Reportagem

Acordo UE-Mercosul: livre comércio, geopolítica e tentativa de resgatar o multilateralismo

Economia, diplomacia e tecnologia: especialistas ouvidos pelo Amado Mundo destrincham as áreas de maior potencial do novo tratado, assinado nesta sexta-feira

09/01/2026 às 12:25 · Atualizado há 7 meses
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, em foto de dezembro de 2025 na Cúpula do Mercosul (Foto de Eitan ABRAMOVICH / AFP)

Depois de décadas de negociações, foi assinado nesta sexta-feira (9) em Bruxelas o acordo de livre comércio entre União Europeia e o Mercosul, consolidando a maior zona de livre comércio do mundo, com a reunião de cerca de 720 milhões de pessoas e um PIB de 22 trilhões de dólares.

Com esse sinal verde, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, segue para Assunção para assinar na próxima segunda-feira o acordo comercial que vinculará o bloco europeu de 27 Estados-membros às nações Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai.

E, embora a assinatura avance o processo, o acordo não entrará imediatamente em vigor, já que do lado europeu é também necessário o aval do Parlamento Europeu, que deverá se pronunciar em algumas semanas.

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Um dos porta-vozes da Comissão, Olof Gill, destacou que o acordo é fundamental em ao menos quatro frentes: econômica, diplomática, política e estratégica.

Ao longo de 2025, o Lisboa Connection discutiu amplamente o novo tratado com autoridades brasileiras e europeias, que apresentam diferentes visões sobre o acordo, suas oportunidades, os entraves e os impactos econômicos.

Veja os principais pontos em que o novo acordo poderá ampliar as oportunidades para ambos os lados:

Economia: maior comércio, geração de empregos e previsibilidade regulatória

O ponto de vista econômico é o mais citado, e, nesse sentido, o acordo é visto como um vetor de expansão do comércio, integração de cadeias produtivas e geração de empregos nos dois lados do Atlântico.

Para Jorge Viana, presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), a relação entre Mercosul e União Europeia já é robusta, mas agora pode crescer significativamente.

“Se a Europa fosse um país, ela seria o segundo maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas da China”, afirmou.

Atualmente, o fluxo comercial entre os dois blocos gira em torno de US$ 90 bilhões por ano, com exportações e importações relativamente equilibradas para ambos os lados. Na avaliação de Viana, o acordo estabelecerá uma relação de “ganha-ganha”, beneficiando a todos:

“Esse comércio pode dobrar de tamanho para os dois lados, e esse crescimento da relação comercial tenho certeza que vai gerar mais empregos tanto na Europa como no Brasil.”

Além disso, o Brasil também poderá ampliar os horizontes de importações. “O presidente Lula sempre fala que nós não queremos simplesmente vender mais ou apenas exportar mais. Nós queremos comprar mais também”, concluiu o gestor da ApexBrasil.

A expectativa também é reforçada por Aloizio Mercadante, presidente do BNDES, para quem o acordo reduz barreiras e cria condições de integrar cadeias produtivas, modelo que considera central para o desenvolvimento. “É a solução do futuro: integrar cadeias produtivas num modelo em que todos ganham e no qual os países em desenvolvimento tenham alguma oportunidade”, argumentou.

Já o ex-diretor-geral da OMC Roberto Azevêdo chama atenção para os efeitos práticos do acordo no dia a dia das empresas. Mais do que redução de tarifas, ele destaca a importância da previsibilidade regulatória, sobretudo nas áreas sanitária e fitossanitária.

“Isso pode ser minimizado com regras claras, reconhecimento mútuo e acordos de inspeção sanitária nos dois lados da fronteira”, afirmou, destacando que a tentação protecionista europeia ainda é um risco real para o estabelecimento dos termos do novo tratado.

Para acalmar a ira de agricultores e pecuaristas europeus, temerosos do impacto que teria a redução de tarifas, a Comissão Europeia elaborou uma série de cláusulas e concessões nos últimos meses.

“As prioridades agrícolas estiveram no núcleo” das negociações, e “negociamos como loucos”, destacou o porta-voz Olof Gill.

Entre as medidas, a Comissão comprometeu-se a legislar sobre os resíduos de pesticidas nas importações, um aspecto que os agricultores europeus denunciam como indício de “concorrência desleal”. E já anunciou a proibição total de três substâncias: tiofanato-metilo, carbendazima e benomilo, sobretudo em frutas cítricas, mangas e papaias.

Diplomacia e geopolítica: redução ao protecionismo e resgate do multilateralismo

Já no plano diplomático e geopolítico, o acordo é frequentemente descrito como um gesto político num momento de recrudescimento do protecionismo global.

Ex-presidente da Comissão Europeia por mais de uma década, Durão Barroso avalia que a implementação do tratado é um “excelente exemplo” no contexto atual de renascimento de barreiras comerciais: “Bom para a Europa, para o Mercosul e para o comércio mundial”.

