] e também com a esquerda. Nós temos um Judiciário que é extremamente problemático. Hoje a direita critica muito o Judiciário, mas lá atrás a esquerda também fazia suas observações pontuais, principalmente na questão de compliance. Nós temos um judiciário que é extremamente envolvido com empresas que são julgadas por eles, empresários, nomes dos quais eles deveriam manter uma certa distância. No caso do Alexandre de Moraes, a gente tem que celebrar que ele fez a obrigação de tentar conseguir salvar a democracia, nos livrar de um golpe. Isso a gente tem que reconhecer de fato, mas também não coloca ele numa posição de intocável, de incriticável.

Lembrando que o Alexandre de Moraes foi indicado pelo Michel Temer, num governo ilegítimo que só aconteceu por meio de um “golpe branco” contra uma presidenta que foi eleita legitimamente pelo povo brasileiro. Moraes também tem um histórico de filiação ao PSDB, de apoio a governos tucanos, então, antes de mais nada, é bom a gente colocar as coisas em panos limpos. Ele é um democrata, não é um golpista — como o bolsonarismo costuma ser —, mas ele é uma figura pública com histórico de ligação com a direita brasileira. Uma direita democrática, que aceita o jogo e aceita perder. Mas ele não é um cidadão de esquerda. Mesmo quando ele toma atitudes para barrar um golpe bolsonarista, isso não o transforma em um sujeito de esquerda. Então a gente precisa averiguar as coisas, qual é o envolvimento dele ou da mulher dele com esse caso, mas de nenhuma forma eu acredito que seja bom para a esquerda, para o governo ou para quem quer que seja, passar pano para a irregularidade.

Matinal: Você acaba de lançar um livro sobre a polarização no Brasil. Diante de escândalos que misturam fé, dinheiro e política, ainda há esperança de um convívio familiar sem “tretas” constantes?

O próprio título do livro é uma provocação. Embora a gente sempre tenha tido um país dividido, até determinado momento não tinha tanta treta por política. Você namorava com uma pessoa que pensava diferente de você, você convivia com aquele amigo que você sabia que votava num político que você não gostava, e estava tudo do certo. Mas, com o advento do bolsonarismo, vimos que as pessoas acabaram entrando de vez nessa onda da polarização. Entendo que a polarização acontece pelo motivo de o bolsonarismo radicalizar essas pessoas, e muitas delas perderem a vergonha de defender determinadas pautas. Por outro lado, acredito que a esquerda tenha razão em não querer se misturar com pessoas que defendem certos absurdos. Do meu ponto de vista, ela surge, no caso da esquerda, de uma forma defensiva. Foi um grande choque descobrir que algumas pessoas do meu convívio defendiam o Bolsonaro e o pensamento do Bolsonaro. Hoje eu acredito que a gente tem uma cisão muito menor. Em 2018 foi muito pior, em 2022 também estava tenso, mas hoje é muito menos.

Converso com amigos que moram em outros estados, e o que percebo muito é que quem ainda apoia o Bolsonaro ou o bolsonarismo, muitas vezes o faz de forma discreta. Até para conviver em sociedade.

Assista à íntegra da entrevista de Helder Maldonado ao Matinal desta segunda (23):

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