Uma conversa sobre intuição e ‘inteligência ancestral’ com Petria Chaves
Em entrevista ao Matinal, a jornalista e escritora analisa o lugar da intuição em uma cultura marcada pela racionalidade e pelo excesso de informação

A intuição costuma ser tratada como imprecisa, subjetiva ou pouco confiável, algo que escapa às métricas e à lógica racional que organiza a sociedade. Para a jornalista e escritora Petria Chaves, no entanto, ela é uma forma de inteligência inata, um tipo de faro que opera mesmo quando não se sabe explicar de onde vem, que atua no corpo, faz parte de um inconsciente coletivo e se expressa nas conexões estabelecidas com os outros.
Autora de “Como sei o que sei: o desenvolvimento da intuição como trilha para a nossa inteligência ancestral” (Editora Planeta), Petria participou do Matinal para falar sobre o papel da intuição em um contexto marcado pelo excesso de estímulos e pela dificuldade de escuta. Ela explicou que o descrédito em torno da intuição é uma questão cultural, ligada à valorização da racionalidade como critério quase exclusivo de legitimidade ao longo do tempo.
Na conversa, a jornalista, que também é apresentadora do programa “Revista CBN”, defendeu que a intuição não se opõe à razão e só se manifesta de forma mais clara quando as emoções estão organizadas. Para ela, comunicar-se bem exige mais do que informação: passa por presença, atenção e uma “escuta de corpo inteiro”.
A seguir, leia os principais trechos da entrevista. A íntegra em vídeo pode ser assistida ao final do texto.
O que é a ‘inteligência ancestral’ que você explora no seu livro?
A inteligência artificial, que não é inteligência, só vai pegar, com maior velocidade, o que já está na rede, o que o humano já produziu. A IA a que me refiro é a “inteligência ancestral”, [conceito que surgiu] a partir da conversa com neurocientistas, pensadores indígenas, mulheres anciãs sábias, psiquiatras e médicos, e é uma inteligência inata que nós temos. Precisamos desenvolver, porque ela pode estar no nosso corpo, mas também no inconsciente coletivo, nas conexões que fazemos com os outros, em que a ciência cada vez mais se debruça para entender. É uma inteligência ancestral que nos acompanha desde os primórdios das civilizações, que nos ajudou a crescer enquanto civilização, mas que também hoje, com esse tempo tão apressado, em que a gente vive no medo, no modo luta ou fuga, no consumo de tanta informação, em que a gente fica desinformado, é uma inteligência que não está tão fácil de acessar. E é por isso que falta tanta sabedoria e amadurecimento emocional.
“A boa intuição vai acontecer quando a gente tem emoções organizadas. A intuição e a razão precisam andar juntas. Ela acontece a partir de um lugar de sabedoria e de um intelecto muito claro, muito afiado, para que, quando essa informação subjetiva vem, o intelecto vá atrás. É uma característica humana de discernimento”
Você defende que a intuição é uma ferramenta muito poderosa na vida. Por que você acredita nisto?
A intuição é justamente esse faro, esse cheiro, essa descoberta de que tem alguma coisa ali, mesmo que a gente não saiba. Só que a gente não fala sobre isso porque a intuição foi taxada como algo menor, algo místico. Ela está muito conectada ao feminino simbólico, ao subjetivo, àquilo que não dá para provar. Não tem como medir a intuição. A neurociência busca descobrir se existe algum local no cérebro onde estaria o mecanismo da intuição, mas ainda não se chegou a isso. A intuição é uma ciência que acontece em outra lógica.
E por que se tem esse receio em falar de intuição? Porque, nos últimos séculos, a gente teve o advento da racionalidade como único valor para se destacar na sociedade. Não é só uma questão de desconfiança, é uma questão cultural. A objetividade é muito importante, a ciência é fundamental, mas a gente não pode ter isso em detrimento do subjetivo, do que a gente sente, desse faro, que é muito diferente do que é místico.
A boa intuição vai acontecer quando a gente tem emoções organizadas. A intuição e a razão precisam andar juntas. Ela acontece a partir de um lugar de sabedoria e de um intelecto muito claro, muito afiado, para que, quando essa informação subjetiva vem, o intelecto vá atrás. É uma característica humana de discernimento.

Você fala do excesso de estímulos e da dificuldade de conexão na economia da atenção. Como se comunicar, no dia a dia, de forma leve e profunda, em meio a tanta informação e a estímulos que exigem velocidade e intensidade constantes?
A boa comunicação, a fala assertiva, amorosa ou conectada, se faz a partir do treino do silêncio. E não é o silêncio de se calar, não. É um silêncio contemplativo, com momentos saudáveis de reflexão, de discernimento, de organização das próprias ideias. Para que, quando você fale, tenha clareza daquilo que quer comunicar. E a comunicação não é só a fala. É o corpo inteiro que se comunica. Hoje, na comunicação, é a fala e o cérebro. Por isso escrevi o livro, que é um manifesto para a gente integrar o intelecto com essa inteligência do coração. Tudo que é sentimento parece menor, mas isso não é menor, é fundamental para os nossos dias. A intuição acontece no silêncio, nesses momentos de introspecção. A vida é circular: silêncio e fala. O problema é que hoje a gente está só na fala, só na gritaria, e o resultado é esse campo de comunicação pública marcado pelo ódio.
“Trago no livro várias conversas, práticas e formas de treinar o ouvido para a intuição. Fazer bolsões de silêncio é fundamental ao longo do dia. Você não precisa sentar e meditar 20 minutos, se parar três vezes ao dia por dois ou três minutos, já é muito bacana. Outra prática muito simples é a respiração consciente.”
Você conecta corpo, ancestralidade e razão. Como essas dimensões podem orientar uma comunicação que não seja só informativa, mas sensível ao que o ‘outro’ percebe?
Se estou com o corpo inteiro, não só com a mente conectada com aquilo aquilo que está na minha frente, o corpo vai dar muita informação sobre o que é certo, errado, o que devo e não devo. A escuta de corpo inteiro, essa atenção total, é inclusive sedutora, porque está oferecendo para o outro uma presença, um presente inteiro. Hoje, vivemos uma epidemia de depressão, ansiedade, burnout, problemas emocionais… Uma das razões é que a gente está perdendo a escuta do próprio corpo, dos nossos limites. A escuta desse corpo não é mimimi. Ouvir o que é subjetivo é fundamental para integrar inteligência com sensação.
E tem como treinar a intuição?
Falar sobre esse treino é importantíssimo, dessa seara do humano que é a organização dos nossos sentimentos e das nossas emoções para ouvir essa voz da sabedoria. Trago no livro várias conversas, práticas e formas de treinar o ouvido para a intuição. Fazer bolsões de silêncio é fundamental ao longo do dia. Você não precisa sentar e meditar 20 minutos, se parar três vezes ao dia por dois ou três minutos, já é muito bacana. Outra prática muito simples é a respiração consciente. Falo também do “grounding”, algo que a ciência e a neurociência vêm pesquisando para a autorregulação. Se puder, uma vez por semana, vá a um parque. São dicas para aprender a escutar mais a voz da intuição, ter mais discernimento, menos ansiedade, organizar a saúde emocional.