Para ele, o cenário internacional, incluindo aí as múltiplas tensões tarifárias e geopolíticas com os Estados Unidos, pode ser lido como uma oportunidade para a Europa deixar de ser um “adolescente geopolítico” e se firmar como potência política e estratégica. Nesse contexto, a aproximação com o Mercosul ganha peso simbólico e prático.

“Em vez de a Europa criticar Donald Trump, com quem obviamente há dificuldades, temos é de fazer o nosso trabalho de casa”, argumentou ele, que continuou na autocrítica: “Não é por causa de Trump, nem de nenhum outro presidente americano, que a Europa ainda não aprofundou mais o seu mercado interno, ou não criou a chamada União do Mercado de Capitais, ainda não investiu mais na tecnologia, ainda não criou a sua própria defesa”.

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Para Mercadante, a parceria entre Mercosul e União Europeia ajuda a preservar regras pactuadas e a criar alternativas à erosão do sistema multilateral, haja visto a redução do protagonismo dos EUA como fiador do sistema.

“É fundamental para manter regras de comércio e buscar soluções de comum acordo”, afirmou.

Jorge Viana também insere o acordo numa perspectiva histórica e diplomática mais ampla, ressaltando os laços entre América do Sul e Europa no potencial da cooperação mais profunda. “Estamos formando o maior bloco econômico do mundo”, afirmou, defendendo uma relação aberta, capaz de gerar crescimento, empregos e uma presença mais assertiva dos dois blocos no cenário global.

Em termos estratégicos, portanto, o acordo é visto como uma resposta a um mundo mais fragmentado e marcado por disputas comerciais.

Política: convergência de vontades apesar de disputas internas

Politicamente, o acordo também reflete uma rara convergência de interesses após 25 anos de impasses. Para Durão Barroso, houve momentos de resistência tanto do lado europeu quanto do Mercosul.

Parte do setor agropecuário europeu ainda teme o impacto de uma chegada intensa de carne, arroz, mel ou soja sul-americanos, por exemplo, em troca da exportação de veículos, maquinaria, queijos e vinhos europeus para o Mercosul.

Os críticos do pacto, a começar pela França, acreditam que o mercado europeu pode ser seriamente abalado pela entrada de produtos sul-americanos mais competitivos devido a normas de produção consideradas menos rigorosas.

Seus defensores, como Espanha e Alemanha, consideram, ao contrário, que o acordo diversificará as oportunidades comerciais para uma UE ameaçada pela concorrência chinesa e pela política tarifária dos Estados Unidos. O chanceler alemão, Friedrich Merz, chegou a classificar a assinatura do acordo como um “marco histórico” para a política comercial da região.

Mas o cenário atual, acredita Barroso, é de alinhamento: “Neste momento houve uma convergência de vontades. Espero que isso agora seja ultrapassado”.

Ainda assim, o caminho até a ratificação dos termos ainda não está livre de obstáculos.

Carlos Moedas, prefeito de Lisboa e ex-comissário europeu para Ciência, Tecnologia e Inovação, lembra que ainda haverá resistências dentro da União Europeia. “Há muitas forças que não querem que esse acordo aconteça porque estão a pensar apenas no seu país, e não na Europa”, disse.

A França, onde os agricultores mantêm nesta sexta-feira a sua mobilização com tratores nas entradas de Paris, decretou a suspensão temporária de alguns produtos agrícolas tratados com substâncias proibidas na União Europeia, principalmente sul-americanos.

Produtores agrícolas de Estrasburgo, na França, protestam com tratores contra a assinatura do tratado de livre comércio da União Europeia com o Mercosul. (Foto de Frederick FLORIN / AFP)

Abacates, mangas, goiabas, frutas cítricas e batatas, entre outros, não poderão entrar na França se contiverem alguns fungicidas e herbicidas específicos que são proibidos na Europa.

No Brasil, Mercadante aponta que o debate também é atravessado por tensões ideológicas. Ele critica tanto setores da extrema-direita, avessos a soluções multilaterais, quanto segmentos da esquerda que, segundo ele, subestimam a importância de acordos desse tipo para o emprego e o desenvolvimento na América Latina.

Estratégia: tecnologia, ciência e inovação para gerar oportunidades

Carlos Moedas destaca ainda o potencial estratégico na área de ciência, tecnologia e inovação. Para ele, ampliar a escala — somando os mercados europeu e sul-americano — fortalece a base científica e tecnológica.

“Ao alargar a base da pirâmide, o topo do talento sobe”, afirmou, defendendo uma agenda de ciência aberta, inovação e cooperação como motor de crescimento e geração de empregos.

“Hoje eu acho que as pessoas estão a perceber que a única maneira de criar emprego é exatamente pondo esta capacidade da ciência, da inovação e da cultura juntas. Os empregos hoje já não se criam pela industrialização do século XVIII ou XIX, visto que a revolução industrial teve o seu caminho num mundo físico. Hoje estamos num mundo que é uma mistura entre físico e digital. E esse mundo só cria emprego através destas alavancas, a cultura, a inovação e a tecnologia.”

(Com informações da AFP)


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